edredons e dissabores

4 de julho de 2012 § 1 comentário

A tarde era branca – branca como o vazio.

Se era negra a ausência de cor, a ausência da voz era alva. E a palidez habitual dos dias aos poucos se metamorfoseava na brancura da pele dela, um deserto glacial envolto no manto estelar, a epiderme clara salpicada de luz, o caminhos das lágrimas pontilhado na bochecha esquerda. Vislumbrava seu rosto como se observasse uma espécie de santo; gostava de manter cada detalhe polido e intacto, o corpo esguio petrificado pelo tempo, o olhar felino imortalizado. Da última vez que a vira estava deitada na cama, as pernas magras e depiladas cobertas pelos lençóis amarelados até os joelhos. Balbuciava alguma coisa debilmente, mas, sem coragem, lucidez ou azar o bastante para formar frases com nexo, cerrou os lábios rachados e arroxeados (não sabia se pelo vinho ou se pelas amoras), e calou-se num adormecer tranquilo.

Ele era a ilha, desabitada, hostil, secreta. Ela era a sereia, infantil, esbelta e curiosa, como só uma mulher saberia ser. Dava voltas e voltas e voltas ao redor da areia dourada, o sol ardente a iluminar-lhe os cabelos negros, ele estático, pedra, barro, homem. Voltas e voltas e voltas e voltas. Talvez estivesse ficando bêbado. Tomou doses demais de vida, de paixão, de maré. Helena estendida na cama, a sereia se cansou de nadar. Nadava agora em sua sonolência, entorpecida pelo sabor da ebriedade. Como era bom não estar, não ser (!). Apenas um corpo que jaz sobre as almofadas, apenas um estorvo para os que despertam, ela não seria nada.

Teria prosseguido e lhe dado um beijo – a despedida silenciosa e amarga, com gosto de álcool e sal. O beijo que lhe devolveria a vida, roubando para sempre a dele. Mas não prosseguiu. Não a beijou. Permaneceu estático, com os olhos aflitos a vagar cautelosamente pelo cenário mórbido. Dentre tantas palavras ele escolhera a mais bonita, justamente para contrastar com o corpo desprovido de graça que, desfalecido, atirara-se ao oceano turbulento de edredons e dissabores. Cinco letras, começando com ‘a’.

28 de junho de 2012 § Deixe um comentário

Mas eu acho que na maior parte do tempo tudo o que eu sou é medo.

Ele tinha olhos de caleidoscópio – e eu nem sabia o que essa palavra queria dizer. Por que nós estamos sempre complicando as coisas? Eu queria que você entendesse sem eu ter de explicar, sabe? Queria que percebesse nos olhares vagos, nas palavras mudas, nas músicas tristes e no caminhar pacato. Mas você não entende. É pedir demais, é sonhar utopias. Não vai acontecer. Então eu espero.

3 de março de 2012 § Deixe um comentário

A noite lá fora pedia socorro – não sabe que Luísa não está em condições de ajudar ninguém? Continuou debruçada sobre o beiral da janela, o cheiro doce da cidade invadindo o quarto com violência, quase como se se convidasse para dormir ali. Era uma sensação engraçada aquela, de observar a vida correndo enquanto ela permanecia estática com seus olhos escuros bem abertos. Tinha sido um dia cansativo e quente, e agora ela finalmente se sentia fresca, com a camisola esvoaçante e os cabelos recém-lavados. Era o tipo de liberdade que pedia a Deus todos os dias, a liberdade de se lavar – lavar os cabelos, o corpo, a alma… Arrancar da pele toda e qualquer cicatriz permanente. Os vaga-lumes rodopiavam em torno dos postes de luz acesos, os carros escorriam pelas avenidas como as gotas de chuva escorrem pelo vidro da janela em tardes de domingo – só que era segunda-feira, e ela não sabia que analogia fazer com aquilo que lhe era atirado à cara.

5 de fevereiro de 2012 § Deixe um comentário

Sabe quando o mundo começa a te dar claustrofobia?

Eu sinto que preciso de um lugar maior, maior que tudo isso. Um lugar onde minh’alma (se é que isso de alma existe) possa repousar tranquila, voar livre leve e solta, cantarolar músicas do Elvis e se sentir única no meio de um vazio colorido que cheire algodão-doce (algodão-doce tem cheiro?). Sinto como se meu corpo fosse pequeno demais para o que carrego aqui dentro. Uma vontade de mergulhar na imensidão do mar, ir até o fundo, onde falta luz, barulho e oxigênio. Misturar-me às gotas de água, aos peixes, às algas. Misturar-me e me tornar uma coisa só. Vontade de voar até as estrelas, quem sabe até um buraco-negro, e ser sugada por ele, sumir, desaparecer, diluir-me num nada, num inexistente, porque não existir soa bem mais fácil. Uma necessidade de não ser, entende? Não. Não entendo. Mas às vezes é melhor não entender.

1 de fevereiro de 2012 § Deixe um comentário

E ontem me permiti sentir saudades suas.

Já fazia tanto tempo que eu quase não me lembrava da sensação, a tristeza e o êxtase, a mistura colorida de alegria e infelicidade ao me deparar com o vazio existente por detrás das pálpebras que se abriram, depois de te enxergar de novo ao lado meu. Deixei-me ouvir as músicas mais tristes, ler os poemas mais antigos, repensar cada detalhe, cada segundo, cada cílio seu, tão perto e tão distante. Narrei em minha mente nossos diálogos, os falsos e os verdadeiros, esforçando-me para recordar de cada palavra sua, a forma como seus olhos mudavam de cor com a luz do sol. Tentei sentir na pele seu toque, mas esse é o tipo de coisa que desaparece com o tempo, o que o vento, que arrasta consigo as páginas do calendário, faz questão de despistar. Delineei em meus devaneios seus lábios rosados, sua face branca, seu cabelo alaranjado. Reformulei meus gestos, fiz questão de reformar os momentos impensados. Nossa história devia ser perfeita, estava escrito, eu sabia. Mas alguém a apagou. Não sei dizer quem, assim como não sei dizer o que eu faço com esse poço sem fundo que resolveu habitar meu peito desde que você se foi. E o pior, o que me mata, é saber que tudo aquilo que eu planejei, tudo aquilo que eu esbocei, não passou de um rascunho que eu recrio durante a noite dentro de minha cabeça. Eu só queria que você entendesse, que você enxergasse. Eu só queria que não doesse tanto.

Guardei os desejos dentro de uma caixa, enterrei-a debaixo da cama e fui dormir. Não sei dizer se sonhei contigo, mas a verdade é que eu nem preciso disso para ver seu rosto assim que desperto – ele já é a primeira coisa que aborda minha mente pela manhã. As lágrimas estão seguras aqui dentro, e eu sei que se te ver na rua não vou me aproximar. Apenas desejar que tudo tivesse sido diferente, voltar para casa, me encolher num canto, e devorar as memórias que eu construí para nós dois.

Onde estou?

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