Apartment

14 de abril de 2012 § 6 Comentários

, a música soava familiar, embora ela estivesse certa de que nunca a escutara antes. Era algo na forma como o vocalista gritava as palavras que ela a muito custo conseguia traduzir – “depois de deixar meu apartamento eu sinto esse frio dentro de mim“. Depois de deixar a cidade ela sentia o frio se aproximando, não como a brisa doce cheirando a kiwi pela qual tanto ansiava durante as tardes longas e mormacentas de verão, mas como o frio impessoal e barulhento, o frio nebuloso e solitário que era digno de um filme europeu de final infeliz. O tipo de frio que, ela sabia, arrepiava o coração, e não os pelos do braço.

Ficou aliviada por ter ligado o rádio quando saíram de casa ou teria que iniciar e, o que era muito pior, manter uma conversa por todo o percurso. Aquilo seria impossível, considerando as circunstâncias. Derramou o olhar gélido por sobre o vidro embaçado da janela e se obrigou a lembrar quais eram as circunstâncias. Em primeiro lugar, Roberto está noivo. Noivo. Soletrou a palavra duas ou três vezes, para que a memorizasse bem e não corresse o risco de se esquecer momentaneamente de seu significado. Em segundo lugar, Roberto era seu amigo. Não, não era apenas seu amigo. Era seu melhor amigo. Aquela palavra tão pequenininha e tão carregada de acepção mudava a história toda. Ela tinha dezenas de amigos, todos eles muito adultos, maduros, íntimos. Todos eles eram maiores de idade, todos eles saiam com ela para beber nos finais de semana, todos eles se reuniam na casa de alguém para torcer e xingar em dia de jogo de futebol. Mas o adjetivo nanico que precedia o companheiro de festas e estudos mudava tudo: Roberto era quem estava lá quando ela não conseguia pregar os olhos durante a noite por causa da chuva. Roberto era quem estava lá quando ela tirava uma nota terrivelmente baixa (ou não tão terrivelmente baixa assim) e não sabia como parar de chorar. Roberto era quem estava lá quando ela acidentalmente bebia demais, e todos os outros queridos íntimos já haviam abandonado o bar há horas. Roberto, o garoto de cabelos escuros caídos por sobre os ombros largos como duas cortinas feitas de noite. O garoto do sorriso desnudo. O garoto do primeiro beijo. O garoto.

Qual era mesmo a circunstância? Alice esbarrou sem querer os olhos nele, tinha o queixo contraído, e nesses momentos era inevitável se lembrar do pai – só que ela nunca dizia o quanto os dois eram parecidos, porque sabia o quão irritado Beto ficaria. Afinal de contas, ninguém quer se parecer com um monstro. Mas era um monstro bonito, ah, era sim. Ela nunca mencionou o tropeço que tinha pelo ‘tio’ barbudo, aquela voz meio rouca e aquele jeito revolucionário, gostava de se sentar na varanda e ficar tocando violão, umas músicas em espanhol que faziam Alice inventar traduções alternativas, cada palavra um novo significado só dela. De certa forma ela sabia que um dia Roberto cresceria e ficaria a cara do pai, só não sabia que isso geraria mais que um tropeço – muito mais.

Roberto abaixou o volume do rádio, e Alice sentiu vontade de tirar os dedos dele dali e aumenta-lo de novo – ‘você não vai me obrigar a falar, vai? Por favor…’. Agora o carro estava parado, estacionado no encostamento. Havia árvores ao redor, estavam se aproximando da cidadezinha de habitantes alienados e fofoqueiros, todos uma gracinha, mas ainda não haviam chegado lá, Alice não suportaria um final de percurso repleto de conversa quando ela ainda discutia consigo mesma a respeito de que diabos estava fazendo ali.

– Você sabe que temos um combinado, não sabe?

Ela se obrigou a manter os olhos longe dos dele, e ainda assim era capaz de sentir a palavra se desvanecendo como se estivesse exposta às gotas de chuva que caiam lá fora. Noivo… noiv… no… O que era, mesmo?

– Como?

Os dedos de Roberto saltaram do botão para o rosto pálido dela, e aquele contato fez com que ela estremecesse. Depois de tirar delicadamente os fios de cabelos ressecados e distribuí-los metodicamente atrás das orelhas perfuradas, virou a face branca para ele. – Eu só estou te levando pra casa da sua mãe porque sei que a situação é delicada. Mas eu quero você de volta. E a tempo.

