22 de abril de 2012 § 2 Comentários

“eu queria ser assim, como uma árvore” ela disse.

Paulo ficou parado, apenas encarando seus olhos escuros. escuros como a noite, pensou. uma noite sem estrelas, noite vazia, solitária. uma noite crua, como aquela.

“uma árvore? com tanta coisa pra você querer ser, você escolhe logo uma árvore?” ele passou os dedos pelas longas madeixas de cabelo, cabelos de índia. tinha uma música que falava de índia, não tinha? índia da pele morena, sua boca pequena eu quero beijar. beijou. a boca, as bochechas, os olhos. foi beijando o rosto inteiro, de repente parou. melhor assim, sem muito beijo, que eu prefiro ficar te contemplando toda bela e toda pura, toda minha, ele dizia a si mesmo enquanto a imaginava índia.

“o que há de errado em querer ser árvore?” ela perguntou, um sorriso malandro nos lábios pintados de púrpura.

“o que há de especial numa árvore?”

ela se ergueu um pouco, apoiando a cabeça sobre os cotovelos no travesseiro. cotovelos, palavra engraçada, pensou. e podia ficar ali o resto da noite, pensando na graça que via nos próprios cotovelos, nos cotovelos alheios e no nome que aquilo levava, mas tinha que explicar a Paulo a história das árvores. ai, Paulo, nunca entende nada…

“pensa numa árvore. pensou?” Paulo fez que sim com a cabeça, os cachinhos do cabelo louro balançando. “tá. agora pensa em como ela nasceu. de uma semente, né? uma semente pequenininha, assim” ela mediu a semente com os dedos, quase que unindo o indicador ao polegar. depois pôs os dedos na boca de Paulo, ele os beijou. semente, semente, se não mente fale a verdade… tinha tanta música na cabeça, mas o quarto ainda estava quieto.

“entende? uma semente pequena de repente cresce e olha, vira árvore. uma árvore gigante e forte, robusta… cheia de folhas, que caem, e então nascem de novo, e caem de novo, e então renascem. o que eu gosto nas árvores é isso, Paulo. elas apenas são, entende? elas não pensam no que queriam ser, não tentam entender como tudo acontece, como nascem, e então tem filhos e etcetera e tal. elas só… bom, elas só são. e eu não consigo ser e só ser, entende?”

Paulo tamborilou os dedos brancos na cabeça de Aline, minha índia. “entendo, entendo. pra que tantos ‘entende’, eu entendi, querida, entendi. mas não sei se concordo. como sabe que a árvore é assim, passiva, só é e só vive? e se dentro daquele tronco parrudo existir um mar de dúvidas, e você nem sequer sabe? e se aquela árvore gigantesca do nosso jardim estiver se perguntando porque não pode ser como a menina morena da boca pequena que eu quero beijar? tão simples, tão apenas vivendo e sendo o que é? vai ver cada ser tem essa mania, de tentar ser menos, tentar entender menos, não sei. acho que se fosse árvore ia querer ser outra coisa.”

Aline mantinha os olhos nos próprios cotovelos. talvez tivesse razão, sobre isso de que nada apenas é, nem mesmo as árvores. não tinha como ter certeza, afinal de contas. “então que faço? se não posso nem querer ser árvore? que faço pra parar de tentar ser mais, que faço pra só existir?”

ele beijou seus braços escuros, a pinta, a pele de índia, que pele bonita ela tinha. o contraste com a dele fazia parecerem quase que opostos, o olho claro, o olho escuro, céu do dia, céu da noite. “por que só existir? fica aqui, dorme do meu lado, entende que te amo e é só isso. e deixa quieta essa sua angústia, deixa quieto esse seu espírito. só deixa, tá bem?”

deixou. dormiu nos braços dele, ele nos dela. os dias indo embora como as folhas das copas das árvores.

(então, tava falando de árvores com você ontem, não tava? e aí escrevi isso. eu sei, ficou ruim. mas, sei lá, queria contar dessa minha vontade de ser árvore sem deixar solto, então a menina queria ser árvore e eu a entendo… porque deve ser simples, realmente. ai, que vontade de ter nascido semente, dai não viveria essa loucura que é o não entender aqui dentro. complicado demais – ou a complicada sou eu? enfim… desculpem)

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Apartment

14 de abril de 2012 § 6 Comentários

, a música soava familiar, embora ela estivesse certa de que nunca a escutara antes. Era algo na forma como o vocalista gritava as palavras que ela a muito custo conseguia traduzir – “depois de deixar meu apartamento eu sinto esse frio dentro de mim“. Depois de deixar a cidade ela sentia o frio se aproximando, não como a brisa doce cheirando a kiwi pela qual tanto ansiava durante as tardes longas e mormacentas de verão, mas como o frio impessoal e barulhento, o frio nebuloso e solitário que era digno de um filme europeu de final infeliz. O tipo de frio que, ela sabia, arrepiava o coração, e não os pelos do braço.

