7 de março de 2012 § Deixe um comentário

Sentia tanta falta que chegava a doer (fisicamente).

Clarinha deitou-se de bruços sobre a cama desarrumada, arrancou fora a blusa e enterrou a cara maquiada no travesseiro. Sentia o suor descer-lhe por entre os seios, molhando o sutiã quase novo e navegando através da barriga que ela fazia questão de diminuir com as sessões de academia – meu Deus! que calor insuportável, tinha vontade de mergulhar num rio e viver feito um peixe-boi para sempre; mas se peixe-boi é mamífero, por que o chamam de peixe? Do mesmo jeito que ela, que não se sentia muito gente, era chamada e tratada como se o fosse.

3 de março de 2012 § Deixe um comentário

A noite lá fora pedia socorro – não sabe que Luísa não está em condições de ajudar ninguém? Continuou debruçada sobre o beiral da janela, o cheiro doce da cidade invadindo o quarto com violência, quase como se se convidasse para dormir ali. Era uma sensação engraçada aquela, de observar a vida correndo enquanto ela permanecia estática com seus olhos escuros bem abertos. Tinha sido um dia cansativo e quente, e agora ela finalmente se sentia fresca, com a camisola esvoaçante e os cabelos recém-lavados. Era o tipo de liberdade que pedia a Deus todos os dias, a liberdade de se lavar – lavar os cabelos, o corpo, a alma… Arrancar da pele toda e qualquer cicatriz permanente. Os vaga-lumes rodopiavam em torno dos postes de luz acesos, os carros escorriam pelas avenidas como as gotas de chuva escorrem pelo vidro da janela em tardes de domingo – só que era segunda-feira, e ela não sabia que analogia fazer com aquilo que lhe era atirado à cara.

da cicatriz, da necessidade, de preposições e da menina que não sabia amar

1 de março de 2012 § Deixe um comentário

Era uma necessidade absurda, ainda que anônima.  Lorena gostava mais das coisas quando ainda não tinham nome e podia batizá-las como bem entendesse – só que nesses últimos dias não tinha entendido nada. Mantinha o olhar ligeiramente verde fixo nas próprias mãos, e umedecia e emudecia os lábios com a língua rosada, aquela boca que era pequena demais para o tamanho das palavras que queriam sair dali de dentro. Flávio tomou um gole de café, e Lorena fez o mesmo porque pensou que seria mais sofisticado de sua parte se fizesse. Detestava café, não suportava nem o cheiro – mas era uma questão de honra. Levou a xícara até os dentes, fazendo-os tilintar. O vapor quente subiu-lhe à cara, torceu o nariz sardento, contou mentalmente até três e jogou tudo goela abaixo. ah! O sabor da vitória, deliciava-o com tamanha intensidade que quase não sentia o desgosto de provar o gosto amargo do café – pedira sem açúcar, já que tinha acordado determinada a ser corajosa. Olhou fundo nos olhos de Flávio e sorriu, satisfeita. Os olhos foram descendo, escorrendo pelo rosto enrijecido e estranhamente tranquilo, roçaram a barba mal-feita, deslizaram pelos lábios contraídos, até que chegaram ao pescoço.

Foi quando ela percebeu que ele tinha uma cicatriz. Ficava ali, escondidinha, tão pequena e tão bem disfarçada que quase passou despercebida, mas Lorena foi mais rápida e avistou-a antes que ele mudasse de posição e ela a perdesse de vista. E foi por aquela cicatriz que ela se apaixonou.

Tudo a respeito de Flávio era desumano demais. O sorriso, o olhar, o falar, o gesticular, seu ar paradoxal era inteiro divino, e Lorena aprendera a detestar aquilo. Estar sentada na mesma mesa que ele era como estar cercada por um júri, e sentia-se avaliada todo o tempo, como se até mesmo o arquear de suas sobrancelhas grossas não estivesse à altura do companheiro. Mas aquilo era carnal. Aquele ferimento era a prova, um sinal de que era gente como ela, que cometida erros, que se arrependia, que desejava. E a palavra fez com que ela estremecesse. Foi aquela lua pendurada na pele do pescoço, quase como um pingente, que a fez sentir absurda. Absurda como a necessidade que tinha, absurda como era quando pequena e via nas coisas uma complexidade inexistente, do mesmo modo que olhava para os cálculos matemáticos e achava respostas simples e harmônicas, utilizando-se das próprias regras que eram as regras da vida. Mas não se tratava de cálculos, de complexidades, de vida. Se tratava de Flávio, de como Flávio a tratava, de como ele a olhava e não demonstrava um pingo de atenção, embora fosse todo ouvidos e todo olhos para ela. Se tratava daquela vontade louca que tinha, e nem sabia direito de quê.