“Eu quero você de volta.” Queria mesmo? Com todos os defeitos, com todas as crises existências, com toda a feiura do rosto e a graça do corpo, com todo os adendos e com toda a paixão por Radiohead? Ah, se quisesse a teria, teria, sim. A Alice dos velhos tempos, dos tempos novos, do futuro e do felizes para sempre. Ficou deliciando a frase pelo momento em que foi possível, até que se sentiu obrigada a dar uma resposta, – A tempo…?

– O casamento.

– Ah.

Roberto franziu o cenho. Claro, o casamento. Do que ela achou que estivessem falando? Por favor, Alice, não torne as coisas mais complicadas do que já são. Como ele podia lhe pedir isso? Alice era a complicação em forma de gente pequena, sempre foi. Pedir para não complicar era como pedir para não ser – e nem ele nem ela queriam isso. Seja, Alice. Mas seja com calma, devagar, como tem que ser.

– Você vai.

Não era uma pergunta. Alice tinha vontade de chorar, só não entendia porquê; ela foi a primeira a saber do casamento, lembrava-se de estar em casa assistindo a Friends quando ele telefonou eufórico, mal conseguia falar, ‘Vou casar, Alice! Vou casar!’. E agora esse desespero súbito, essa necessidade de transformar em lágrima tudo o que ela não disse na ligação e tudo que ela não disse depois, não ia dizer agora e não chegaria a dizer nunca.

– Claro. Claro que sim. É só que… Você sabe, mamãe tá muito doente. Eu preciso ficar com ela, ela está tão velhinha, coitada. Eu tenho que ir, sabe. Mas eu volto, quando ela estiver melhor. Eu… não perderia isso, por nada. E é claro que mamãe vai melhorar logo.

Roberto sorriu porque sabia que era mentira, toda aquela história de não perder o casamento por nada.  E ele achava graça em assistir-lhe enquanto fingia – ela ficava rosa e agitada, as palavras vinham num fluxo exagerado, uma ideia atropelando a outra.

– Mas é claro. Eu vou te buscar, e te levar à força, se você não for com seus próprios pés.

Eles riram, e soavam tão bonitos rindo juntos. Alice tinha um ótimo dedo para melhores, e aquele era melhor em especial, era Beto. Seria um marido incrível, e um pai incrível, porque era um ser incrível. Então ela o beijou.

ps: Vermelhinha 1, por que eu sempre subestimo seus conselhos musicais? Fui ouvir essa banda agora e só depois de semanas passadas desde sua indicação me dei conta do quanto ela é incrível. Obrigada, hehe, vou roubá-la pra mim.

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3 de abril de 2012 § Deixe um comentário

Com seu jeito torto e desengonçado passou depressa pelos portões azuis da escola; aquele sorrisinho bobo pregado nos lábios hidratados com manteiga de cacau, o olhar cabisbaixo com ar descontraído que já lhe era de praxe cumprimentando os alunos parados na calçada – era segunda-feira e ela sentia o leque dos dias se estender diante dela, quanto tempo para sorrir e quanto tempo para viver(!). Tinha uma vontade infantil de bater palmas e cantar, de atravessar as ruas saltitando e assobiando uma canção qualquer dos Beatles. Tinha uma vontade de beijar a face do mundo, e de conversar com os motoristas e com os pedestres. Ela se sentia tão cheia de sol que não precisava dos postes de luz – era iluminada por dentro. Foi contando nos dedos as semanas que ainda faltavam, tão pouco tempo e ela ainda tinha de comprar um vestido, mandar os convites, contratar um buffet… Quase enlouquecia só de pensar na loucura que seus dias iam se tornar. Mas não importava. Nem que por alguns meses tivesse de abdicar do ar que respirava ela se importaria, porque ia deixar de ser Marina Ribeiro pra virar Marina Ribeiro casadinha da Silva, casadinha com Silva, Roberto, amor da minha vida, flor do meu jardim, estrela do meu céu azul cor dos olhos seus, e agora os olhos seriam dela, seriam os espelhos dos olhos dela. Vontade de gritar o nome dele por ai. Pensava nas roupas que usaria, na decoração toda bonita e bucólica do salão, ela queria se casar ao ar livre mas naquela estação as chuvas eram imprevisíveis e espalhafatosas – nada de chuva, já me basta o arroz. Pensava na vida dos dois, no Golden Retriever, nas crianças que viriam alguns anos depois… o sorriso tão largo e espaçoso que as pontas quase se uniam por trás das tranças e davam as mãos. Ah, Beto… Quanto tempo nós temos, amor, por que correr? Porque a vontade é grande e eu te amo, você me ama, nos casamos e somos felizes pra sempre, que tal?

Ela ia dizer sim, mas a bicicleta surgiu do nada e a história chegou ao fim.

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