1 de abril de 2018 § Deixe um comentário

Foram apenas algumas tentativas até se lembrar da senha e login corretos. puxa, fazia tanto tempo. como ainda sabia aquela série de números tão aleatórios e complexos? existe uma correspondência entre números e letras, claro. e uma frase mnemônica. aquele versinho do Drummond que nunca falhava – uma vida de senhas de contas bancárias, e-mails e aplicativos resumida em um único verso.

agora que entrara de novo, depois de tantos meses (anos?) sem fazer contato, tinha que se apropriar outra vez daquelas páginas em branco, dos rascunhos e do cursor latente na tela, clamando por um pouquinho de dedicação.

– mas gente, blog é uma coisa tão anos 90. pra quê? vira logo uma youtuber, com certeza daria mais ibope.

– e eu lá quero ibope, ana cláudia? – esbravejou mariah da escrivaninha.

– uai, se não quer, vai publicar pra quê?

é, vai publicar pra quê? mariah encarou a tela por mais alguns segundos. pra quê? pra nada. talvez não seja uma questão de fim, mas de motivo.

– não é uma questão de fim, mas de motivo. – gritou mariah, os dedinhos titubeantes no teclado.

ana cláudia não entendeu, mas preferiu deixar quieto. tirou o canecão de água fervente de cima do fogão, derramou com calma sobre o filtro de café.

– já pensou, receber mimos todo mês? maquiagem, sapato, bolsa… bem melhor que os boletos que a gente recebe, com certeza.

entornou a água rápido demais, o filtro se encolheu todo.

digitou a primeira frase, que soou estranha. escrever soava estranho, o som dos dedos hesitantes no teclado. como ousa voltar pra cá depois de tanto tempo? acha que pode abandonar os rascunhos por meses (anos?) e voltar como se nada houvesse acontecido? sem dar satisfação alguma? o mínimo que pode fazer é uma bela de uma faxina. olha aqui esses escritos de 2009.

ana cláudia entrou no quarto com as canecas de café, cheias até a borda. – toma. não adocei.

– eu gosto assim.

– li na internet que quem toma café sem adoçar é psicopata.

mariah sorriu e tomou um gole. tanta coisa presa ali dentro que ela nem sabia como começar.

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10 de abril de 2016 § Deixe um comentário

Percebeu, em um momento de revelação súbita, que nunca escrevera sobre Miguel.

Justo ela, que tinha por hábito anotar nas páginas gastas de seu diário os nomes de todo e qualquer homem que cruzasse seu caminho. Justo ela, que gostava de descrever, com riqueza de detalhes, o rosto, o contorno dos lábios, a profundidade do côncavo, o relevo da barba mal-feita, a dilatação exagerada das pupilas. Justo ela, que nunca fora mulher de falar, sempre fora mulher de escrever.

Percebeu que as páginas gastas, além de gastas, estavam vazias. E não por um fim de semana ocupado, mas pelo tempo que se arrastara por meses, simulando uma vida. Duas décadas em um par de semestres, fios grisalhos e rugas imaginárias que foram tomando, aos poucos, o lugar do ar pueril que um dia ela tanto detestara. Justo ela, que queria tanto crescer, e brincava de tomar café e andar pelo apartamento em reforma com sapatos que faziam barulho para se sentir velha e cheia de dores – dores nas juntas, dores de cabeça, essa enxaqueca que não passa porque a vida adulta é tão complicada. Estava agora debruçada sobre folhas vincadas, em branco. Mas não o branco puro da estréia, não o branco da novidade, da promessa de um futuro ainda não descoberto. Um branco com toques de amarelo, o branco do passado que escorreu pelos dedos, mas não sem antes sujá-los de tinta; o branco do esquecimento, das palavras deformadas escritas com força, meio apagadas, mas nunca por completo.

Justo ela, que tentava encontrar lirismo em cada frase rabiscada num muro, num poste, num livro. Justo ela, olhando para a tela do computador onde se via o rosto dele, não se sentia capaz de escrever um período que fosse sobre a história terminada antes do fim.

