o que deu para fazer em matéria de quinta-feira.

3 de fevereiro de 2013 § 1 comentário

Eis um fato a respeito de Severina: ela adorava enumerar fatos. Sentou-se descalça na cama desfeita, cruzou as pernas recém-depiladas e contou nos dedos as obrigações do dia. Telefonar para Liza, regar a coleção de bonsais, tirar o pó que desenhava cenários confusos sobre os móveis da sala e falar mal do Programa do Gugu, enquanto comia pipoca (doce). Mas é óbvio que o universo conspiraria contra seus planos e provavelmente só um ou dois itens da lista seriam cumpridos – provavelmente os que exigissem menor esforço, tais como telefonar e dar audiência a um programa pelo simples fato de detestá-lo e não conseguir despregar os olhos dele.

O dia estava insuportavelmente quente – como os olhos de Maurício, ela gostava de pensar. A quem possa interessar, Maurício era um rapaz inventado. Cabelos louros caindo levemente sobre a face, como se o vento estivesse constantemente soprando os fios em direção aos olhos castanho-claros, que mudavam de tom de acordo com a intensidade da luz. Os lábios eram finos e estavam sempre apertados – passava a vida querendo dizer um monte de coisas, mas nem a boca nem os olhos tímidos se atreviam a terminar as frases, que se insinuavam conforme ele sorria e as bochechas rosadas se elevavam num trejeito infantil. O nome veio de um anúncio perdido na rua, de um também perdido cachorro que era procurado pelo dono, o tal Maurício. Ela não encontrou o cão, nem ficou com a recompensa – seu prêmio foi mais precioso: batizou no mesmo dia o quase namorado. Nunca falou dele pra ninguém. Se comentasse, chamariam-na louca. Não que discordasse, mas acreditava que seu nível de loucura era ainda tolerável. Quando passasse a crer na própria lucidez, ai, sim, estaria perdida. Deixando de lado os compromissos marcados Maurício e seus olhos quentes e seu cachorro perdido e sua recompensa, Severina levantou-se num salto, prendeu os cabelos armados e percebeu que se sentia sozinha. Era quinta-feira e quinta-feira era sempre sinônimo de vida. Sempre era uma palavra que incomodava – chegava a pesar-lhe nos ombros estreitos, sentia o gosto do calor e do movimento na língua. Já a vida não incomodava tanto. Varreu com o os olhos o quarto. Às vezes fingia que seus olhos eram azuis, tão claros que pareciam vidro. Ficava horas observando seu próprio reflexo, desfazendo-se inteira no espelho abandonado sobre a parede repleta de fotografias. Não conhecia nenhuma daquelas pessoas, eram absolutamente estranhas, como ela. Andava pela cidade com a máquina antiga, dessas em que se revela o filme e não se pode ver na hora o resultado. Chegava em casa com uma pilha de rostos esquisitos – uns cheios de sardas, outros cobertos por espinhas -, os mais diferentes tipos de cabelos, os sorrisos e as lágrimas que as pessoas iam derramando pela vida. Ela já se acostumou a ocupar espaço, ia se deitando cansada por sobre o parágrafo, enquanto os pés iam martelando o piso frio. Tinha tanta coisa pra fazer… o telefone estava na cozinha. Queria telefonar para Liza, desesperadamente. Queria contar-lhe as descobertas, as conversas secretas que tivera consigo mesma. Queria perguntar o que achara do livro que ela lhe dera de presente – mas é claro que ele ainda não havia sido aberto. “O que deu para fazer em matéria de história de amor”. Não sabia nada da autora, nem da história. Só sabia que gostava do título, e que logo na primeira página uma dedicatória anunciava os trechos de Quintana e Lygia.  O que deu para fazer em matéria de história de amor? Comprou no sebo, por pouco dinheiro. Os livros velhos, carregados de outras histórias que iam além daquelas escritas no papel eram seus preferidos. Liza também amaria, mas só depois de alguns anos. Ela não tinha paciência pra ler – a não ser que lhe dessem revistas. Revistas ela devorava num instante. A ideia de Liza devorando páginas sujas fez com que se lembrasse da lasanha estranha que se hospedava no forno. Tinha fome. O telefone na cozinha. Queria ligar, mas não ligaria. Liza não estava pronta para escutar, e ela não estava pronta para lidar com a falta de preparo de Liza. As faces apagadas na parede a consolavam, mas ela ainda se sentia estranha e só – só como uma flor presa dentro de um livro. As palavras girando ao redor, compondo destinos, histórias, futuros. E ela no quarto, no meio de uma multidão de desconhecidos. Ia evocar Maurício com os pensamentos. Ele nunca dizia nada (e nada era outra palavra que lhe pesava os ombros), mas escutava como ninguém. Só pelo jeito de olhar ela sabia que era compreendida, ia se encolhendo, aproximando-se dos olhos dele, que giravam e mudavam de cor, e então se ajeitava ali no meio, até ficar aquecida e segura dentro do abraço daquele homem que até parecia real. Desejou uma vez que ele se tornasse verdade. Melhor não. Homem de verdade daria muito mais trabalho. Olhou para os dedos da mão direita, que era a mão em que enumerava as coisas (sim, Severina era cheia das manias e dos desejos, e desejava um cabelo da cor da terra na maior parte do tempo), e apagou dali alguns itens da lista. Não telefonaria pra ninguém, nem tiraria o pó dos móveis. Deixaria a poeira residir por mais um tempo – um pouco de sujeira é, às vezes, indispensável – , e se arrumaria para um jantar romântico com Maurício. Pensou em chamá-lo agora de Daniel, e deixar a barba dele crescer um pouco. Havia lasanha no forno, ela se lembrou. O estômago roncava e as unhas eram comidas. Ai, como queria ter os olhos azuis. Despediu-se com um beijo das imagens fotografadas. Adeus, homem gordo que mata a sede de vida com um sorvete. Adeus, menina ruiva que cobre as sardas com um sorriso. Adeus, rapaz bonito que caminha contra sua sina, e carrega na mão uma câmara como a minha. Adeus, adeus, adeus. Ah, Deus…

