16 de agosto de 2012 § 8 Comentários

Fernando esfregou as costas da mão no nariz – havia sangue.

Muito sangue.

Devia ter ficado em casa. Não devia ter nem saído da cama. Por que bebeu tanto? Por que era tão esquentado? Por que pontos de interrogação soavam tão falsos? Tocou o interfone, os dedos vermelhos manchando os botões rijos que ele apertava insistentemente. ‘Que merda, por que não atende’, e se interrompeu antes de pontuar. Em algum cômodo mal-iluminado de um dos apartamentos daquele prédio achatado, Julia dormia. Ou talvez ainda estivesse acordada. Mas se estivesse, atenderia. Então, havia mais alguém – e era esse ‘mais’ atrevido e peludo que o atormentava. Claro. Um homem. Um homem de meia idade que ela encontrava secretamente, porque achava poético andar por ai acompanhada de um pai divorciado, já meio grisalho e que preferiria café à bebida alcoólica. Um marmanjo qualquer que tenha sorriso amarelo e goste de Chico Buarque. Babaca, do jeitinho que ela queria; a barriguinha proeminente e as costas largas, o sotaque imitando o de um ator espanhol mal-pago. Apertou os botões com força, mal enxergava os números que foram sendo apagados pelo tempo e pelos dedos e pelas doses. O sangue agora entrava indecente pelos lábios esbranquiçados.

– Pois não?

Não era voz de homem, era a voz de Julia. Meio desacordada, meio irritada, meio curiosa, e não havia tanto inteiro para haver tanta metade.

– Ju? Ju? Julia, me deixa entrar.

Não respondeu. Fernando ouviu o som do portão sendo destrancado, abriu-o depressa, fechou-o com brutalidade. Por algum motivo ele estava sempre com raiva, sempre com medo. Por algum motivo ele havia roubado uma bicicleta, e agora estava morrendo de vontade de roubar aquela voz sonolenta, de grudar sua boca ensanguentada na dela.

Foi subindo os degraus, eram tantos e ele nunca aprendera a contar. Não realmente, pelo menos. ‘Quem garante?’, ele dizia. Não queria dizer nada, embora as sobrancelhas se franzissem como se estivesse diante da questão fundamental da vida. ‘Você quer respostas, mas nem sabe qual a pergunta’, ele a ouviu gritar noutro dia. Julia gritava muita coisa, mas ele só prestava atenção naquilo que pudesse deixá-lo entretido mais tarde, quando não poderia tê-la. Talvez a coisa mais bonita que já a ouvira dizer fosse ‘plaquetas’.

– Ai. Meu. Deus.

Subiu o olhar vago – mas não muito, ela era pequena. Alcançou a expressão assustada, os dedos brancos e finos tapando a boca, quase como se com eles impedisse as palavras erradas de escapar.

– …Oi.

– Tem sangue saindo do seu nariz. E da sua boca.

Ele assentiu.

– É. Eu senti o gosto.

Julia se aproximou, colocando os braços magros por debaixo das axilas dele. Estava suado. Fedia bebida. Carregou-o para dentro do apartamento, que não cheirava a homem nem a cigarro, para o alívio de Fernando. Pela primeira vez naquele dia um sorriso largo apareceu, e os dentes ligeiramente tortos eram rubros como os cabelos dela.

– Você vai tomar um banho. E vai me explicar isso tudo. Onde dói?

Ele se sentou no sofá. Não queria sujar a mobília, nem empestar a casa com seu cheiro – mas a gente passa a vida querendo coisas, e metade delas nunca deixa de ser desejo. – A cabeça. E os joelhos.

Estavam ralados. Ele havia caído.

– Como aconteceu, dessa vez?

Ia contar do roubo, mas era complicado. Era complicado justamente por ser simples demais. ‘Sou um idiota, um bandido, um ladrão. Eu roubei. Eu caí. E depois me envolvi numa briga.’ Não tinha total controle sobre a língua, ou sobre sua própria língua, ou sobre qualquer coisa. Não queria explicar, não queria enfrentar aquele olhar azul que era doce como o céu primaveril, mas num piscar das pálpebras rodeadas de longos cílios se tornava impiedoso e atormentado. Ficou quieto. Chegou mais perto. Ela tinha cheiro de banho e de perdão – tinha cheiro de Julia.

– Eu vou cuidar disso. Espera ai.