30 de novembro de 2015 § 2 Comentários

da janela do ônibus, Valentina observava os corpos diminuírem de tamanho, tornando-se cada vez mais dispersos, menos nítidos, mais impessoais. como se a cidade fosse uma maquete feita de avenidas de isopor e árvores de papel crepom, e os habitantes não passassem de bonequinhos de plásticos – todos pálidos, nus e sem distinção. apontou para a multidão que acenava da plataforma e fingiu interagir com os transeuntes. o senhor grisalho, que usava um guarda-chuva roxo como bengala e tinha um casaco de lã amarrado em torno do pescoço seria seu avô. setenta e quatro anos de pura saúde e forças nas juntas; articulações rijas capazes de dar conta de qualquer impacto. ele tirou os óculos e os depositou no topo da cabeça. “estão embaçados, a me incomodar. mais fácil enxergar sem!”. sorriu. na boca, a dentadura deslizava conforme as palavras eram expelidas, com calma. Valentina sabia que os óculos estavam perfeitos – ele só queria ter uma desculpa para passar a mão pelo rosto e enxugar as lágrimas que haviam se acumulado ali. ver a neta partir era sempre difícil, não importava quantas vezes presenciasse a mesma cena – e foram muitas vezes; às vezes, na mesma semana. ao lado do avô, o pai desenhava um coração com os dedos, no ar. tirou uma foto 3×4 que guardava na carteira, junto da moeda japonesa que achara na rua e do terço herdado da mãe – eram seus amuletos da sorte. acariciou o rosto da imagem, e depois encostou-a na janela molhada de sereno. apesar da distância, que só crescia conforme o ônibus lentamente se deslocava, foi capaz de traçar um esboço das principais mudanças ocorridas nos últimos anos. o pai da foto era tão diferente do pai do aceno, na rodoviária – nem parecia a mesma pessoa. o cabelo ficara grisalho, a pele escurecera consideravelmente. as manchinhas de sol que decoravam seu rosto na fotografia não existiam mais, e o sorriso tinha ficado mais tímido. ou talvez fosse a tristeza da ocasião a responsável pela ausência do sorriso. os olhos de Valentina foram percorrendo a plataforma, cada rosto desconhecido que, de repente, se tornava familiar e querido. uma tia, uma prima, o irmão mais novo, a amiga do colégio. todo mundo estava ali pra se despedir, todo mundo queria dar um último adeus, uma última olhada. guardar um pedacinho daquele momento consigo, que era pra ter do que se lembrar quando ela já estivesse longe há muito tempo. tanta gente estranha, mas era tudo que ela tinha.

flores

2 de novembro de 2014 § Deixe um comentário

havia flores espalhadas pelo quarto; flores que exalavam cheiro de velório.

se esquecera do nome das flores. costumava sentir o mesmo cheiro enquanto caminhava com sua tia pelas ruas ainda não asfaltadas da cidade, quando era pequena e gostava de correr descalça. não mudara tanto assim, mesmo com a chegada dos anos e do asfalto. ainda preferia andar sem sapatos, sentindo o frio do piso de granito por debaixo dos pés, morenos no peito e ainda mais morenos na sola – o pó que ela não varria e as cinzas dos cigarros que ela compulsivamente consumia se acumulando por entre os dedos, por debaixo das unhas, por dentro da alma que hoje era toda azul.

havia flores espalhadas pelo quarto, e ela se mordia de vontade de conjugar o verbo no plural.

no rádio, era sua nova música preferida que tocava. ouviu pela primeira vez parada no semáforo, com o volume bem alto que era para não escutar o barulho da chuva lá fora. não foi só a aversão a calçados fechados que perdurou, resistindo ao tempo que a atropelara – ela ainda tinha medo dos raios e dos trovões e da voz grave de sua tia gritando seu nome e o nome das flores que tinham cheiro de velório. um cheiro que era doce e atraente a princípio, mas tornava-se enjoativo e repulsivo quando se prolongava. dava gastura, a tia diria. ou gritaria, em seu tom de voz tão grave, com seu jeito de olhar igualmente grave.