Ligou a televisão e foi falar mal do Gugu (enquanto Maurício/Daniel acariciava sua nova barba, usando apenas uma bermuda, com os braços fortes ao redor dos ombros estreitos que sustentavam o mundo, o sempre e o nada).

Mas era quinta-feira, e quinta-feira era sinônimo de vida.

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uma banda numa propaganda de refrigerantes

13 de dezembro de 2012 § 1 comentário

– Corre, Fê(!) Corre, se não você perde(!)

Fernanda franziu as sobrancelhas mal-feitas, chutou para longe os sapatos de salto e acertou com a cabeça recém-lavada os parenteses. – Nossa, mas o que é que tem de tão interessante na TV?

– Vem logo, criatura(!) Vem logo pra você ver.

Ela desceu as escadas depressa, fazendo barulho conforme driblava as peças de roupa suja e pulava de dois em dois os degraus.

– Eu não sei o que pode ser tão urgente a ponto de…

Foi quando ela viu. As luzes ao redor piscando alternadamente, o grupo de dançarinos ao fundo, os figurinos absurdos e caros. O apresentador dançando de um jeito engraçado. E ele no centro. Cantando.

– Eu disse.

– Shhh!

– Você usou um ponto de exclamação?

– Shhh!

Jéssica cruzou os braços. – Ok, ok. Eu fico quieta.

Fernanda arrancou o controle remoto de suas mãos e aumentou o volume da TV. Jéssica se apoiou sobre o ombro da amiga, sem ter certeza do que devia fazer. Eles precisavam de um tempo pra ficar sozinhos? Depois de quantos meses a ferida de um relacionamento turbulento se cicatriza, e você pode fazer piadas sobre o fim? Ver o ex na televisão é o melhor jeito de se superar o passado inconveniente? Provavelmente não. Mas era tarde demais para colocar na Disney e fingir que nada aconteceu. Sem encontrar uma opção que parecesse segura, ela se contentou em permanecer e observar.

