Chá verde

23 de junho de 2012 § 8 Comentários

Lóri N., a dor não é motivo de preocupação. Faz parte da vida animal.

Esse livro veio parar na minha estante, e eu não quero que você pense que eu amoleci e leio coisas de mulherzinha. Em minha defesa, foi por causa de uma dissertação.  É só que… me fez pensar em você. Todo o tempo. Eu te vi na Lóri, você sabe… você sabe porque também se viu, quando leu. Lembro de como ficou toda emocionada, toda empolgada, tinha se encontrado no livro. Te encontrei lá também. Eu pensei em você, e no porque de você chorar quase toda noite. Por que, N.? Por que gosta de fazer isso consigo mesma? Não é tão divertido quando não há algo pelo que se arrepender? Quando não há motivo para sentir dor? Acho que a questão é essa – a espera. Você espera demais, e de tudo. Da vida, dos outros, de você. E eu só espero que você um dia perceba – e porque não hoje? Por que não agora? Abra esses olhos ligeiramente tortos, meu amor, abra e veja, é tão claro. Abra e respire, inspire, enxergue… sinta tudo com os cílios, as pálpebras… sinta tudo e transborde (esse ‘transborde’ soou meio gay?) – que não importa o quanto você espere, não importa. Você pode esperar por um dia ou um mês, um mês ou um ano, nada nunca vai ser do jeito que você quer; As pessoas – não chore, tá bem? – não vão ser como você quer que sejam, porque… bom, N., porque elas são pessoas. E esse é o ponto. A espera não ameniza, ela só piora. Ela só adia. Esperar não vai deixar tudo mais fácil – sabe essa história de que o tempo tem o poder de mudar as coisas? É mentira. O tempo não muda nada. Só atitudes mudam, e eu não quero que isso soe como uma lição de moral, ou um sermão de igreja, mas já tentaram esperar antes. E não funcionou.

Eu detesto essa sensação que me invade toda vez que te escrevo, como se eu estivesse falando bobagem, ou sei lá. Eu só… eu só detesto a ideia de que você desperdiça seus anos e sua face e suas fronhas com lágrimas e palavras duras quando tudo podia ser leve e doce. Sabe do que você precisa? De um grito. Dê um grito. Um palavrão, um elogio, um substantivo abstrato, qualquer coisa. Um nome. A palavra proibida. Lembra dela? Porque não quebra a regra e grita? Bem alto, até sentir que toda a força e toda a raiva e toda a agressão e toda dor se foi, porque é um grito que te rouba as energias e a voz, que te tira o espírito e o devolve limpo e tranquilo, novo. Grite, N. Grite, amor. Grite por mim, no meio da rua, enquanto os carros correm e as pessoas vivem. Grite enquanto os outros olham e pensam em como você é bonita. Porque você é. E eu te amo. Não basta? Não. Pra você nunca nada vai bastar – mas tudo bem. Sei disso, e faz parte. Parte dessa sua natureza linda e complicada.

Um dia isso vai ter passado, e você vai ver que nada é pra sempre, N. Nada dura tanto a ponto da gente não poder olhar pra trás e ver que é verdade o que dizem por ai: juventude é sinônimo de ingenuidade – os jovens são todos bobos (mas eu nunca disse que ser bobo é ruim). Acho que é assim que a vida funciona… envelhecer não é fácil pra ninguém, porque envelhecer é conhecer, é descobrir. E conforme a gente chega perto das respostas, conforme a gente conhece o mundo e se conhece, percebe que não é como ensinaram pra gente. As coisas não são tão simples. Mas a gente pode fingir que são.

Eu vou te deixar só, pra você poder gritar. Escute Keane, Oasis e Jaymay. Não resista tanto – eu não quero que você chore, mas não quero que se aprisione. Sentir é natural, N. Sofrer é natural, e mudar é natural. Não mudar pode ser também. Não se cobre tanto, porque o propósito não é chegar lá (seja lá o que lá for) mais depressa que os outros. Aliás, não há propósito. Leia Clarice, e escreva também. Desenhe olhos no rodapé da apostila, e rabisque uma palavra bem feia na última página de um livro. Pinte de vermelho e pronuncie. E se perdoe. E então eu vou voltar, pra ouvir você recitando Quintana. Adeus, N. Eu ainda sou seu.

D.”