era dessas que se apaixonam por cheiros, e por canções que tinha dificuldade para traduzir. gostava de apontar para os prazeres da vida e torná-los seus preferidos. o mar preferido, o cheiro de protetor solar preferido, a árvore preferida e a pinta preferida. agora a canção se repetindo por semanas intermináveis, apegando-se à ouvinte, depositando seus versos por cima da cômoda vazia, deixando vestígios pelas paredes mal-pintadas que percorria, emaranhando-se e embaralhando-se pelo apartamento apertado – agora a canção era parte da casa, como a trilha sonora de um filme francês de final chato e triste. como o pano de fundo de um quadro complexo demais para ser entendido por qualquer um que tenha bom senso. como a abertura da novela das nove.

depois daquele dia só escutou a mesma música, sem cessar. no rádio do carro, no rádio do quarto, no rádio do seu micro escritório de trabalho, enquanto digitava palavras cujo significado desconhecia. agora, despida na frente do espelho, maquiava-se e sibilava, tentando imitar a forma como a cantora jogava as palavras para o alto, numa bagunça de rimas que se confundiam e se desconstruíam, para depois se construírem de novo. em seus passeios pelo dicionário acabou por entender um trecho, para o qual fez questão de apontar e gritar, meu novo trecho preferido. quando estava se afogando, era quando finalmente podia respirar.

afogava-se pouco a pouco no cheiro de velório.

de repente lhe ocorreu que nunca fora a um velório. aquele era o único contato que tivera com a morte – o cheiro das flores. sentou-se no chão, as pernas de índia cruzadas como pernas de índio. a pele escura em contraste com o tapete alvo e felpudo, quente. os cabelos longos lhe cobriam o rosto periodicamente, graças ao ventilador. queria cortar o cabelo. queria mudar-se para a praia. queria ter uma bicicleta.

ficou estática, brincando de estátua humana. se se mexesse, morria. não queria morrer, mas as flores já estavam ali, e a música que achava tão bonita dava ao momento um tom propício. se morresse, não seria uma morte tão feia, afinal. seria triste – como o fim de um filme francês. teria um final francês, mas que privilégio. quantos podem se dar esse luxo hoje em dia? morreria morena, com os cabelos ao vento, com o corpo nu. crua como se sentia, com cheiro de perfume barato e de velório, com as paredes meio brancas meio azuis, com os lábios machucados de tanto que os mordiscara noite passada. morreria sentada no chão, encarando o próprio reflexo. mas só se se mexesse. ainda existia a possibilidade da ausência do movimento, da vida.