A boca de Fernanda estava aberta, e quando seus olhos castanhos alcançaram os dele, ela começou a se permitir.

Primeiro, permitiu-se aceitar: ele era bonito. E toda aquela maquiagem com que provavelmente rebocaram o rosto dele havia ajudado. As sardas e espinhas foram transformadas em uma face lisa e perfeita, e as sobrancelhas estavam mais bem desenhadas do que as dela – o que não era tão difícil. Ligeira e propositalmente desalinhadas, como se houvessem nascido com ele, sem nunca terem sido tocadas. Ela se lembrava das antigas sobrancelhas negras e selvagens. Lembrava-se de pressioná-las com delicadeza, quando ele chegava perto, e se lembrava de como ele as unia quando ficava irritado. Lembrava-se do primeiro dia em que o vira, quando suas sobrancelhas se ergueram de um jeito engraçado, e ela soube que aquilo era um sinal. E, por mais que abominasse a última e mais dolorosa lembrança, também se lembrava da tarde quente em que viu aquelas sobrancelhas escuras franzirem pela última vez.

Depois, foi a vez de se permitir sofrer. Era irônico tê-lo ao alcance das mãos, e ao mesmo tempo tão distante. Ela reconhecia na letra da música a história dos dois, mas ainda não era hora de se permitir pensar nisso. Estava apenas admirando a forma como as palavras ganhavam leveza quando ditas por ele, e pensando que um dia aquela música foi tocada dentro da sua garagem, num domingo gelado e branco. Ela sabia todas as pequenas coisas que qualquer fã de vampiros brilhantes crescida à base de Ovomaltine daria a vida para saber. Ele tinha alergia a milho, medo de entrar no mar e queda por morenas peludas. Ela tinha sido a grande exceção da vida dele, como a música insistia em dizer. E foi ao som do verso em que ele acidentalmente compôs seu nome que ela percebeu que sentia falta da forma como ele inventava desculpas idiotas para não ir à praia, e colocava vírgulas entre palavras que perdiam o sentido quando separadas. Era um pouco como separar os dois, ela pensou. E alguma coisa dentro dela pareceu se desencaixar.

Sentada no braço do sofá estampado, com as pernas brancas cobertas de protetor solar entrelaçadas, ela se esqueceu de piscar, respirar ou pensar. Apenas permaneceu quieta, enquanto a música fluía. Quase como se fossem parte um do outro – e eu falo dela e da música.

Pela primeira vez em três meses, Fernanda não teve vontade de chorar. Não teve de correr para o quarto, trancar-se e lamentar. Não teve de atirar-se ao chão, ou roer as unhas, ou gritar palavras feias cujo significado ela desconhecia. Ela apenas sentiu, sem saber que estava sentindo, ou o que estava sentindo. Ela apenas o observou se mover, conforme as palavras saiam de seus lábios, e soube que aquilo era real, porque, se não fosse, não doeria tanto. “A dor é o que nos mantém vivos, Fê. É ela que diz que ainda somos humanos.”

Ele sempre teve jeito de poeta, mas não estava nos planos dela encontrar o ex cantando na TV a cabo. Mas é claro que pensar nele como ex também não estava nos planos.

Foram três minutos que pareceram durar três anos. De repente, tudo ficou quieto. Então os aplausos começaram, e seus olhos ainda estavam secos. Ele fez um reverência, aproximou-se da platéia, sorriu. Ele tinha o sorriso mais bonito do mundo, e sabia disso. É claro que fizera branqueamento – e é claro que ela preferia o amarelo autêntico que ele substituíra por uma fileira de dentes artificiais.

– É… acho que agora nós podemos mudar de canal.

Fernanda não se moveu. Ele caminhou pelo palco, radiante.

– Eu… acho… que.

Jéssica torceu o nariz plastificado.

– Oi?

– Eu o amo.

– Eu acho que você anda lendo muito Nicholas Sparks. E seja lá quem estiver escrevendo isso aqui… nós precisamos de mais poesia latina. Obrigada.

