5 de fevereiro de 2012 § Deixe um comentário

Sabe quando o mundo começa a te dar claustrofobia?

Eu sinto que preciso de um lugar maior, maior que tudo isso. Um lugar onde minh’alma (se é que isso de alma existe) possa repousar tranquila, voar livre leve e solta, cantarolar músicas do Elvis e se sentir única no meio de um vazio colorido que cheire algodão-doce (algodão-doce tem cheiro?). Sinto como se meu corpo fosse pequeno demais para o que carrego aqui dentro. Uma vontade de mergulhar na imensidão do mar, ir até o fundo, onde falta luz, barulho e oxigênio. Misturar-me às gotas de água, aos peixes, às algas. Misturar-me e me tornar uma coisa só. Vontade de voar até as estrelas, quem sabe até um buraco-negro, e ser sugada por ele, sumir, desaparecer, diluir-me num nada, num inexistente, porque não existir soa bem mais fácil. Uma necessidade de não ser, entende? Não. Não entendo. Mas às vezes é melhor não entender.

de amora ao amor

30 de dezembro de 2011 § Deixe um comentário

Ele ergueu um dos braços – o que tinha uma tatuagem de Ícaro que Alice adorava contornar com as unhas – e colheu uma amora, ainda verde. Alice abriu a boca, mordiscou o fruto. Franziu o cenho.

– Azeda? – Ele perguntou, os dedos penteando o cabelo escuro e liso, que lhe caia sobre a face.

Ela fez que sim com a cabeça – Perfeita.

Ele riu. Ele é Eriberto. O da tatuagem. Ícaro porque tinha essa fascinação por mitologia, em especial a grega. Era professor de História.

– É que ainda não está madura.

Alice lambeu os lábios. – Sabe que não concordo?

Eriberto uniu as sobrancelhas grossas, tirou uma mecha de cabelo dos olhos dela.

– Como assim? Não concorda que frutos fiquem maduros? – Ele riu – Não é algo com que se possa ou não concordar. Apenas é.

Ela se levantou, piscou os olhos depressa, como fazia enquanto defendia suas teorias e ideias, a maioria absurda.

– Não. Não concordo com isso, da fruta ficar mais doce e dar a ela o nome de madura. Por quê? E por que não é assim com a gente, com as pessoas? Ficam maduras e azedam, o sabor doce existe só quando se é jovem.

Ele pensou um pouco. Não sabia se concordava. Conhecia tanta juventude azeda, tanta juventude amarga. Tanto faz, não ia discutir com Alice. Não adiantava. Alice era boa nisso de brigar com pessoas, de ir até o fim por seus ideais, de lutar pelo que achava certo. Ou até pelo que achava errado, apenas gostava da sensação de ganhar. Abanou a cabeça num sinal afirmativo. Pegou mais amoras, as mais verdes, que eram as preferidas dela.

Ela as comeu rápido, parecia uma pequena e delicada máquina de comer frutinhas vermelhas. Sujou seus dedos com o suco da fruta.

– Veja, Beto, estou sangrando. – Ela fez uma expressão de dor, mostrou o pulso pra ele, o sulco vermelho escorrendo pelo braço.

Ele sorriu, os dentes meio amarelados, por causa do café. Ainda assim, era um sorriso bonito. Fez com que ela sorrisse também, embora estivesse dentro da personagem. Adorava estar dentro de personagens, era atriz. Por nada deixava de interpretar. Mas aquele sorriso… Ah, era o sorriso preferido dela, em todo o mundo.

Ele se aproximou, segurou seu braço com firmeza, mas sem fazer força. – Gosta de vampiros, não gosta? Pois vou ser seu vampiro, vamos brincar assim. – Ele lançou-lhe um olhar malicioso.

Eriberto beijou seus dedos, seu braço, o líquido vermelho vibrante.

Alice ficou ali, pele com pele, debaixo da árvore de amoras.

Onde estou?

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