28 de junho de 2012 § Deixe um comentário

Mas eu acho que na maior parte do tempo tudo o que eu sou é medo.

Ele tinha olhos de caleidoscópio – e eu nem sabia o que essa palavra queria dizer. Por que nós estamos sempre complicando as coisas? Eu queria que você entendesse sem eu ter de explicar, sabe? Queria que percebesse nos olhares vagos, nas palavras mudas, nas músicas tristes e no caminhar pacato. Mas você não entende. É pedir demais, é sonhar utopias. Não vai acontecer. Então eu espero.

mais uma de amor – e se amanhã não for nada disso, caberá só a mim esquecer

5 de junho de 2012 § 2 Comentários

Mas eu gosto de todas as pequenas coisas a seu respeito, todas aquelas pelas quais você se crucifica e lamenta.

A cor indefinida dos olhos. O sorriso largo e sarcástico, que escapa sem consentimento, sai disperso e satisfeito, a gargalhada que se segue, tão liberta e tão tímida. A voz envelhecida, quase tanto quanto o rosto. Cada linha que se ramifica, cada desalinho das sobrancelhas grossas, o ângulo perfeito do nariz, as costas largas, as mãos sujas de tinta. Os dedos e as unhas, e os pulsos. Os pulsos. O pescoço. Você flui como música, soa como poesia. Rude feito bicho, uma delicadeza forçada que não convence – cada passo um sacrifício, mesmo harmonioso segue pesado, o mundo erguido por sobre os ombros másculos. Eu não mudaria nada. Cada palavra toca tão fundo, como um tiro em direção ao peito. Não sou à prova de balas, tenho ódio de exclamações e medo dos pronomes pessoais. Mas só um pouco. Você me faz perder os medos, e eu tenho tanto medo de te perder. Tudo contraditório, só não me deixe ser, não me deixe ver, porque o mundo faz mais sentido quando a gente não entende, entende? Eu gosto mesmo é do seu gosto musical. Gosto mesmo é dos olhos – mas eu já disse isso. Quatrocentas e quarenta e sete vezes, em silêncio. Gosto de chaves e gosto de Elvis.

o horror do amor e violetas

5 de junho de 2012 § Deixe um comentário

Ela daria à Maria Alice a doçura daquele olhar vasto e manso.

Só não sabia como.

O quarto cheirava à velório. E ela nem sabia se devia ou não usar crase. Quanto tempo estática observando a formiga dançar trôpega ao redor do caule da flor? Talvez tenham sido dezenas de milhares de anos. E ela ainda o amava.

Tinha que anotar aquilo, se não se esqueceria mais tarde. Não, não a parte do amor, só a doçura do olhar vasto e manso. Foi isso? Foi isso o que o vento assobiou no seu ouvido? O cheiro de velório trazia consigo a dor de cabeça. Doce feito a doçura do olhar, feito bala de coco ou qualquer outra coisa doce. Ela sentia o gosto na boca, quase como se pudesse mordiscar o ar. E lá fora a moça do olhar segredado cortava a grama, tão tranquila e tão serena que era quase como se o mundo fosse apenas o pano de fundo – ela era a protagonista da vida, por que os carros não param e observam?

O poema estava jogado em cima da mesa, encoberto pelos livros e pelos cálculos. Ela tinha que escrever a história, ou a história trataria de se escrever sozinha, passando como um trator por cima dela. Você sabe o que acontece quando a gente ignora uma coisa dessas. Seja lá o que aconteça.

E a moça cortando a grama.

Se seu pai não tivesse matado as aulas de Português aquilo estaria em melhores condições. Mas lá estava ela, tentando decifrar com que seus cabelos se pareciam. “Seus cabelos são macios como as….” Como as? Como as o quê do mar? As ondas? Sete letras, uma caligrafia terrível. Não eram como as ondas, definitivamente.

O que a respeito do mar haveria de ser macio? Talvez devesse ignorar essa parte, usaria só a analogia da maçã. O fruto do pecado, isso renderia tanta coisa. Mas ficaria para mais tarde, no momento estava ocupada com a formiga. Sobe e desce e nunca se vai, nunca se cansa. No que pensa enquanto percorre depressa os dedos brancos e gorduchos? Ela tinha uma vontade de escrever gorduchos com x… quase como se isso pudesse deixá-los mais gordos. Usaria a analogia da maçã;

Olhou pela janela e a moça do cortador de grama tinha ido embora, sem nem se despedir. O sol tingia as árvores de um ruivo natalino – quem disse que seus cabelos tinham cheiro de Natal? Largou a flor desmilinguida em cima da cama e foi atrás do poema, mas se distraiu com a fotografia da turma pregada na parede amarelada pelo tempo. Por onde ele andou enquanto ela o procurava?

with drops of jupiter in her hair

22 de maio de 2012 § 3 Comentários

– Quando você volta?