– O que?

– O que?

Jéssica pegou o controle, ia mudar de canal.

– Já chega de se torturar, né? Vamos seguir em frente. Repita comigo: ‘seguir em frente’.

– Não. Jéssica, eu… eu o amo.

– Você não o ama, Fê. Só viu seu ex na televisão. Eu sei que é complicado. Ele tá mais bonito, mais sarado… você devia ter esperado uns meses pra terminar com ele. Mas fazer o quê? É a vida. É claro que você não o ama, uma moça de vinte e poucos anos nem sonha com o significado da palavra amor. Agora, vamos ver desenho.

Fernanda acertou as mãos de Jéssica com um tapa.

– Nem pense em pensar em mudar de canal. E eu sei o que é amor. É um jogo impiedoso, quando não jogado da forma certa.

Jéssica umedeceu os lábios finos e ressecados. Revirou os olhos, sentou-se no chão.

– Eu não vou ficar aqui escutando você parafrasear cantoras loiras e americanas. Ok? Me dá o controle.

Dentro da televisão, o moço que se tornara pauta de conversa entre colegas de quarto que dividiam o apartamento no centro da cidade falava sobre a reviravolta que tivera na vida, desde que um amigo lhe apresentara a um produtor musical importante.

– Cara, você não entende. Eu amo esse homem. Amo mesmo. E não é porque ele fez as sobrancelhas, ou porque tem malhado. Embora esse último item ajude e… Olha. Isso não importa. Eu o amava há dois meses, e ainda o amo. E podem se passar três, quatro anos, eu ainda vou amar. Porque… porque sim. E eu tenho que consegui-lo de volta. Eu tenho que falar com ele, e explicar tudo, e pedir desculpas e beijá-lo e então nós vamos voltar e…

– E de onde veio a inspiração para essa música? – o apresentador que obviamente disfarçava a calvície com uma peruca volumosa e negra perguntava, com sua voz de locutor.

O moço que se tornara pauta de conversa entre colegas de quarto que dividiam o apartamento no centro da cidade sorriu seu sorriso de dentes artificialmente brancos (mas por que tudo na TV era tão artificial?) e pigarreou – porque é claro que ele ainda fumava, escondido da mãe, dos irmãos e das fãs.

– É sobre uma garota com quem eu… sai, uma vez. A Fê.

Os olhos dela brilhavam, e ela quase foi capaz de ignorar o “garota com quem sai uma vez”, na ansiedade que sentia pelo que viria a seguir.

– E vocês não estão mais juntos? – o careca disfarçado perguntou.

– Não. Ela não era a garota certa pra mim. Foi um desses relacionamentos instáveis, que só servem pra ensinar o que nós não devemos fazer com nossas vidas. Definitivamente.

A palavra ‘definitivamente’ não adicionava nenhum sentido à frase, mas ele a havia adotado como ponto final desde que começara a dar entrevistas na televisão.

Uma loira de vestido justo entrou em cena, enquanto Fernanda escorregava seu corpo contra o sofá, em direção ao chão. A loira passou os braços ao redor do pescoço dele. Fernanda passou os braços ao redor das próprias pernas. Ela o beijou na bochecha. Fernanda apoiou o queijo nos joelhos. Ele ia cantar outra música. Ela se limitou a baixar os olhos e tremer os lábios.

– Pode mudar de canal, se quiser. – foi tudo o que a voz rouca conseguiu dizer.

23 de setembro de 2012 § 6 Comentários

Mas o calendário anunciava – era primavera.