Já era a terceira ou quarta vez que se encontravam no mesmo bar, ela com suas saias justas, ele com seu riso largo. Quando pensava em vê-lo o coração batia depressa, como se adiantar-se fizesse o tempo passar mais rápido e levá-la logo para ele, ele, que nem sequer a tocara até então. Ele, com aquelas sobrancelhas unidas, aquele rosto fechado, aquela cicatriz que agora Lorena não perdia de vista. Ele, que visitava seus sonhos todas as noites, que inundava seus pensamentos com hipérboles, que era tudo que ela queria agora. Ele, Flávio, escritor, vinte e tantos anos, talvez beirasse aos trinta, divorciado, sem filhos, pelo menos até onde sabia. Ele, com as mãos calcadas estendidas atrás da cabeça raspada, o olhar meio perdido em algum lugar entre seu sorriso escurecido pelas doses de coca-cola e o fecho da blusa decotada. Não havia suor. Lorena sentia-se úmida, o sangue transbordando do corpo, mas não havia provas, não havia lágrimas, não havia transpiração. Queria a liberdade de derramar para fora de si a imensidade daquele sentimento, aquela liberdade que lhe era sua por direito, mas que fugira para algum campo do sul e nunca mais voltara, deixando-a ali, fechada, os lábios pintados se abrindo e cerrando, tanta coisa pra dizer e ao mesmo tempo sentia que precisava permanecer calada. Não falaria nada até que Flávio quebrasse o gelo com sua voz de trovão, sua perspectiva torta, seus ideias hipócritas, mas ainda assim (ou por isso mesmo) revolucionários.

Viu-se tomando mais um gole de café, e não era nem por ser desafiada nem porque sentia vontade, só queria algo que lhe ocupasse a mente enquanto o olhar vagava pelo corpo forte de Flávio. Vontade. Ele se levantou, ajeitou-se na cadeira de plástico e tomou mais café – Lorena pensou que talvez dessa vez só bebesse porque ela bebia, e então deduziu que se o amasse ele talvez precisasse amá-la de volta, senão perderia o jogo. Soava meio arriscado, mas era o dia de ser corajosa, refrescou ela mesma sua memória, e sorriu como que se a resposta da questão quinze de Matemática estivesse logo no enunciado da próxima. Parou por alguns instantes, tocou de leve a mão dele, imaginando que Flávio a faria escapar dali, fazendo o encontro dos dedos parecer acidente, o encontro das almas parecer acaso, o encontro dos corpos parecer aventura. Mas não. Ele apenas se deixou ficar, sentindo com a ponta do dedão o comprimento exagerado das unhas dela, que ele já disse que preferia curtas. Olhou bem para o rosto da moça, para o corpo que nem era mesmo um corpo de Lorena, aquele frasco onde ela gostava de guardar o espírito, e pensou no quão absurdo lhe parecia necessitar tanto de algo, necessitar tanto dela.

5 de fevereiro de 2012 § Deixe um comentário

Sabe quando o mundo começa a te dar claustrofobia?

Eu sinto que preciso de um lugar maior, maior que tudo isso. Um lugar onde minh’alma (se é que isso de alma existe) possa repousar tranquila, voar livre leve e solta, cantarolar músicas do Elvis e se sentir única no meio de um vazio colorido que cheire algodão-doce (algodão-doce tem cheiro?). Sinto como se meu corpo fosse pequeno demais para o que carrego aqui dentro. Uma vontade de mergulhar na imensidão do mar, ir até o fundo, onde falta luz, barulho e oxigênio. Misturar-me às gotas de água, aos peixes, às algas. Misturar-me e me tornar uma coisa só. Vontade de voar até as estrelas, quem sabe até um buraco-negro, e ser sugada por ele, sumir, desaparecer, diluir-me num nada, num inexistente, porque não existir soa bem mais fácil. Uma necessidade de não ser, entende? Não. Não entendo. Mas às vezes é melhor não entender.

dos olhos. de novo. mas dessa vez eles eram escuros.

21 de novembro de 2011 § Deixe um comentário

Não era, de fato, um homem bonito. E isso nada tinha a ver com critérios impostos pela sociedade, padrão de beleza atual ou opinião da maioria. Apenas não era bonito e pronto. Mas havia algo a respeito dele, a forma como sorria? Não tinha certeza. Marina podia passar a vida inteira parada ali, diante daquele rosto, e não teria como dizer o que a fazia sentir daquela maneira.

Talvez fossem os olhos. São as janelas da alma, talvez tivesse uma alma bonita. E eis a razão pela qual seus olhos a atraiam e traiam, a chamavam para o fundo de um mar escuro e intragável. Olhos negros e que de tão negros que eram ficava difícil saber o que a esperava do lado de dentro. Olhos negros, acho que gostava disso. Ficava estagnada, paralisada, apenas os olhos e o som das ondas noturnas se arrebentando nas rochas, igualmente negras e sóbrias, igualmente duras e velhas. Molhadas de sal como seu rosto moreno se molhava quando o mar de ébano transbordava. Por debaixo das sobrancelhas grossas, sobrancelhas selvagens, um quê de descuido, de desleixo. Ah, ela passaria a eternidade ali, sem dúvida. Só para entender, só para observar, mergulhar naquele oceano de confusão que era ele, que eram seus olhos perdidos e embriagantes.

amor eu sinto a sua falta, e a falta é a morte da esperança

3 de novembro de 2011 § Deixe um comentário

E, de repente, as lembranças estavam lá, inundando tudo. Inundando os olhos, inundando o peito, inundando a alma, inundando a cama, inundando a casa, inundando os lábios. Fazia tanto tempo que não chovia, e agora essa tempestade.

Onde estou?

Você está navegando em publicações marcadas com alma em o segundo sol.