o reflexo no espelho lhe dizia muitas coisas, mas era preciso estar bem quieta e atenta para entender, porque falava rápido e baixinho. quase como um sussurro, quase como o som do ventilador rodopiando ao redor do eixo, como a terra dando voltas em torno de si mesma, como a música se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo. o reflexo tinha olhos inchados e rímel borrado, e se parecia com alguém que ela jurava que conhecia. olhava com cuidado, porque reflexos costumam ser instáveis. olhava discretamente, porque tinha de ser educada. olhava com um olhar assustado, porque as flores estavam ali a observando, e ela não desejava a morte. o reflexo pronunciou um nome e ela soube ler, vagarosamente. ri…carrrrr…do. os lábios se fecharam subitamente. como uma porta que alguém esquece de encostar, e subitamente o vento sopra e ela se fecha. como um caixão ornamentado que armazena um corpo pálido e gélido, e subitamente alguém se despede e ele se fecha. como olhos que num instante estão despertos, dispersos, brincando de analisar o teto, e subitamente o sono chega – e se fecham. os lábios se fecharam e a palavra ficou suspensa no ar denso, navegando pelas ondas do cabelo dela, voando junto dos fios, no frio do quarto, no calor do tapete quente, galgando os degraus da pele morena e suja e cheia de pintinhas microscópicas, a constelação de capricórnio. ela se lembrou de um pedaço de livro que a mesma tia das flores e da voz grave lera uma vez para ela. falava dos olhos nus, da ausência de cílios postiços. não sabia o que porquê de lembrar, mas se lembrara. olhos nus, como nua ela estava. mas ricardo era uma palavra forte, que provocava reações adversas, sensações das mais diversas. era quase como uma dor física. era quase como arrancar uma camada de pele. e poderia se levantar e quebrar o espelho, para que o reflexo fosse embora e nunca mais voltasse. reflexo atrevido, desenterrando histórias que naquele mesmo quarto foram sepultadas. mas as flores estavam de olho. não se mexeria e continuaria viva, com o corpo se sentindo tão pesado e tão cansado – de repente o cheiro das flores tornou-se insuportável, fazia o ar pesar como se estivesse sustentando o mundo nos ombros estreitos. e pensou que o cheiro das flores era como o cheiro de ricardo – como o cheiro de morte. e pensou que as flores eram como ricardo. doces e atraentes a princípio, tornando-se enjoativas e repulsivas conforme se prolongavam.

19 de setembro de 2014 § Deixe um comentário

Tomara que a chuva amaldiçoe Beagá com poças tão profundas quanto o silêncio que se instalou entre nós dois.

Tomara que você tropece no próprio cadarço, e se derrame sobre uma dessas poças quando for descer do ônibus, na rua da Bahia.

Tomara que suas meias fiquem encharcadas.

12 de agosto de 2014 § 1 comentário

A vista da minha nova janela me faz querer escrever.

Escrever na terceira pessoa.

No entanto, nada me ocorre. Nenhuma anedota, nenhum causo. Nenhum diálogo peculiar na fila do banco ou do banheiro, nenhuma paisagem digna de documentação, nenhum personagem suficientemente caricato. Nada me ocorre, enquanto lá fora tudo corre – a senhorinha de cabelo cor-de-rosa, que passeia com seu cão. O garoto de cabeça raspada, que se sente particularmente inteligente só porque lê livros sobre leis.

O tempo, desse lado da janela, vai passando como numa cidadezinha interiorana, em que tudo pode ser descrito com adjetivos empregados no diminutivo. Vai passando como quem passa as férias na casa dos avós, comendo bolo de fubá, colhendo jabuticaba no pé… vai passando como quem não quer nada, devagar quase par a n d o.

Do outro lado da janela tudo são flores, e cores, e árvores tão altas que quase me alcançam. Do outro lado da janela, tudo são prédios, tão altos que eu já não sei dizer até onde vão. Do outro lado dessa janela velha, que para mim é nova, as pessoas voltam do trabalho, do almoço, da escola. Voltam de outras vidas, correndo em direção à certeza do conhecido – a rotina, o destino.  Do outro lado da janela existe a cidade, grandiosa e repleta de placas e carros e motos e mendigos. E tão longe de casa, desse lado da minha nova janela velha, eu me sinto um ser à parte, que observa sem interferir – como um narrador que sabe de tudo mas prefere deixar cada ser seguir seu próprio caminho, cheio de morros que nos fazem desistir de ir até a padaria no fim da rua.

the last time

16 de maio de 2014 § 5 Comentários

Foi amor à primeira nota.

Olhou para o palco, enfeitiçada. A palavra era essa, por mais antiquada e clichê e rickerenneriana que soasse. Completamente enfeitiçada. Tá certo que as duas taças de álcool consumidas às pressas contribuíram para o desnorteamento da moça, que perdera o chão, o ar e os óculos. Mas mesmo com a vista embaçada e com os cílios poluídos, cobertos de rímel, turvando ainda mais a imagem mal iluminada, ela seria capaz de detalhar para as amigas o desenho do rosto dele (como faria, horas mais tarde, pelo telefone). ‘Dele’ leia-se: do dono daquela voz. E que voz. E que repertório. E que sobrancelhas. Da mesa em que estava, que apesar de perto parecia agora estar demasiado longe, podia observar com clareza (ou o mais próximo disso que uma quase bêbada um tanto lúdica e embriagada de rancor podia chegar) o movimento leve que as duas linhas grosseiras e escuras faziam, subindo e descendo ao som da música.