Filippo lançou o olhar de encontro à janela, como se os cílios compridos pudessem alçar voo, atravessar a cidade e mandar notícias suas para ela. Os papéis estavam sobre a mesa de vidro, tudo o que lhe restava fazer era deitar-se sobre o monte amarelo, num sono pesado e honesto, e deixar a marca do corpo e as pegadas da alma gravadas nas linhas azuladas do caderno. Já fazia quase três semanas e tudo o que ele tinha era a frase desapontada, que no lugar do ponto final trazia uma interrogação assustada, refém de parenteses inescrupulosos, perguntando-se a que lugar pertencia quando na verdade a resposta era óbvia – lugar nenhum. “Só que não se trata de uma escolha”. Seja lá quem agrupou as palavras todas na mesma página, era tarde demais para consertar. Setembro batia à porta, derrubava as paredes, pichava os muros de Berlim e entrava, convidando-se para um café, ou quem sabe um chá. Só se for de limão. Os ponteiros do relógio de parede assistem à cena e se esquecem de passar – mas se tudo passa, talvez você passe por aqui. Quanto mais simples o plano, maiores as complicações. Existe um mito ao redor da simplicidade, existe uma história que esqueceram de contar. Todo o luxo e a beleza que a envolvem vêm a um custo muito alto – e do alto daquele prédio ele haveria de pular. O que Filippo admirava era a facilidade das coisas em não ter sentido. “Quanto mais a gente vive, menos tempo a gente tem”. Os ponteiros ainda assistiam. Naquela tarde de vento frio e aparência nostálgica, ele ficara de terminar o primeiro capítulo. Dentro de alguns meses o dinheiro acabaria e ele voltaria com o rabo entre as pernas para o colo da mãe. Adeus liberdade, adeus São Paulo, adeus apartamento apertado no sétimo andar – olá, faculdade de Direito, algemas imaginárias e desaprovações merecidas. Pela primeira vez em muito tempo ele olhava para o dia e acenava satisfeito, porque não havia destino, não havia acaso e não havia roteiro. O mundo se ajoelhava diante de seus pés, nu numa reverência, ele era livre para ser quem quisesse ser. Mas já era setembro. Sentou-se diante da mesa, os lápis escorregando e escorrendo, como água fugindo dos dedos, mais molhados que o asfalto pós-chuva. Só tinha o título – e já era setembro. Apertou os lábios e estalou a língua (é que ele usava mais a boca do que as mãos, para escrever). Tinha que terminar. Tinha que ser bom. Por ele, pela liberdade, pelo dia azul e por Catarina. Escreveu, de vermelho, no topo da página, com caligrafia horrível:  “Nas linhas sinuosas de seu corpo e alma, eu me sentei e chorei”.

Apagou.

(o avesso)

6 de setembro de 2012 § 6 Comentários

Os dedos foram deslizando pela pele desnuda, desvendando devagar as cicatrizes discretas, descobrindo delicadamente  o que nunca fora escondido ou preservado ou coberto – seu corpo se estendia diante da luz diurna do olhar de Fabrício como o céu se abria por cima dela, sem segredos nem sarcasmo nem medo; apenas a crueza honesta e inconveniente, fria feito as palmas de suas mãos. Os pelos eriçados, os músculos contraídos, os olhos fechados. Havia a língua, havia a saliva e havia os dentes. Os olhos fechados. A luz apagada, não sabia se do lado de dentro ou do lado de fora (mas ela corria, apertava botões, esmagava interruptores – um abajur, uma lanterna, uma vela perfumada e uma canção francesa, qualquer coisa seria melhor que a escuridão completa e faminta, que roubava o ar e a fala). No meio do nada havia só a presença tímida das estrelas, que pouco a pouco se escondiam, colorindo a atmosfera com o gosto do hálito dele.  E só havia o cheiro. Rastejando pelo quarto, rasgando com as unhas (vermelhas) as cortinas (velhas), manchando de batom (vermelho) as paredes (de concreto). Entorpecente, esmagador, pesado e quente. Quente. Havia o cheiro, e era seco. Tinha o sabor vazio do sal, sugando dos lábios o sulco, deixando no lugar a sede. De novo Fabrício estava atirado aos pés dela, e seus braços a conduziam e dominavam, seus lábios e seus olhos insensatos suplicavam, seus cabelos no travesseiro e os arrependimentos na boca, escorrendo pelo queixo feito veneno – desciam pelo pescoço, pelo peito e pelos braços. Hipnotizado pelo vai e vem dos quadris, perdido no meio de tanta ausência de roupa, tanta presença de alma, ele se desculpava enquanto queimava – mas todo aquele fogo só podia vir do inferno. A culpa amamentando a consciência feito leite, nem o silêncio denso acalantava ou calava os lábios que se dividiam e se compartilhavam. Rachados em dois, eles proclamavam os versos – ‘não posso mais compartilhar seus lábios’. Em algum lugar no meio dos braços e das pernas havia lágrimas, doces feito mel mas carregadas feito nuvem (chovia). Não posso mais compartilhar seus lábios. Despido do orgulho e da coragem, ele era apenas uma criança acolhida no seio dela, alimentando-se de vida e sabendo que na manhã seguinte amontoaria suas coisas e partiria, partindo seu coração.