– Dentro de alguns dias…

– Quantos?

– Como?

– Quantos dias?

– Alguns.

– O que é alguns pra você?

– Alguns é alguns pra todo mundo.

– Eu sinto sua falta.

– Eu sinto saudade. Mas aqui é tão bonito…

– Tem vontade de ficar?

– Pra sempre?

– É.

– Um pouco. Mas é só vontade.

– Então você volta?

– Claro. É só vontade, mesmo.

– Como é Júpiter?

– Frio. Meus dedos estão arroxeados agora.

– Seus dedos estão sempre arroxeados.

– É, acho que é da natureza deles.

– Como está o céu?

– Agora?

– Uhum.

– Escuro. E cheio de estrelas.

– Eu tenho uma ótima teoria.

– Sobre estrelas?

– É.

– Ótimas teorias costumam estar erradas…

– Mas ainda são ótimas teorias.

– Você quer me contar?

– Quero. Um dia. Quando você voltar;

– Tudo bem. Eu gosto das suas teorias. E gosto de gostar de estrelas sem sabê-las.

– Por que eu só entendo metade do que você fala?

– Porque a dúvida é o preço da pureza, coelho.

– Foi o que eu disse. Como são os anéis?

– Grandes. E molhados. Eu levaria alguns pra você, mas são tão pesados…

– E as pesso… Desculpe. Esqueci que eles não gostam de ser chamados de…você sabe.

– Ah, tudo bem. Não tem ninguém por perto. Eles são simpáticos. E não são pesados. E falam feito loucos. Você ia gostar.

– É. Aposto que sim. Eu tenho que desligar. Eu te amo.

– Eu também tenho que ir. Ligações interplanetárias são caras. Mzuzu Chingadure.

– Saúde.

– Não. Mzuzu Chingadure é ‘eu te amo’ em jupiteriano.

– Você tem estudado?

– Só o que é importante.

– Tão bonita. Muzuzu Chingaduri, Pam.

– Sua pronúncia é horrível (ela ri). Eu gosto. Adeus.

– Adeus. E não se apaixone por uma estrela cadente.

– Eu não poderia. Já me apaixonei pelo que pedi a ela.

outono em nova york (ou é em porto alegre?)

17 de maio de 2012 § 2 Comentários

Liza desce as escadas depressa, os pés descalços e molhados deixando o rastro de água pelos degraus de granito, os dedos se arrastando pelo corre-mão, produzindo pegadas de suor contorcidas, linhas se entrelaçando e dançando descompassadamente.

– Eu atendo! – ela grita para o vazio. Está sozinha em casa, como de costume. A mãe gosta de sair para ‘espairecer’, dar suas voltas, provocar suas revoltas, e mesmo assim anuncia seus atos em voz alta.

Tira o telefone do gancho: – Pois não?

Tudo permanece quieto, a não ser pelo som de sua respiração ofegante. – Alô? – Ela insiste. Nada.

Está prestes a desligar, mas antes de tirar o telefone da orelha a voz que está do outro lado responde.

– Quem fala?

– Quem fala?

Silêncio de novo. – Por favor, não desligue.

Liza coloca o telefone entre o ombro e o queixo, ajeitando a toalha cor-de-rosa que envolve seu corpo recém-saído do banho. – Não vou desligar. Quem fala?

– É Chico.

– Chico?

Sente uma felicidade imensa que é quase tão grande e esmagadora quanto o medo. Como se de repente o sol estivesse nascendo de novo, depois de anos de escuridão e trevas passados na masmorra. Chico. E se ele pudesse vê-la agora, assim, toda desnuda e descabelada, toda ela crua e humana? Não podia. Para sua graça ele está longe, então ela pode sorrir e chorar e sentir o que quiser, ele provavelmente nunca virá a saber.

– Liza! Meu amor…

(Precisava do ponto de exclamação)

Bate com a cabeça no orelhão. Pontos de exclamação são detestáveis, por natureza; Não são? Sorri amareladamente, os lábios arroxeados pelo frio do sul e pelas taças desmedidas de vinho, os dentes que têm a cor da manhã – ou do vício compulsivo. – Tava tão ansioso pra falar contigo…

Liza se senta no chão molhado – lavando o linóleo com as gotas de Júpiter que caem de seu cabelo. – Eu também.