Ele segurou a barra de sua saia, antes que se virasse e fosse embora. Seus dedos ficaram parados ali, hesitantes mas insistentes. Julia ficou de joelhos, no chão. Passou as mãos pelos cabelos dele, depois contornou com as unhas a barba mal-feita. Aquela história era cheia de meios e maus, e ele sabia que não conhecia o propósito, nem o fim. Pouco a pouco, seus rostos foram se aproximando, e o coração batendo mais rápido, e a culpa se desvanecendo, e as interrogações dando espaço para as reticências de um penúltimo capítulo. Pouco a pouco, o som de sua respiração foi entrando no ritmo conturbado da dela, e ele já não sabia dizer quem era quem. O sangue ainda escorria pelo rosto – era uma visão desprezível e nojenta. Julia podia dar o nome que quisesse – mas ainda seria amor.

ou um cálculo matemático

29 de maio de 2012 § 3 Comentários

A borboleta pousou no parapeito da janela e permaneceu ali, exposta ao sol, quase como se, concentrada do jeito que estava, fizesse uma oração, ou um cálculo matemático.

“Senhor Deus das borboletas” – ou seria das mariposas? Ou seria o mesmo Deus de sempre, aquele senhor simpático de barba branca que corre por entre as constelações vestindo seus chinelos de dedo? – , ela diria. Mas é claro como água intocada por humanos que Pietra não entenderia, mesmo que falasse a língua dos homens e a língua dos anjos porque, bom… ela não sabia em que língua falavam as borboletas/mariposas. E antes que pudesse tentar algo em inglês ou espanhol, a coisinha voadora finalizou a prece ou o cálculo, ou sabe-se lá o quê, e foi embora. Provavelmente era uma mariposa. Borboletas nunca iriam sem antes se despedir.

Eriberto volveu o olhar cor de oceano nada pacífico em direção a Pietra, ele tinha cheiro de cigarros e creme de barbear. E de batatas. Em algum lugar, lá no fundo… batatas. Ela estendeu a mão e deixou que os dedos dele pousassem, leves e concentrados, como a mariposa que um dia fora borboleta, na palma alva e molhada, dançando por sobre as linhas que se ramificavam na pele. O mundo acaba hoje e eu estarei dançando… Talvez ela devesse dizer. Aquilo, duas palavras, oito letras. Talvez ela devesse se aproximar e aspirar, e sentir no rosto pálido a barba mal-aparada. Ele ficava tão bonito de barba. E sem barba. E de olhos abertos, e de olhos fechados, e sorrindo seu sorriso torto e sorrindo seu sorriso reto, e mudo e falante, e quieto, calado e gritando e cantando e sério. Ele era tão tímido que ela quase não acreditava. Tímido e tagarela, como pode? Não sabia como se sentir diante dele, diante de toda aquela complexidade tão simples. Diante de todo o paradoxo que ele era.

“Mas era uma mariposa ou uma borboleta?”

Ele riu. Baforou no ar: “Ma. Ri. Po. Sa. Mariposa. Mari, pousa.” Sim, sim, marido e esposa, ele já tinha desmembrado a palavra antes. Eriberto estava sempre se esquecendo das coisas. Talvez por isso ainda não se cansara dela.

“Mariposa, em espanhol, quer dizer borboleta”, ele disse, com seu sotaque carregado. Mas que contraditório. Então ela era os dois, de qualquer maneira. Borboleta, mariposa… aqui um bicho, lá nos campos argentinos outro. “La lengua de las mariposas…”, sussurrou.

La lengua de las mariposas. “Dejáme ver seu futuro”, ele disse. Pietra nunca entedia o que ele queria dizer, aquela mistura louca de línguas, aquele movimento louco da língua, o acento espanhol fortíssimo e o português ainda em construção confuso. Olhava para os dedos brancos e suados. Pietra ficava nervosa quando ele chegava perto, talvez fosse o cheiro de batata. Arranhou-a de leve, tão delicado ele, sem nem querer ser. Uma delicadeza máscula, uma força desajeitada e ao mesmo tempo cuidadosa, como se soubesse que toda a sua experiência e toda a sua maturidade poderiam quebrá-la em duas se ele se desatentasse. Ela recolheu a mão. Não. Não deixo. “Deixa que eu vejo o seu”.

“Pero es lo mismo, Pietra. Es lo mismo.”

Permaneceu estática. Por que ela só entendia metade do que ele falava? (Porque a dúvida é o preço da pureza e é inútil ter certeza e eu vejo as placas dizendo não corra, não morra, não fume… eu vejo as placas cortando o horizonte, elas parecem facas de dois gumes) Porque seu português era indecente e seu espanhol muito trabalhoso. Ou talvez ela preferisse assim, fazer-se de desentendida pra não ter que concordar. Es lo mismo.