1 de setembro de 2012 § 1 comentário

Durou menos de alguns minutos.

Ficou espiando pela fresta da janela, e mesmo no escurinho diminuto de fim de tarde enxergava claramente os olhos grandes e amarelos. Uma vez ficou tão doente pelos olhos que pensou em comê-los, assim, com pronome e tudo. Planejou cada procedimento, cada ato com cuidado – ia agir durante a noite, enquanto estavam escondidos por debaixo das pálpebras azuladas. A mistura ambígua das cores no rosto dela faziam-no delirar de vontade, de repulsa e de curiosidade. Queria devorar os olhos e as veias, todos juntos, porque só então se sentiria satisfeito e pleno, cheio dela. Nunca comentou nada, embora achasse o assunto uma pauta agradável para jantares românticos e viagens de carro. Lambeu os lábios devagar – tinham um gosto de maresia.

Ouvia um gaúcho berrando na sala de estar,  e o corpo magro de Elisa se movia conforme ele lhe atirava os versos que de tão altos eram inaudíveis. Tudo o que ele sentia era a aura melancólica, o disco de vinil rodopiando depressa, os cílios se debatendo como que para alçar voo. Depois de brigar eles se amavam, e depois de se amarem ela se recolhia. ‘Por que você tem tanto medo, Elisa? Do que você tem tanto medo? De mim? ‘ Sorriu.

Havia uma faca debaixo do travesseiro, e se perguntassem ele não negaria. Elisa se jogou no sofá quando a última palavra foi dita, e foi tão última que depois dela não houve mais nada. A porta foi aberta, e o sorriso se fechou depressa. (Mas depois de tê-lo amado tanto ela se recolhia). Ele caminhou devagar, e era gostoso o barulho incômodo que seus pés faziam ao esmagar o piso. Ele disse que ela nunca estivera tão bonita, e é provável que lhe tenha dado um beijo. Elisa nunca entendeu o porquê, mas beijá-lo era como pular do alto de uma torre, e se despedir com um grito. ‘Mas de tudo que eu amo em você, Elisa, eu amo mais esse seu olhar de bicho’.

As mãos dele se desocuparam, e os cabelos dela se tingiram de vermelho. Se não se sentisse tão feliz, choraria. Ficou quieto, admirando a forma como pouco a pouco a face dela se descoloria. Ela nunca soube dizer o nome dele.

ladies wanna kiss you

3 de agosto de 2012 § 5 Comentários

Mas às vezes amá-la era muito difícil. Principalmente quando acentuava as palavras do jeito errado, mordiscando o lábio inferior e revirando os olhos quentes e castanhos. Só que no meio de tanta dificuldade havia um córrego leve e simples, tão tranquilo quanto o céu poderia ser. Franziu as sobrancelhas e as linhas de expressão foram cravando suas unhas na face antes lisa, os sulcos se abrindo na pele como flores brotando da terra. Era aquele detalhe singelo e rude que o fazia recordar os motivos implícitos pelos quais continuava ali, assistindo às mãos brancas e frias se movendo rapidamente enquanto ela tagarelava.

 

ps: eu não assinei nenhum contrato dizendo que tinha que escrever bem.

isso aqui não tem a pretensão de ser um texto

26 de julho de 2012 § 12 Comentários

Alice estava sentada num dos bancos da praça – aquele que ficava sob um grande pé de amora e, por isso, fora eleito seu preferido-, desenhando pássaros (que não se pareciam em nada com pássaros) em seu caderno de Matemática.