Que bom que não pode vê-la, senão veria a tristeza dos olhos cor de… cor de quê? Cor de noite? Cor de estrada? Cor de olhos da cor que os dela tinham? Chico nunca falava dos olhos, só falava dos lábios e dos ombros e do pescoço e dos seios. Nunca os olhos. Talvez não prestasse muita atenção.

Ele fala do tempo, e fala da saudade. Ele fala com sotaque, levinho feito brisa, mas existente. Depois fala da comida, das noites, e da saudade. Fala das cartas, do trabalho, dos estudos, dos sonhos. E da saudade. Ela balança a cabeça afirmativamente, ri quando deve, derrama lágrimas quando pode. Fala da saudade. É saudade demais para um discurso só. Ele diz que o tempo vai acabar, está ficando sem moedas. “Que tipo de pessoa não tem celular, Chico?’. O meu tipo, ué. O seu tipo.

Ela, ainda molhada e escorregadia, desconversa quando ele toca no assunto. Era quase como tocar-lhe a barriga, aquela pontinha discreta que crescia lenta e cautelosamente por debaixo da toalha felpuda. Mas ele é insistente, ele é ariano. Ela é de libra. Tanto faz, não acredita. Ou finge que não. Ele pergunta, como vai? Vamos resolver isso, eu volto pra’i em algumas semanas, nós nos casamos, nos mudamos, eu tenho dinheiro… eu tenho trabalho. Eu tenho um namorado, ela diz. Ele bate a cabeça de novo, só que não de propósito. Como?

“Namorado, Chico”. “Eu te amo”.

Eu também, ela diz. Mas eu não posso, sabe. E esse filho… cê não se preocupa. Não é seu.

Ele sibila alguma coisa, mas o tempo acaba e a ligação cai. Ela ainda está molhada, de suor de banho e de lágrima. Ela ainda o ama, e ainda quer conversar. Mas ele não retorna. Em algum lugar de Curitiba, naquela noite fria de outono, alguém se embriaga de uísque escocês.

ps1: quero ver alguém adivinhar que música me levou a isso.

ps2: ou não.

ps3: eu não sei pontuar, e não sei descrever.

ps4: eu não gosto desse tempo verbal.

ps5: já chega, né?

22 de abril de 2012 § 2 Comentários

“eu queria ser assim, como uma árvore” ela disse.

Paulo ficou parado, apenas encarando seus olhos escuros. escuros como a noite, pensou. uma noite sem estrelas, noite vazia, solitária. uma noite crua, como aquela.

“uma árvore? com tanta coisa pra você querer ser, você escolhe logo uma árvore?” ele passou os dedos pelas longas madeixas de cabelo, cabelos de índia. tinha uma música que falava de índia, não tinha? índia da pele morena, sua boca pequena eu quero beijar. beijou. a boca, as bochechas, os olhos. foi beijando o rosto inteiro, de repente parou. melhor assim, sem muito beijo, que eu prefiro ficar te contemplando toda bela e toda pura, toda minha, ele dizia a si mesmo enquanto a imaginava índia.

“o que há de errado em querer ser árvore?” ela perguntou, um sorriso malandro nos lábios pintados de púrpura.

“o que há de especial numa árvore?”

ela se ergueu um pouco, apoiando a cabeça sobre os cotovelos no travesseiro. cotovelos, palavra engraçada, pensou. e podia ficar ali o resto da noite, pensando na graça que via nos próprios cotovelos, nos cotovelos alheios e no nome que aquilo levava, mas tinha que explicar a Paulo a história das árvores. ai, Paulo, nunca entende nada…

“pensa numa árvore. pensou?” Paulo fez que sim com a cabeça, os cachinhos do cabelo louro balançando. “tá. agora pensa em como ela nasceu. de uma semente, né? uma semente pequenininha, assim” ela mediu a semente com os dedos, quase que unindo o indicador ao polegar. depois pôs os dedos na boca de Paulo, ele os beijou. semente, semente, se não mente fale a verdade… tinha tanta música na cabeça, mas o quarto ainda estava quieto.

