28 de dezembro de 2011 § Deixe um comentário

Amanda cambaleou até o carro, o vestido curto e vermelho levemente levantado, os sapatos de salto carregados pelas mãos brancas.  Bateu a porta com força – ela sabia o quanto Ismael detestava aquilo, e por isso o fez. Ao ver o lampejo de irritação nos olhos dele, sorriu.

Ismael esperou alguns segundos antes de entrar no carro. Com os dedos massageando nervosamente as sobrancelhas, respirou fundo e contou até dez, numa tentativa falha de se acalmar antes de enfrentar um percurso ao lado da esposa, que, como de costume, estava bêbada.

– Ei, querido – ela cantarolou pela janela do carona – não vai entrar? Já está tarde, é perigoso ficar ai, no meio da rua. Veja só, já são… São… – ela se confundiu tentando adivinhar as horas. Sempre tivera problemas com os ponteiros do relógio, e estar meio tonta só tornava a tarefa mais difícil – são nove… Não, calma… São onze, onze e meia? Espere, eu… Querido, entre! Eu não consigo ver as horas! Venha me ajudar, eu… Ai, porque você ainda está ai fora?

Amanda começou a gargalhar enquanto girava o relógio de pulso nas mãos, os olhos se apertando e os números se embaralhando dentro da cabeça dela. Ismael entrou no carro, tirou o relógio da esposa e guardou-o dentro do porta-luvas, depois fechou a porta violentamente, zangando-se com o barulho.

– Droga.

– Está bravo? – Amanda corria seus dedos frios pelos fios loiros do cabelo dele.

Ismael não respondeu, apenas ligou o carro e colocou o cinto de segurança, as mãos apertando o volante com força.

– Ismael? Não vai falar comigo? Ismael… Não faz assim, querido – ela beijava-lhe os cabelos, e depois a face, até que ele a afastou de si, um empurrão que a fez gargalhar. – Por que parece que estamos sempre brigando, querido?

– Porque estamos sempre brigando.

– Por quê? – ela se aproximou novamente, os dedos dançando pelas pernas dele, arranhando de leve a calça jeans desbotada. – Por que a gente não fica… Não fica bem? Por que a gente só não se diverte um pouco, hein? Pra variar…

Ele colocou as mãos sobre as dela, depois as carregou para longe de si, uma força maior do que a que seria necessária.

– Ei, pare com isso! Você me machucou, Ismael! Veja o que fez com meu pulso! – ela apontou o braço avermelhado para o marido, mostrando uma mancha de batom que percorria todo o caminho azulado de suas veias, os rios de sangue que se arrastavam pela pele pálida. – Espere… – ela aproximou o braço dos olhos, e, ao notar que aquilo era maquiagem começou a rir novamente – Ah, é só meu batom! Como isso aconteceu? Minha maquiagem… Está borrada, querido? Estou bonita? Me diga que estou bonita, diga. Estou?

– Você está bêbada.

Ela franziu o cenho, depois se encolheu no banco e virou-se para a janela. Do lado de fora do carro a noite escura parecia querer engolir os dois. Talvez fosse melhor, ela pensou. Poupar-me dessa discussão, de outra discussão. Seria o quê? A quarta briga na noite? Primeiro por causa do vestido curto, depois o comportamento ‘impróprio’ no bar, a risada escandalosa, a forma como sorria para o garçom, o vestido curto, a freqüência com que ia ao banheiro, o vestido curto… Como se Amanda nunca fizesse nada certo, como se quem ela era fosse motivo o bastante para que ele ficasse zangado. E agora eles iriam para casa, Ismael gritando duras verdades modificadas na cara dela, molhada de lágrimas e manchada de rímel. Tudo bem. Ela estava bêbada. Aquilo tudo seria apenas outra dor de cabeça na manhã seguinte, e ao anoitecer ela faria aquilo outra vez. Ismael interpretaria seu papel, o marido injustiçado, o casal turbulento, mas, apesar de tudo, feliz. Feliz. Era feliz. Era feliz? Às vezes Amanda cometia o grave erro de se fazer a pergunta. Não acontecia com freqüência, só muito de vez em quando, antes de sair para mais um de seus jantares. Olhava-se no espelho, orgulhosa do belo corpo que tinha, envolto em um de seus vestidos curtos e provocantes, a maquiagem carregada, o cabelo penteado. Era jovem, tinha de estar bonita, arrumada. As pessoas reparavam. E, quando a viam com seu marido, que tinha o dobro de sua idade, deviam pensar na sorte que ele tinha de ter se casado com ela. E ela pensava em sua própria sorte. E na felicidade. Um dia alguém lhe disse que a gente não nasceu para ser feliz. Felicidade, para quê felicidade? Pode-se viver bem sem ela. A questão não é essa, pensou. Não sabia se havia questão, e, se havia, qual era. Mas não importava. A questão não era aquela.

