edredons e dissabores

4 de julho de 2012 § 1 comentário

A tarde era branca – branca como o vazio.

Se era negra a ausência de cor, a ausência da voz era alva. E a palidez habitual dos dias aos poucos se metamorfoseava na brancura da pele dela, um deserto glacial envolto no manto estelar, a epiderme clara salpicada de luz, o caminhos das lágrimas pontilhado na bochecha esquerda. Vislumbrava seu rosto como se observasse uma espécie de santo; gostava de manter cada detalhe polido e intacto, o corpo esguio petrificado pelo tempo, o olhar felino imortalizado. Da última vez que a vira estava deitada na cama, as pernas magras e depiladas cobertas pelos lençóis amarelados até os joelhos. Balbuciava alguma coisa debilmente, mas, sem coragem, lucidez ou azar o bastante para formar frases com nexo, cerrou os lábios rachados e arroxeados (não sabia se pelo vinho ou se pelas amoras), e calou-se num adormecer tranquilo.

Ele era a ilha, desabitada, hostil, secreta. Ela era a sereia, infantil, esbelta e curiosa, como só uma mulher saberia ser. Dava voltas e voltas e voltas ao redor da areia dourada, o sol ardente a iluminar-lhe os cabelos negros, ele estático, pedra, barro, homem. Voltas e voltas e voltas e voltas. Talvez estivesse ficando bêbado. Tomou doses demais de vida, de paixão, de maré. Helena estendida na cama, a sereia se cansou de nadar. Nadava agora em sua sonolência, entorpecida pelo sabor da ebriedade. Como era bom não estar, não ser (!). Apenas um corpo que jaz sobre as almofadas, apenas um estorvo para os que despertam, ela não seria nada.

Teria prosseguido e lhe dado um beijo – a despedida silenciosa e amarga, com gosto de álcool e sal. O beijo que lhe devolveria a vida, roubando para sempre a dele. Mas não prosseguiu. Não a beijou. Permaneceu estático, com os olhos aflitos a vagar cautelosamente pelo cenário mórbido. Dentre tantas palavras ele escolhera a mais bonita, justamente para contrastar com o corpo desprovido de graça que, desfalecido, atirara-se ao oceano turbulento de edredons e dissabores. Cinco letras, começando com ‘a’.

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(verme)

24 de junho de 2012 § 10 Comentários

“Você sabe que gosta de alguém quando sua música preferida é também a que você mais detesta.”

Fechou os olhos e apertou o botão. De repente ela estava lá de novo, no mesmo quarto, na mesma cama. De repente eles tinham apenas dezoito.

– Ulisses?

Ela se virou. Os olhos embaçados e a maquiagem borrada, os cabelos desalinhados presos numa trança frouxa. Os lábios estavam pintados de roxo, não sabia se pelo vinho ou se pelo frio – ou talvez fossem as amoras. Uma vez ela disse que gostava do nome, mesmo sendo nome de homem. Ou era por isso mesmo que gostava? Disse que a deixava mais forte, como se carregasse consigo a história do herói. Paolo ficou quieto, nunca sabia o que dizer quando Ulisses abanava os cílios daquele jeito. Era estranho pensar em toda aquela feminilidade revestida por um substantivo masculino. Ulisses. Os dentes ligeiramente tortos. Ulisses. Os dedos pequenos e gorduchos, a mão branca e miúda como a de uma criança. Segurou-a por entre os dedos quentes. Estava frio lá fora, mas era ainda mais gelado do lado de dentro – mesmo com todas as cobertas, com todas as roupas, ele ainda sentia uma camada espessa de gelo se formando, quase como se a neve caísse por sobre os corpos magros. Bebeu um gole de vinho. Ele não gostava de beber – não como Ulisses. Ela estava bêbada a maior parte do tempo, o que o fazia considerar a hipótese de que talvez (e apenas talvez) ele fosse chato demais com toda aquela conversinha fiada, aquela história de mitologia grega e escolas literárias e tudo mais. Não convencia. Mas Ulisses continuava ali, com as pálpebras semi-cerradas e o sorriso lânguido nos lábios rachados.

Fixou o olhar pacífico e ébrio naquela mancha em formato de lua que ela tinha no ombro esquerdo. Primeiro assoprou, como se dela brotasse uma chama ardente. Depois beijou. Ulisses se mexeu, e Paolo não sabia se ela estava realmente acordada, ou se era só um sonho ruim.