“entende? uma semente pequena de repente cresce e olha, vira árvore. uma árvore gigante e forte, robusta… cheia de folhas, que caem, e então nascem de novo, e caem de novo, e então renascem. o que eu gosto nas árvores é isso, Paulo. elas apenas são, entende? elas não pensam no que queriam ser, não tentam entender como tudo acontece, como nascem, e então tem filhos e etcetera e tal. elas só… bom, elas só são. e eu não consigo ser e só ser, entende?”

Paulo tamborilou os dedos brancos na cabeça de Aline, minha índia. “entendo, entendo. pra que tantos ‘entende’, eu entendi, querida, entendi. mas não sei se concordo. como sabe que a árvore é assim, passiva, só é e só vive? e se dentro daquele tronco parrudo existir um mar de dúvidas, e você nem sequer sabe? e se aquela árvore gigantesca do nosso jardim estiver se perguntando porque não pode ser como a menina morena da boca pequena que eu quero beijar? tão simples, tão apenas vivendo e sendo o que é? vai ver cada ser tem essa mania, de tentar ser menos, tentar entender menos, não sei. acho que se fosse árvore ia querer ser outra coisa.”

Aline mantinha os olhos nos próprios cotovelos. talvez tivesse razão, sobre isso de que nada apenas é, nem mesmo as árvores. não tinha como ter certeza, afinal de contas. “então que faço? se não posso nem querer ser árvore? que faço pra parar de tentar ser mais, que faço pra só existir?”

ele beijou seus braços escuros, a pinta, a pele de índia, que pele bonita ela tinha. o contraste com a dele fazia parecerem quase que opostos, o olho claro, o olho escuro, céu do dia, céu da noite. “por que só existir? fica aqui, dorme do meu lado, entende que te amo e é só isso. e deixa quieta essa sua angústia, deixa quieto esse seu espírito. só deixa, tá bem?”

deixou. dormiu nos braços dele, ele nos dela. os dias indo embora como as folhas das copas das árvores.

(então, tava falando de árvores com você ontem, não tava? e aí escrevi isso. eu sei, ficou ruim. mas, sei lá, queria contar dessa minha vontade de ser árvore sem deixar solto, então a menina queria ser árvore e eu a entendo… porque deve ser simples, realmente. ai, que vontade de ter nascido semente, dai não viveria essa loucura que é o não entender aqui dentro. complicado demais – ou a complicada sou eu? enfim… desculpem)

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8 de abril de 2012 § Deixe um comentário

Ela não sabia explicar – só sabia que sentia e sentia muito, e por mais que desejasse dar àquilo um nome e uma definição permanecia perdida em meio às palavras e ao silêncio, perdida no escuro do quarto e das pálpebras, e nem à luz do sol sua tristeza se desvanecia.

Antigamente Beatles costumava resolver. Colocava os discos na vitrola empoeirada do avô e passava horas deitada de bruços sobre o piso de linóleo, a face encostada no chão e os pés chutando um ao outro. Mas agora o remédio perdera o efeito. Nem Beatles, nem Elton, nem Elvis nem nada. Taylor? Só piorava a situação. Não encontrava uma viva ou morta alma naquela casa capaz de emudecer os batimentos altos do coração com a voz harmoniosa, e nem a mais estridente poderia fazer seu espírito barulhento se calar. Ela sofria, e ninguém entendia. Não fazia questão que entendessem, de jeito nenhum. Ela sabia  que aquele sentimento era só dela, e não tinha jeito de distribuir o peso do mundo despedaçado sobre os ombros de outra pessoa – como se fosse um castigo, fora fadada a caminhar por sobre as chamas com o peito derramando sangue, só que não havia chamas nem peito ensaguentado, era só uma menina pequena demais para fazer analogias decentes com a cabeça cheia de abobrinha. Então não queria ajuda. Não queria entendimento, não queria apoio, não queria que outra pessoa a ouvisse e compreendesse porque o outro era só o outro, e o problema estava dentro dela.

Estava fora do alcance de qualquer um lhe dizer o que fazer. Mas também estava fora de seu próprio alcance, e ela perdia a lucidez conforme pensava no assunto – ou ela nunca fora lúcida e só agora uma pontinha de sanidade se apoderava de seu cérebro? Ia caminhando dentro de si e lá mesmo se perdia, lá mesmo se afogava, com todas aquelas lágrimas que nunca saiam, toda aquela água acumulada em anos (Quanto drama) Quando é que a nave mãe viria buscá-la, afinal? Sentia falta de sua terra e sentia falta do seu povo, do mundo que ela não conhecia mas que precisava existir, porque, se não existisse, ai sim ela estaria para sempre sozinha.

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