Evidências.

Cantar sertanejo romântico em uma sexta à noite num karaokê pouco frequentado era golpe baixo. E justo na noite em que ela decidira usar seu vestido preto. E beber mais do que estava habituada. E passar rímel azul nos olhos, e se deixar comover, e se lembrar dele. ‘Dele’ leia-se: do dono de um outro par de sobrancelhas, quase unidas em prol de fazer o coração de qualquer adolescente sonhadora se despedaçar. Da última vez que o vira ele trocou os lábios pelas bochechas – um beijo doce mas tão breve, ou talvez, por ser breve, tão doce. Seus olhos se encontraram e a cena foi sucinta: – até outra hora…

Caminharam em direções opostas, porque a vida é feita de desencontros.

Seu nome era Luciano. Tinha um sobrenome comum, desses que você encontra em sete a cada dez pessoas. Souza, Santos, Gomes… Lopes? Talvez fosse Maciel, ela já não se lembrava. Vinha do Rio e falava arrastado, fazendo biquinho, um sorrisinho besta surgindo no canto dos lábios. Tinha os olhos estreitos, pequeninos e infantis. Tão escuros que as íris quase se fundiam às pupilas, pareciam olhos de cavalo, meio tristes, meio arredios. Como se estivesse sempre arrependido – um pedido de desculpa a cada piscadela. Gostava de cruzar os braços enquanto falava, de coçar o lóbulo da orelha enquanto dava risada. O lóbulo quase que completamente preenchido pelo brinco brilhante. Ela detestava o brinco. Uma vez quase o arrancou – ela pensou em usar os dentes, mas seria erótico demais. Acabou optando pelas unhas compridas e pintadas de preto, que era pra combinar com o luto em que se afundara desde a morte de sua sensatez, quando passou a gostar de cariocas exxxnobes que iam longe demais com as mãos. E que mãos.

A essa altura não sabia se pensava no moço do palco ou no moço do passado, ou se ambos eram a mesma pessoa. Também não se lembrava tão bem da cena final. Era como um desenho a ser colorido: simples a princípio, e cada vez mais bonito e elaborado conforme ela o pintava com trilhas sonoras e alterações discretas nas falas e no figurino. A única certeza era que ele havia partido, partindo também o brinquedo de corda que ela guardava no lado esquerdo do peito, junto dos amigos.

(Mas o último beijo não havia sido na boca? Urgente, pesado, impreciso. Molhado pela chuva, repleto de saliva e lágrima. Sacudiu a cabeça, esfregou os olhos. Sabia que estava reinventando. Era fim de janeiro, calor insuportável, e há meses não chovia. O moço do Rio de Janeiro continuava lindo.)

Voltou a acompanhar com os olhinhos curiosos, cada vez mais vermelhos graças ao sono, o rapaz que cantava. Agora estava no fim da segunda música, e essa ela não conhecia. Mas era bonita. E como não seria? Com uma voz daquelas ele poderia recitar palavrões se quisesse, que pareceriam poesia.

E a taça sendo entornada.