 

ps1: Vermelha 2, obrigada por me apresentar Jaymay, mesmo que indiretamente (é, andei fuçando nas suas coisas,  rs).  O som dela é lindo e me acompanhou durante essa noite.

ps2: Eu preciso de Clarice. Urgentemente.

ps3: É. As coisas só pioram. Hm.

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10 de abril de 2012 § Deixe um comentário

“Querida Liza,

Posso te chamar assim, de querida? É o que eu tenho feito nessas semanas, tenho te querido muito, o tempo todo. E é só por isso que eu bebo, você sabe. A intenção real é justamente essa, esquecer-me da minha quase namorada. Não costuma dar certo.

Desculpe demorar tanto, o curso ocupa meu tempo possessivamente e eu quase nem observo as paisagens, sejam elas compostas de flores ou de mulheres, tudo me é só um amontoado de quadros que presenciam a minha constante vontade de pegar um avião e ir até ai, ver você. Mas eu poderia ter escrito antes. Eu só não quis. Eu não sabia o que te escrever, Liza, eu não fazia ideia. Passava a maior parte das manhãs mormacentas planejando o que te diria, desenhando na carteira as linhas repletas de saudades e de pedidos de perdão ‘é que eu não tenho tido tempo…’. Mas percebi que tinha de falar contigo, e logo, quando li sua última carta.

Sinto sua falta. Loucamente. E eu só entendi o verdadeiro significado desse advérbio quando, noite passada, sem conseguir pregar os olhos embora eles estivessem embebidos de sono, me deitei no chão da sala de estar (tudo em minhas mãos, nada em seu olhar) e chorei. Eu nunca me senti menos homem, nunca me senti mais homem. Entende? Eu não entendo, então me explique. O que a sua ausência não me faz, Liza? Loucamente. Chorei feito uma criança, por sua causa, por nossa causa, por causa desse bebê. Liza, eu te amo. Eu te amo e eu percebi que te amo mais do que eu mesmo julguei que amasse quando, deitado no piso frio, renunciei a mim mesmo e decidi que te quero e quero esse filho, e quero estar ai com você agora. Nem na noite em que eu fui seu e você foi minha eu te amei tanto, Liza. Nem naquela biblioteca eu tanto te amei. Você nunca me terá mais do que me tem nesse instante, porque você me tem inteiro, não há uma fibra do meu ser que não implore por sua presença agora. Liza, eu tive que recorrer às minhas lembranças mais perigosas noite passada… Não é justo. O que você faz comigo não é justo.

Você tinha razão – sobre a bolha de alienação. Mas eu não sou o mais indicado para te salvar (eu sou sua perdição, não sabe? Corra antes que seja tarde, Liza, corra, corra, corra); sou só o garoto metido a poeta que aprendeu a tocar violão sozinho e se gaba pelo número de livros que lê. Só o garoto assustado que fugiu para Curitiba ao menor sinal de ameaça, ao menor sinal de você. Eu é que preciso de ajuda, Liza. Eu.

Passo a maior parte do tempo estudando, e gosto disso. É uma forma de me manter ocupado. Tenho aprendido muito, sinto que estou finalmente fazendo o que deveria, o que eu nasci para fazer. Sua fantasia da câmera e das mãos trêmulas não é muito distante da realidade – embora eu goste de visualizar a cena de uma forma um tanto mais rude e máscula. Parei de tomar café e comecei um tratamento odontológico, caso queira saber. Meus dentes vão voltar um pouco menos amarelos – espero que não se importe. Lolita está longe de ser sujo, Liza. Você ainda tem muito o que ler…

Quanto ao sotaque das moças, não se preocupe, as coisas que você diz superam qualquer beleza no jeito de falar. Além disso, eu gosto do seu jeito… caipira.

Eu quero telefonar, para conversarmos direito, sobre tudo. Diga-me a que horas está em casa, da última vez que liguei não encontrei ninguém. Estou sem meu celular, por isso vou telefonar de um orelhão. Temos tanta coisa para resolver, Liza.

Eu te amo, e espero ouvir sua voz em breve, ou ler qualquer coisa que você me tenha escrito.

Se cuida.

Chico.

 

P.S.1: Eu só acredito porque a verdade está diante de mim e certas coisas a gente não ignora, Liza. O que você precisa é abrir esses lindos olhos para o mundo que te espera lá fora. E eu vou estar aqui para quando acontecer.