Ficou aliviada por ter ligado o rádio quando saíram de casa ou teria que iniciar e, o que era muito pior, manter uma conversa por todo o percurso. Aquilo seria impossível, considerando as circunstâncias. Derramou o olhar gélido por sobre o vidro embaçado da janela e se obrigou a lembrar quais eram as circunstâncias. Em primeiro lugar, Roberto está noivo. Noivo. Soletrou a palavra duas ou três vezes, para que a memorizasse bem e não corresse o risco de se esquecer momentaneamente de seu significado. Em segundo lugar, Roberto era seu amigo. Não, não era apenas seu amigo. Era seu melhor amigo. Aquela palavra tão pequenininha e tão carregada de acepção mudava a história toda. Ela tinha dezenas de amigos, todos eles muito adultos, maduros, íntimos. Todos eles eram maiores de idade, todos eles saiam com ela para beber nos finais de semana, todos eles se reuniam na casa de alguém para torcer e xingar em dia de jogo de futebol. Mas o adjetivo nanico que precedia o companheiro de festas e estudos mudava tudo: Roberto era quem estava lá quando ela não conseguia pregar os olhos durante a noite por causa da chuva. Roberto era quem estava lá quando ela tirava uma nota terrivelmente baixa (ou não tão terrivelmente baixa assim) e não sabia como parar de chorar. Roberto era quem estava lá quando ela acidentalmente bebia demais, e todos os outros queridos íntimos já haviam abandonado o bar há horas. Roberto, o garoto de cabelos escuros caídos por sobre os ombros largos como duas cortinas feitas de noite. O garoto do sorriso desnudo. O garoto do primeiro beijo. O garoto.

Qual era mesmo a circunstância? Alice esbarrou sem querer os olhos nele, tinha o queixo contraído, e nesses momentos era inevitável se lembrar do pai – só que ela nunca dizia o quanto os dois eram parecidos, porque sabia o quão irritado Beto ficaria. Afinal de contas, ninguém quer se parecer com um monstro. Mas era um monstro bonito, ah, era sim. Ela nunca mencionou o tropeço que tinha pelo ‘tio’ barbudo, aquela voz meio rouca e aquele jeito revolucionário, gostava de se sentar na varanda e ficar tocando violão, umas músicas em espanhol que faziam Alice inventar traduções alternativas, cada palavra um novo significado só dela. De certa forma ela sabia que um dia Roberto cresceria e ficaria a cara do pai, só não sabia que isso geraria mais que um tropeço – muito mais.

Roberto abaixou o volume do rádio, e Alice sentiu vontade de tirar os dedos dele dali e aumenta-lo de novo – ‘você não vai me obrigar a falar, vai? Por favor…’. Agora o carro estava parado, estacionado no encostamento. Havia árvores ao redor, estavam se aproximando da cidadezinha de habitantes alienados e fofoqueiros, todos uma gracinha, mas ainda não haviam chegado lá, Alice não suportaria um final de percurso repleto de conversa quando ela ainda discutia consigo mesma a respeito de que diabos estava fazendo ali.

– Você sabe que temos um combinado, não sabe?

Ela se obrigou a manter os olhos longe dos dele, e ainda assim era capaz de sentir a palavra se desvanecendo como se estivesse exposta às gotas de chuva que caiam lá fora. Noivo… noiv… no… O que era, mesmo?

– Como?

Os dedos de Roberto saltaram do botão para o rosto pálido dela, e aquele contato fez com que ela estremecesse. Depois de tirar delicadamente os fios de cabelos ressecados e distribuí-los metodicamente atrás das orelhas perfuradas, virou a face branca para ele. – Eu só estou te levando pra casa da sua mãe porque sei que a situação é delicada. Mas eu quero você de volta. E a tempo.

“Eu quero você de volta.” Queria mesmo? Com todos os defeitos, com todas as crises existências, com toda a feiura do rosto e a graça do corpo, com todo os adendos e com toda a paixão por Radiohead? Ah, se quisesse a teria, teria, sim. A Alice dos velhos tempos, dos tempos novos, do futuro e do felizes para sempre. Ficou deliciando a frase pelo momento em que foi possível, até que se sentiu obrigada a dar uma resposta, – A tempo…?

– O casamento.

– Ah.

Roberto franziu o cenho. Claro, o casamento. Do que ela achou que estivessem falando? Por favor, Alice, não torne as coisas mais complicadas do que já são. Como ele podia lhe pedir isso? Alice era a complicação em forma de gente pequena, sempre foi. Pedir para não complicar era como pedir para não ser – e nem ele nem ela queriam isso. Seja, Alice. Mas seja com calma, devagar, como tem que ser.