Quando se viram pela primeira vez o bêbado era ele. Camisa social machada de vinho, óculos de grau pousados sobre o nariz achatado, braços cruzados – porque era sempre ele quem falava – e queixo erguido, sinal do orgulho de ser. Ser carioca? Ser jovem? Ser corajoso? Ser carismático? Tinha orgulho de estar vivo, de desbravar o mundo, de olhar para a mulher que quisesse e consegui-la com o franzir das sobrancelhas. Elas estavam pesadas, diminuindo ainda mais o tamanho dos olhos. Olhou para ela e gostou do que viu: a camiseta de banda. Se ela gostava de Kiss? Nem um pouco. Se mentiu até o fim do quase relacionamento? Com certeza. Não era tão difícil, decorava os nomes das músicas e dava pause sempre que ele roubava os fones de ouvido. Ele nunca soube das verdadeiras intenções dela – ouvir a trilha sonora de Shrek enquanto ele ia para o trabalho, desembrulhar os cds de Alanis Morissette enquanto ele tomava banho, só para admirar e depois esconder tudo de novo, nenhuma suspeita do crime perfeito. Porque não importava o que ouvia, se o som predileto era o da voz dele. Não importava o que lia, se o texto predileto eram as entrelinhas do que ficava entre o dito e o não dito, as linhas de expressão no rosto, as manchinhas nas costas da mão – tudo no diminutivo, só por causa do olhar pueril. Mas de todas as cicatrizes do corpo, de todas as formas da silhueta, de todas as palavras, honestas ou falsas, de todos os cabelos do peito deixados nos lençóis, o detalhe predileto nem chegava a ser um detalhe. Gostava de quando ele revirava os olhos depois de uma sentença absurda dela. Quando ria e jogava a cabeça para trás, porque ela era inteira absurda. E depois, tão distraído e rápido que o ato vinha como havia sido concedido, sem planejamento ou avaliação, aproximava os dedos dos cabelos dela. Não para colocar atrás da orelha, como nos filmes. Só pousava a mão ali, e deixava ficar. Sem subentender nada, sem esperar continuação. Apenas o gesto de pousar a mão.

(Foi assim que ele a deixou: dormindo tranquila no sofá do apartamento dela. Fingindo que dormia, na realidade. Ela podia ter se levantado para questionar, argumentar, protestar. Mas não faria sentido, não surtiria efeito. Luciano insira-aqui-um-sobrenome-comum era um desses homens de ombros largos e olhos estreitos, palavras duras e coração mole. Se ficasse tempo demais criaria raízes, e criar raízes é sintoma de amor, é sinal de deixar-se tocar e comover. Imagine, um homem tão orgulhoso de ser. Chegou bem perto, com aquele perfume forte que dava dor de cabeça, mas tão gostoso que ela suportava e ainda pedia que usasse. Chegou bem perto e pensou num beijo. Mas só pensou. Colocou os dedos longos e enrugados, graças ao banho recém-tomado, no topo da cabeça dela, os cabelos bagunçados graças ao sono e à turbulência dos pensamentos. Não moveu a mão, não fez carinho, não colocou a mecha por trás da orelha. Só deixou os dedos ali, por alguns segundos. Dessa vez não teve risada e não era ela a absurda. A única coisa absurda que havia ali, como ele pode constatar assim que deixou o lugar, era a vontade louca de ficar. Enxugou o rosto – suor e lágrima – com as costas da mão. Sabia que estava reinventando. Mas e daí? Não havia ninguém para desmentir, nenhum fato para comprovar. Eram apenas ela, a garrafa de vinho e o rapaz comovente do palco. Apenas eles e a sensação de frescor e dormência que sextas-feiras traziam.)

Levantou-se da mesa, puxando o vestido para baixo, na tentativa de aumentar o decote. Olhou em direção ao palco, e teve a sensação de ser olhada de volta. O cantor estava já na última música – uma canção espanhola, de despedida. Acenou com a cabeça. Sabia que ele também estava apaixonado por ela.

Ele só via os olhos borrados de rímel, a cena deprimente da moça jovem tropeçando nos sapatos sem salto. Sentiu pena. Queria oferecer ajuda, ligar para os pais, secar-lhe o rosto todo sujo e molhado. Mas já era tarde, porque ela atravessava a porta do estabelecimento. Já era tarde, porque era a canção espanhola da despedida. Já era tarde, porque era, de fato, tarde.

E o Rio de Janeiro continuava lindo.

 

ps: sutileza define.