– Mas quando todo mundo tiver ido embora – ele sussurrou, pertinho do ouvido dela – você ainda vai ser minha, Ulisses?

Tudo o que ele escutou foi um ‘uhum’ abafado, sua boca estava agora prensada no travesseiro babado. Ulisses conseguia ser extremamente atraente e nojenta, ao mesmo tempo. – Você vai ficar? Vai me esperar?

Ulisses abanou a cabeça. Sorriu. Deu um tapa no braço peludo dele e virou o corpo magrelo para o outro lado. “Pra sempre, e tudo mais que você quiser, querido. ”

Paolo detestava ser chamado de querido. Desvencilhou-se dos dedos dela, deu uma última olhada no corpo desvanecido e saltou para fora da cama, em direção ao banheiro do apartamento apertado. Aquele lugar fedia cigarro.

Se ela não fosse tão bonita… parou na frente do espelho de moldura de plástico, molhou as mãos sujas e penteou os cabelos. No fundo ele sabia que ela não era mesmo tão bonita – nem nada perto disso. Mas era mulher. Tinha nome de homem. Cheirava feito animal e fazia seu coração bater depressa feito ninguém. Ela também falava alemão. Que palavra era aquela, que ela gritou pra ele outro dia no metrô? Devia ser palavrão. Ela disse que ia ficar, para sempre e mais o que ele quisesse. E foi naquele momento que ele soube que a tinha perdido.

– Com licença?

Tirou os fones de ouvido.

– Será que eu posso usar, moço?

Paolo fez que sim com a cabeça. – Claro. Desculpe.

Pegou o CD  e caminhou em direção ao caixa. A funcionária sorriu, tinha uns dentes brancos que eram quase inacreditáveis. – Gosta de Radiohead?

Coçou a nuca, ajeitou o cachecol. – Na verdade… Odeio.

with drops of jupiter in her hair

22 de maio de 2012 § 3 Comentários

– Quando você volta?

– Dentro de alguns dias…

– Quantos?

– Como?

– Quantos dias?

– Alguns.

– O que é alguns pra você?

– Alguns é alguns pra todo mundo.

– Eu sinto sua falta.

– Eu sinto saudade. Mas aqui é tão bonito…

– Tem vontade de ficar?

– Pra sempre?

– É.

– Um pouco. Mas é só vontade.

– Então você volta?

– Claro. É só vontade, mesmo.

– Como é Júpiter?

– Frio. Meus dedos estão arroxeados agora.

– Seus dedos estão sempre arroxeados.

– É, acho que é da natureza deles.

– Como está o céu?

– Agora?

– Uhum.

– Escuro. E cheio de estrelas.

– Eu tenho uma ótima teoria.

– Sobre estrelas?

– É.

– Ótimas teorias costumam estar erradas…

– Mas ainda são ótimas teorias.

– Você quer me contar?

– Quero. Um dia. Quando você voltar;

– Tudo bem. Eu gosto das suas teorias. E gosto de gostar de estrelas sem sabê-las.

– Por que eu só entendo metade do que você fala?

– Porque a dúvida é o preço da pureza, coelho.

– Foi o que eu disse. Como são os anéis?

– Grandes. E molhados. Eu levaria alguns pra você, mas são tão pesados…

– E as pesso… Desculpe. Esqueci que eles não gostam de ser chamados de…você sabe.

– Ah, tudo bem. Não tem ninguém por perto. Eles são simpáticos. E não são pesados. E falam feito loucos. Você ia gostar.

– É. Aposto que sim. Eu tenho que desligar. Eu te amo.

– Eu também tenho que ir. Ligações interplanetárias são caras. Mzuzu Chingadure.

– Saúde.

– Não. Mzuzu Chingadure é ‘eu te amo’ em jupiteriano.

– Você tem estudado?

– Só o que é importante.

– Tão bonita. Muzuzu Chingaduri, Pam.

– Sua pronúncia é horrível (ela ri). Eu gosto. Adeus.

– Adeus. E não se apaixone por uma estrela cadente.

– Eu não poderia. Já me apaixonei pelo que pedi a ela.

eu que não fumo queria um cigarro ou o homem que se apaixonou pela beleza plástica

10 de maio de 2012 § 2 Comentários

Podia ser qualquer coisa – mas era amor.