Era quinta-feira, Alice tinha certeza. Mesmo já fazendo muito, muito tempo, quando ela fechava os olhos ainda podia sentir o cheiro do dia quente. Não sabia exatamente como era o cheiro de um dia quente, mas podia reconhecê-lo quando sentia. O céu azul como nunca havia visto antes; não conseguia pensar em nada que fosse tão azul quanto aquele céu. Nem mesmo os olhos de Diana, que eram a coisa mais azul que já vira sua vida toda, eram azuis como aquilo. Então só podia ter sido uma quinta-feira. Quinta-feiras eram sempre especiais, sempre havia algo por trás daquele céu sem nuvens numa quinta… E naquela quinta havia ainda mais.

– O que é isso? – Perguntou Lipe, apontando os grandes olhos castanhos para os rabiscos de Alice. Ele dançava por entre as raízes da árvore, as mãos pequenas envergando os galhos, os pés esmagando as amoras que estavam no chão – um rio roxo correndo por debaixo de seus sapatos velhos.

– São pássaros, não tá vendo? – Alice se ofendeu. Como alguém podia não perceber que eram pássaros?

Lipe se aproximou, franzindo as sobrancelhas escuras. Pássaros? – Não parece.

Alice enrugou seu pequeno nariz. É claro que pareciam pássaros. Eram pássaros. E qualquer um perceberia isso. Lipe notou que ela não gostara da crítica. Sempre tão sensível, pensou. Se ofende com qualquer comentariozinho…

– São mais bonitos. Mais bonitos do que qualquer outro passarinho que eu já tenha visto.

Ela sorriu. Às vezes parecia muito mais criança que Lipe, mesmo sendo tão mais velha. Principalmente quando sorria daquele jeito, e seu rosto todo se iluminava. Os olhos pretos adquiriam um brilho diferente, pareciam duas jabuticabas maduras. Então ninguém adivinharia que ela estava para completar dezessete anos. Não mesmo. Era menina demais, criança demais.

– Quantos anos você tem, Alice? – Lipe perguntou num tom curioso. Estava sempre perguntando coisas a ela, e ela lhe respondendo, quase sempre com outras perguntas.

– Você não sabe? Já me perguntou tantas vezes!

– Você pode ter ficado mais velha de uma pergunta pra outra, não pode? – Ele colheu algumas amoras e as colocou sobre o banco onde Alice se acomodava.

Alice riu. Sua risada era engraçada, e fazia com que Lipe risse também, mesmo sem saber exatamente por quê.

– É, acho que sim. Dezessete.

Colocou as amoras na boca, todas de uma vez. Um líquido de cor púrpura escorreu por seu queixo e ela limpou o rosto na camiseta branca do uniforme. Diana provavelmente brigaria com ela por causa daquilo. Quem se importa? Diana estava sempre brigando por algum motivo, mesmo. Que fosse por um bom motivo, então. E não conseguia pensar em nada que fosse tão bom quanto amoras.

-Dezesseis. – Lipe a corrigiu. Ela ainda não tinha dezessete; teria dali a duas semanas, mas, até lá, Lipe queria ouvi-la dizer que ainda tinha dezesseis.

Alice revirou os olhos. Dezesseis é quase como dezessete.

Na verdade, não era. Alice não falava como quem tinha sua idade. Às vezes parecia ter onze anos, como Lipe. Ele pensou em dizer isso a ela, mas achou que fosse ofendê-la. Qualquer coisa a deixava ofendida. Alice era tão delicada, ele tinha medo de deixá-la triste.

– Trouxe uma coisa pra você – Ela disse. Largou o caderno de matemática no banco e tirou um embrulho laranja de dentro da bolsa.

 

ps1: leiam o título de novo, por via das dúvidas.

ps2: acabou desse jeito porque era um começo, mas o resto é dispensável.

Onde estou?

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