“Me diz alguma coisa em espanhol? Qualquer coisa. Mas uma coisa bonita.”

Eriberto sorriu, dessa vez tortamente. Era um sorriso de Michael Fassbender, todo largo e infinito, um ar sarcástico e peralta. Ela se derreteu, mas só um pouquinho. Ele lambeu os lábios, meio ressecados por causa do frio. “Añoranza.

Añoranza. Recitou a palavra, deliciando o som do ‘nho’, mastigando bem a pronúncia do ‘ssa’. ‘Sssssa’. O que é?

Ele se aproximou. Estava apoiado sobre uma das mãos, as veias do braço direito coberto de sardas agora mais aparentes, as pintinhas claras formando um caminho secreto para debaixo de suas roupas. O cheiro do cigarro cada vez mais alto, o cheiro do creme de barbear, o cheiro de Eriberto (añoranza). Devagarzinho, encostou o nariz de estatueta grega na bochecha corada dela, que instantaneamente se incendiou. Pousou (porque a vida era mesmo feita de pousos) silenciosamente os lábios finos na borda da orelha. “Ssssaudade, Pietra. Significa (o ‘g’ desaparecendo no meio do ‘n’ guloso) saudade”.

 

ps1: qual é a palavra mais bonita do idioma espanhol?

ps2: eu sei gostar de Pietra. E de Eriberto.

ps3: não importa o que vocês digam, eu finalmente o transformei num texto.

ps4: certo, eu já tinha feito isso.

ps5: fim.

10 de abril de 2012 § Deixe um comentário

Estava perdidamente perdida no sorriso primaveril dos olhos dele.

“eu sinto falta da Terra,

18 de março de 2012 § 2 Comentários

Clarice volveu os olhos castanhos em sua direção, fazendo com que Arnaldo instantaneamente mudasse o rumo dos seus, fingindo não notar o esbarrar acidental das almas conturbadas.

Tinha de ser cuidadoso. Estavam os dois naquela fase inicial do jogo, onde quem permanecer tempo demais com os olhos equatoriais perambulando sobre a face alheia perde – e só ele sabia como era absolutamente tentadora a ideia de perder, de se perder, se o prêmio fosse o gozo de permanecer ali, observando atentamente o corar das bochechas alvas dela. Quase tinha vontade de levantar bandeira branca, assumir em público o desejo ardente de se resignar, poder admirar sem pudor a forma como os dedos da menina castigavam a mecha de cabelo rebelde colocando-a metodicamente atrás da orelha, as sobrancelhas se unindo contra a insistência inconveniente dos fios marrons. Em vez disso, tilintou o talher no prato de porcelana, agrupou cuidadosamente os grãos de arroz e enfiou um punhado de ervilhas na boca, disfarçando um sorriso tímido que se dirigia involuntariamente à Clarice.

Era bonita. Não da forma convencional – não tinha curvas graciosas, nem no corpo nem no riso, era apenas um amontoado de brancura e vergonha, como se pecasse pelo simples fato de existir. Os cabelos bem cuidados lhe caiam sobre a face, lisos e castanhos, num tom mais claro que os olhos. Ah! os olhos. Podia pensar neles de novo, sem que sua mente se sentisse redundante? Não era escolha, demoraria a eternidade pensando apenas nos olhos, aqueles globos grandes e marrons, quentes como um dia mormacento de março. Gostava de assistir-lhes observá-lo reservadamente. Gostava de sua boca pequena, da maneira como os lábios finos permaneciam ligeiramente abertos, deixando os dentes brancos e separados à mostra. Gostava da pinta que enfeitava seu rosto redondo logo abaixo do olho esquerdo, das sobrancelhas arqueadas e negras, do nariz levemente adunco. Gostava de tudo a respeito dela, e sentia-se estranho porque aquilo tudo era novo, e vê-la e sentir seu coração bater depressa era surpreendente – não importava quantas vezes ele a visse durante o dia, cada reencontro era uma nova onda de nervosismo percorrendo seu corpo.