Terrível batizar sentimento, ele agora se sentia na obrigação de comprovar as teorias, de obedecer às regras inúteis, chorar em plena madrugada por saudades dela, comprar Serenata de Amor só para ler as mensagens apaixonadas da embalagem e se sentir reconfortado e acolhido – “Se você está se sentindo estranhamente feliz e sorridente, das duas, uma: ou está apaixonado, ou ficou louco. No fundo, não faz muita diferença”. Não fazia, mesmo. Jogou o papel fora e enfiou as mãos roxas de frio nos bolsos da calça jeans surrada, os polegares tamborilando do lado de fora. Era outono e ele podia sentir seu sangue congelar dentro das veias que lhe saltavam da face. Mas o problema não estava no vento glacial das ruas brancas de maio que lhe cuspia a morbidez crua da cidade – o problema era aquela palidez interior. Não voltaria para casa, as noites se hospedavam nos bares. Por que ela não o amava de volta? Acariciou a barba mal-aparada e tropeçou nos próprios pés antes de se perguntar se estava sóbrio. Quando foi a última vez em que escovara os dentes? Seu hálito tinha um cheiro forte de cigarro, mas ele nunca havia fumado. Apertou o passo porque estava atrasado, e se alguém perguntasse ia ver a namorada. Só que ninguém perguntaria, porque ninguém se importava. Até ele estava ficando cansado de se importar. Andou por um tempo, e poderia ter sido um dia, um mês ou um ano – ele só sabia que os olhos estavam mais pesados que a consciência e a as mãos mais leves que os bolsos. E depois de uma era de gelo e fome (de amor, de comida, de dinheiro, de direito e de si mesmo) foi parar em frente à vitrine. Bonita que só ela,  estava quieta, como sempre. Não lhe dava bola, não o olhava nos olhos, apenas a feição leviana na face amarelada, tinha sobrancelhas finas e lábios grossos pintados de laranja. Não reparou na roupa que usava, mas era magra feito uma modelo. Os dedos longos pousados delicadamente sobre os joelhos pontudos, os sapatos de salto deixando-a tão alta e superior que ele não tinha certeza se era mesmo humana. Mas a amava. Humana ou não, amava-a. Sentou-se no asfalto sujo e ficou à espera, ela devia saber e na tentativa de evitá-lo nem sequer se moveu. Depois uma senhora de cabelos grisalhos a puxou para dentro, e ele achou que talvez já tivesse incomodado demais. Ajeitou-se no chão, recostou a cabeça já meio calva, e adormeceu com as carícias da brisa violenta.

19 de fevereiro de 2012 § Deixe um comentário

Chico correu os dedos quentes pelas costas nuas da menina, as mãos morenas tocando de leve as manchas arroxeadas que ela trazia na pele clara.

– Como você consegui isso aqui? – ele sussurrou no ouvido de Catarina, os lábios grossos se movendo devagarzinho, as palavras tão baixas que ela não tinha certeza se era realidade ou se era sonho.

Depressa, puxou os lençóis azuis (da cor do céu sem nuvens e dos olhos sem vergonha dele) e se cobriu, virando o corpo para o outro lado – Não foi nada.

– Que foi? – ele perguntou, ao perceber que ela se encolhia e desaparecia no meio das cobertas.

– Que foi o quê?

– Quê? – Chico a encarou por alguns instantes, e depois riu, um riso abafado, piedoso e chuvoso, um riso com cheiro de café e dentes amarelados pelo consumo de cigarros exagerado.

– Não quero falar disso. E não quero que você veja.

Chico a puxou para si, abraçando-a com força – Por que não? Se você sempre me deixou te ver inteira, sem esse pudor todo…

Seu rosto redondo e pueril se tingiu de vermelho, quase do mesmo tom que os lábios finos, apertados um no outro, enquanto ela desviava o olhar cor de terra molhada para longe do dele. – É diferente. Não quero que você veja essas marcas feias.

O cenho dele se franziu. – Feias? – Ele tirou as cobertas de cima das costas dela, e, vagarosamente, beijou as marcas roxas. – Desculpe, mas a gente não pode estar falando da mesma coisa.

Catarina sorriu, metade do sorriso triste, por causa das lembranças, e a outra metade feliz, por causa do agora. Desejou que Chico estivesse sempre por perto, no travesseiro ao lado, e que ela soubesse desde o primeiro dia o quão especial ele era. Chico foi beijando aquela areia alva, até o branco se tornar vermelho, até o vermelho desaparecer no escuro.

9 de janeiro de 2012 § Deixe um comentário

e o dia se estendia diante daquele seu sorriso roxo (os dentes tingidos de amora)

Onde estou?

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