– Honestamente, Amanda, não sei por que faz isso comigo. O que você quer agindo assim? Me envergonhar? É isso? Por isso se comporta desse jeito?

– Você fala como se eu fosse sua filha.

– Talvez seja assim que eu te veja quando estou com você, e você age desse jeito.  Como se eu fosse seu pai, e você uma adolescente rebelde, sem nenhum senso, sem nenhuma noção do que é certo e errado. Honestamente…

Amanda ficou quieta. Observou Ismael gritando, o rosto vermelho, as sobrancelhas grossas se unindo sobre os olhos que se apertavam, ele se esforçava para não chorar. As lágrimas começavam a escorrer pelo rosto envelhecido,  uma das mãos trêmulas enxugou a face enquanto a outra conduzia o carro. Nunca lhe disse, mas às vezes também tinha a impressão de que aquele, no banco do motorista, era seu pai, e não seu marido.

Ela tirou um cigarro do maço que estava jogado debaixo do banco, aquele que ela guardava para ‘emergências’. Tinha prometido a si mesma e ao marido que não voltaria a fumar, mas eram tantas promessas, ela nem se lembrava mais. Só queria que as coisas voltassem a ser como antes, quando estar ao lado de Ismael era uma diversão, e não uma obrigação. Quando a noite terminava em beijos e risos, e não em lágrimas e gritos. Pensou em pedir desculpas. Não sabia exatamente pelo quê – pedir perdão por estar embriagada? Parecia ridiculo, e de fato seria. Pedir perdão por não conseguir mais estar ao lado dele sem antes ter bebido, até não entender uma palavra do que ele dizia? A culpa nem era dela, o que podia fazer se o marido havia se tornado maçante? Ou então podia pegar suas coisas e ir embora. Fugir para a casa do pai, ou passar a noite em um hotel, até decidir onde ficar. Poderia ir para a casa de algum amigo, ou esperar até que amanhecesse em um bar, na companhia de algum homem mais divertido que Ismael. Algum cara legal que lhe pagasse o café da manhã. Depois veria o que fazer, não tinha muita importância, afinal de contas. Qualquer programa era melhor que dormir ao lado do marido naquela noite, ouvindo-o lamentar por mais um erro cometido. “Por que está sempre agindo como uma adolescente, Amanda?”.

A cabeça doía, e o mundo ao seu redor girava enquanto o carro andava depressa. Tinha começado a chover, Amanda sentia os pingos gelados entrando pela janela aberta enquanto a fumaça do cigarro embaçava o céu estrelado, as ruas silenciosas e molhadas. Talvez devesse descer ali mesmo, voltar para o restaurante onde haviam jantado. Talvez devesse pedir para o marido parar o carro. Ismael… Ainda chorava? Agora estava em prantos, Amanda detestava aquilo, detestava ver um homem chorar. Fraco. Idiota e fraco. Idiota, fraco e babaca.  Nunca sentira tanta repulsa por ele como naquele momento, queria ir embora dali, queria estar longe de Ismael. Estavam correndo demais, sentia o vento bater no seu rosto com força, quase como se a vida estivesse lhe dando tapas. Ismael chorava mais alto, e gritava. Ela não entendia o quê, não entendia o por quê. “Mas que droga, Ismael, vá com cuidado!”

Ele não ouviu. Ou ouviu, e, por isso, acelerou. Estava com raiva, raiva de sí próprio, raiva de Amanda. Amanda. Tão nova, bonita. Tão arrumada, tão provocante. Amanda. Amanda e seus amigos, aqueles rapazes. A forma como olhavam para ela, a forma como todos comentavam. Era tão óbvio, estava fazendo papel de bobo. Amanda, acha que sou idiota? Ele acelerou ainda mais, o carro deslizando na estrada encharcada.

As árvores passavam como vultos do lado de fora da janela, o vento frio, a chuva estava ficando mais forte. Amanda sentia o carro correr cada vez mais depressa.

Apertou a coxa de Ismael, “Ismael, quer nos matar? Vá mais devagar! Preste atenção! Ismael!”

“Ismael! Isma…”

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