Era engraçado, porque eles nunca haviam de fato conversado. Fazia semanas que ele estava hospedado ali, na casa de sua madrinha, mãe de Clarice, e até então seus maiores e mais complexos diálogos se retinham em assuntos como o tempo. Ele mal podia esperar para perguntar-lhe sobre suas músicas preferidas – se tivesse sorte, talvez ela citasse algo de Elton John ou BeeGees. Mal podia conter-se ao imaginar as conversações, as confissões entusiasmadas, a amizade que cresceria entre os dois e, mais tarde, transformaria-se em algo maior. Mal podia esperar para tocar-lhe o corpo, os cabelos, para sentir-lhe o cheiro e o gosto, para poder olhá-la sem sentir receio de não ser correspondido. Mal podia esperar por tanta coisa, e tinha medo de que tanta coisa morresse como nascera – um conjunto de desejos e devaneios loucos e atormentados. Tantas semanas e ela se limitava a olhar, corar e sorrir. Depois desviava os olhos e continuava acenando a cabeça afirmativamente, enquanto a mãe dizia qualquer coisa sobre livros, peças de teatro a que nunca realmente assistira e estudos.

Ah, ele daria qualquer coisa por um momento a sós com ela, um único momento e lhe diria o que sentia e pensava desde que colocara os pés naquele sobrado, desde que a vira cambaleando ébria para dentro do quarto – a mãe aos gritos do lado de fora da casa, já era tarde e a filha estava por ai, com amigos mais velhos e desaprovados. Rosana, a madrinha e, com sorte, futura sogra, dirigiu-se à filha e lhe pediu que fosse até a cozinha buscar a sobremesa. Clarice assentiu, levantou-se, não sem espiar com o rabo do olho o rosto másculo de Arnaldo, e saiu.

Antes que fosse tarde ele se ergueu, pediu licença, retirou-se e correu até o cômodo onde Clarice se encontrava. Ela se virou na direção dele, já esperava que fosse seguida, talvez até torcesse por isso. Colocou as mãos ao redor da cintura dela – precisava ser astuto e pular algumas etapas. Clarice o encarou por alguns instantes. Arnaldo avançou um pouco, hesitou. E ela fez questão de preencher o espaço vazio, seu hálito alaranjado entorpecendo por um breve segundo os sentidos dele. Mais perto, mais perto, mais perto, até que não havia mais espaço para avançar. Arnaldo ficou ali, os lábios se movendo junto com os de Clarice, tão urgente como se tudo naquele momento devesse ser secreto – e como preferia que fosse, realmente, o segredo tornava o beijo mais precioso e necessário.

9 de janeiro de 2012 § Deixe um comentário

e o dia se estendia diante daquele seu sorriso roxo (os dentes tingidos de amora)

30 de dezembro de 2011 § Deixe um comentário

Ela ficou na ponta dos pés, os dedos brancos no piso frio e molhado. Frio e molhado. O beijo dele, frio e molhado. O mundo girando depressa, os olhos dele roubando suas palavras. Perto, mais perto, tão perto. Nem havia mais distância entre os dois. Ele sorriu. Afastou-se, o olhar quente, olhar tropical. Ele era todo de antíteses, todo de paradoxos. Todo de beijos, todo de olhares, todo de perguntas. Ela corou. Ele colocou os dedos sobre a boca dela, saiu correndo. Ela ficou ali, os pés no piso gelado, o rosto queimando.

30 de dezembro de 2011 § Deixe um comentário

Ela sorriu. Pelo que estava esperando, afinal? Seus olhos o seguiam pela sala, o cheiro dele ainda estava ali, impregnado no ar. Ah, os olhos. Por que sempre os olhos? Pessoas são mais que isso. Mas os olhos… Dizem que são as janelas d’alma. Não sei se são, na verdade, tanto faz. Ele tinha os mais belos olhos, olhos escuros, escuros como… Escuros como nada, eram apenas os olhos mais lindos do mundo, já não está bom? Ele encontrou o olhar curioso da menina, um sorriso secreto surgiu no canto dos lábios, quase como se tivesse escapado por acidente. Era pra passar despercebido, mas ela viu. E agora, que vai fazer? Está encorajando a menina, depois não diga que não avisei. Coisas que começam assim têm final previsível. Mas ela não liga. Está cativada pelo tom da voz dele, pela forma como ele faz beicinho antes de uma gargalhada, como se fosse segurá-la, mas, sem obter êxito, a liberta, a risada mais linda. Ai, as flores do primeiro amor. E que importa se não é o primeiro? Ela se aproximou, os olhos nos olhos. Ele disse uma vez que não gostava, olhos escuros demais, que feio. Ela achava lindo. E de novo falando dos olhos. A menina fechou o livro, pegou a bolsa, saiu da sala. Olhou pra trás. Ele acenou. Final previsível… Tanto faz. Pelo que esperava, afinal? Um beijo de despedida seria pedir demais. Foi embora com o sorriso mais largo que já se viu, ganhou o dia.

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