P.S.2: O que eu tenho lido, além de jornais e gibis? ‘A branca voz da solidão’. Quando terminar te digo o que achei.”

5 de abril de 2012 § 2 Comentários

“Ai, Chico, anda tudo tão complicado, tão esquisito.

Tem feito um calor desgraçado aqui em São Paulo, e talvez seja por isso que chove tanto – só que do lado de dentro. Alguém citou Quintana ontem, na aula, e ai eu lembrei de você, instantaneamente. Você que é louco por ele, você que conhece os versinhos mais desconhecidos, e que sai cantarolando poesia por ai. Quem deu a ele o direito de roubar seus versos, nossos versos? Eu queria que fosse você sentado naquela carteira toda pichada, que fosse você ali do meu lado, dormindo a maior parte do tempo, e ainda assim tirando as notas mais altas. Essa sua mania insuportável de se fazer de bobo, quando é claro como água que sabe mais da vida que qualquer um.

Como andam as coisas ai, onde você está? Me disseram que Curitiba nessa época do ano floresce que é uma beleza, as ruas movimentadas ficam todas enfeitadas e coloridas, tudo natural e primário, tudo cru. E o curso, como vai? Eu até te imagino saindo afobado pelos centros comerciais, a câmera nas mãos trêmulas, as perguntas escritas num roteiro que obviamente você vai acabar ignorando. Você é tímido demais pra essas coisas, sabe. Mas você se sai bem mesmo assim, porque você acredita. E é nesses dias de chuva no meu quarto que eu queria ter toda sua sabedoria e toda a sua fé. Toda a sua crença, mas eu sou tão pessimista. Ah, como eu desejo ter um dia essa sua certeza de que no fim as coisas ficam bem, que o que tem que ser tem que ser e pronto, não adianta nadar contra a maré, a gente tem que saber conduzir nosso barquinho de acordo com os ventos. Por que você sempre foi tão certo e eu sempre gostei mais de errar, hein?

O que você tem lido? Além dos jornais e dos gibis, eu quero dizer. Eu comprei um livro… aquele que você indicou, lembra? Lolita. Sujo demais, não? Credo. Só você pra ler um livro desses. Mas você tá certo. Me fez entender um lado humano que eu não conhecia. Não… Entender não é a palavra. Acho que eu quis dizer conhecer. Eu nunca fui apresentada a isso, eu nunca tive esse encontro casual com a realidade. No fundo meus pais tinham razão, esse tempo todo: eu vivo no meu próprio mundo, num mundo rosa e imaginário. Eu quero sair dessa bolha de alienação, Chico, e só você mesmo pra estourá-la com seus dentes amarelos. Cadê você?

Eu ando tão atarefada, é por isso que eu demoro tanto pra escrever. Eu sei, não te devo satisfações. Mas eu quero dever, porque só assim eu vou sentir que você também me deve, que você tem um tipo de compromisso comigo, um tipo de obrigação. Eu não gosto de pensar que você está ai e eu estou aqui, e dizem que as mulheres dessa região tem um sotaque bonito. Você gosta do meu sotaque? Eu espero que você não volte pra cá com um jeitinho todo marrento de falar – e espero, mais que tudo, que você volte.

Me escreve. Escreve sobre a cidade, sobre o café que você toma toda manhã, sobre o porre da noite passada (não adianta, querido, você não me engana – sei que bebe, e bebe muito. Tente não ficar tão bêbado a ponto de não se lembrar que tem uma quase namorada), sobre o frio do fim da tarde e sobre a lua cheia que ilumina o céu que paira sobre a sua casa. Com o que você sonha? Talvez eu possa te dizer o que esses sonhos todos significam… Me conte sobre os lugares que você conheceu, me conte qualquer coisa, qualquer detalhe, só pra eu saber que você está vivo e está bem, que você lembra de quem eu sou e lembra que costumava gostar, mesmo que só um pouco, de mim.

É isso. Aguardo (mais ansiosamente do que deveria) notícias suas. Desejo de verdade o melhor, boa sorte com seus estudos, embora sorte seja sempre dispensável quando se trata de você.

Eu te amo, e você sabe.

Liza.

P.S: eu não ia dizer nada, estava esperando você ligar… mas eu ia acabar perdendo a coragem. De qualquer forma… Eu estou grávida.”

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