– Você vai.

Não era uma pergunta. Alice tinha vontade de chorar, só não entendia porquê; ela foi a primeira a saber do casamento, lembrava-se de estar em casa assistindo a Friends quando ele telefonou eufórico, mal conseguia falar, ‘Vou casar, Alice! Vou casar!’. E agora esse desespero súbito, essa necessidade de transformar em lágrima tudo o que ela não disse na ligação e tudo que ela não disse depois, não ia dizer agora e não chegaria a dizer nunca.

– Claro. Claro que sim. É só que… Você sabe, mamãe tá muito doente. Eu preciso ficar com ela, ela está tão velhinha, coitada. Eu tenho que ir, sabe. Mas eu volto, quando ela estiver melhor. Eu… não perderia isso, por nada. E é claro que mamãe vai melhorar logo.

Roberto sorriu porque sabia que era mentira, toda aquela história de não perder o casamento por nada.  E ele achava graça em assistir-lhe enquanto fingia – ela ficava rosa e agitada, as palavras vinham num fluxo exagerado, uma ideia atropelando a outra.

– Mas é claro. Eu vou te buscar, e te levar à força, se você não for com seus próprios pés.

Eles riram, e soavam tão bonitos rindo juntos. Alice tinha um ótimo dedo para melhores, e aquele era melhor em especial, era Beto. Seria um marido incrível, e um pai incrível, porque era um ser incrível. Então ela o beijou.

ps: Vermelhinha 1, por que eu sempre subestimo seus conselhos musicais? Fui ouvir essa banda agora e só depois de semanas passadas desde sua indicação me dei conta do quanto ela é incrível. Obrigada, hehe, vou roubá-la pra mim.

de amora ao amor

30 de dezembro de 2011 § Deixe um comentário

Ele ergueu um dos braços – o que tinha uma tatuagem de Ícaro que Alice adorava contornar com as unhas – e colheu uma amora, ainda verde. Alice abriu a boca, mordiscou o fruto. Franziu o cenho.

– Azeda? – Ele perguntou, os dedos penteando o cabelo escuro e liso, que lhe caia sobre a face.

Ela fez que sim com a cabeça – Perfeita.

Ele riu. Ele é Eriberto. O da tatuagem. Ícaro porque tinha essa fascinação por mitologia, em especial a grega. Era professor de História.

– É que ainda não está madura.

Alice lambeu os lábios. – Sabe que não concordo?

Eriberto uniu as sobrancelhas grossas, tirou uma mecha de cabelo dos olhos dela.

– Como assim? Não concorda que frutos fiquem maduros? – Ele riu – Não é algo com que se possa ou não concordar. Apenas é.

Ela se levantou, piscou os olhos depressa, como fazia enquanto defendia suas teorias e ideias, a maioria absurda.

– Não. Não concordo com isso, da fruta ficar mais doce e dar a ela o nome de madura. Por quê? E por que não é assim com a gente, com as pessoas? Ficam maduras e azedam, o sabor doce existe só quando se é jovem.

Ele pensou um pouco. Não sabia se concordava. Conhecia tanta juventude azeda, tanta juventude amarga. Tanto faz, não ia discutir com Alice. Não adiantava. Alice era boa nisso de brigar com pessoas, de ir até o fim por seus ideais, de lutar pelo que achava certo. Ou até pelo que achava errado, apenas gostava da sensação de ganhar. Abanou a cabeça num sinal afirmativo. Pegou mais amoras, as mais verdes, que eram as preferidas dela.

Ela as comeu rápido, parecia uma pequena e delicada máquina de comer frutinhas vermelhas. Sujou seus dedos com o suco da fruta.

– Veja, Beto, estou sangrando. – Ela fez uma expressão de dor, mostrou o pulso pra ele, o sulco vermelho escorrendo pelo braço.

Ele sorriu, os dentes meio amarelados, por causa do café. Ainda assim, era um sorriso bonito. Fez com que ela sorrisse também, embora estivesse dentro da personagem. Adorava estar dentro de personagens, era atriz. Por nada deixava de interpretar. Mas aquele sorriso… Ah, era o sorriso preferido dela, em todo o mundo.

Ele se aproximou, segurou seu braço com firmeza, mas sem fazer força. – Gosta de vampiros, não gosta? Pois vou ser seu vampiro, vamos brincar assim. – Ele lançou-lhe um olhar malicioso.

Eriberto beijou seus dedos, seu braço, o líquido vermelho vibrante.

Alice ficou ali, pele com pele, debaixo da árvore de amoras.

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