(o avesso)

6 de setembro de 2012 § 6 Comentários

Os dedos foram deslizando pela pele desnuda, desvendando devagar as cicatrizes discretas, descobrindo delicadamente  o que nunca fora escondido ou preservado ou coberto – seu corpo se estendia diante da luz diurna do olhar de Fabrício como o céu se abria por cima dela, sem segredos nem sarcasmo nem medo; apenas a crueza honesta e inconveniente, fria feito as palmas de suas mãos. Os pelos eriçados, os músculos contraídos, os olhos fechados. Havia a língua, havia a saliva e havia os dentes. Os olhos fechados. A luz apagada, não sabia se do lado de dentro ou do lado de fora (mas ela corria, apertava botões, esmagava interruptores – um abajur, uma lanterna, uma vela perfumada e uma canção francesa, qualquer coisa seria melhor que a escuridão completa e faminta, que roubava o ar e a fala). No meio do nada havia só a presença tímida das estrelas, que pouco a pouco se escondiam, colorindo a atmosfera com o gosto do hálito dele.  E só havia o cheiro. Rastejando pelo quarto, rasgando com as unhas (vermelhas) as cortinas (velhas), manchando de batom (vermelho) as paredes (de concreto). Entorpecente, esmagador, pesado e quente. Quente. Havia o cheiro, e era seco. Tinha o sabor vazio do sal, sugando dos lábios o sulco, deixando no lugar a sede. De novo Fabrício estava atirado aos pés dela, e seus braços a conduziam e dominavam, seus lábios e seus olhos insensatos suplicavam, seus cabelos no travesseiro e os arrependimentos na boca, escorrendo pelo queixo feito veneno – desciam pelo pescoço, pelo peito e pelos braços. Hipnotizado pelo vai e vem dos quadris, perdido no meio de tanta ausência de roupa, tanta presença de alma, ele se desculpava enquanto queimava – mas todo aquele fogo só podia vir do inferno. A culpa amamentando a consciência feito leite, nem o silêncio denso acalantava ou calava os lábios que se dividiam e se compartilhavam. Rachados em dois, eles proclamavam os versos – ‘não posso mais compartilhar seus lábios’. Em algum lugar no meio dos braços e das pernas havia lágrimas, doces feito mel mas carregadas feito nuvem (chovia). Não posso mais compartilhar seus lábios. Despido do orgulho e da coragem, ele era apenas uma criança acolhida no seio dela, alimentando-se de vida e sabendo que na manhã seguinte amontoaria suas coisas e partiria, partindo seu coração.

1 de setembro de 2012 § 1 comentário

Durou menos de alguns minutos.

Ficou espiando pela fresta da janela, e mesmo no escurinho diminuto de fim de tarde enxergava claramente os olhos grandes e amarelos. Uma vez ficou tão doente pelos olhos que pensou em comê-los, assim, com pronome e tudo. Planejou cada procedimento, cada ato com cuidado – ia agir durante a noite, enquanto estavam escondidos por debaixo das pálpebras azuladas. A mistura ambígua das cores no rosto dela faziam-no delirar de vontade, de repulsa e de curiosidade. Queria devorar os olhos e as veias, todos juntos, porque só então se sentiria satisfeito e pleno, cheio dela. Nunca comentou nada, embora achasse o assunto uma pauta agradável para jantares românticos e viagens de carro. Lambeu os lábios devagar – tinham um gosto de maresia.

Ouvia um gaúcho berrando na sala de estar,  e o corpo magro de Elisa se movia conforme ele lhe atirava os versos que de tão altos eram inaudíveis. Tudo o que ele sentia era a aura melancólica, o disco de vinil rodopiando depressa, os cílios se debatendo como que para alçar voo. Depois de brigar eles se amavam, e depois de se amarem ela se recolhia. ‘Por que você tem tanto medo, Elisa? Do que você tem tanto medo? De mim? ‘ Sorriu.

Havia uma faca debaixo do travesseiro, e se perguntassem ele não negaria. Elisa se jogou no sofá quando a última palavra foi dita, e foi tão última que depois dela não houve mais nada. A porta foi aberta, e o sorriso se fechou depressa. (Mas depois de tê-lo amado tanto ela se recolhia). Ele caminhou devagar, e era gostoso o barulho incômodo que seus pés faziam ao esmagar o piso. Ele disse que ela nunca estivera tão bonita, e é provável que lhe tenha dado um beijo. Elisa nunca entendeu o porquê, mas beijá-lo era como pular do alto de uma torre, e se despedir com um grito. ‘Mas de tudo que eu amo em você, Elisa, eu amo mais esse seu olhar de bicho’.

As mãos dele se desocuparam, e os cabelos dela se tingiram de vermelho. Se não se sentisse tão feliz, choraria. Ficou quieto, admirando a forma como pouco a pouco a face dela se descoloria. Ela nunca soube dizer o nome dele.

16 de agosto de 2012 § 8 Comentários

Fernando esfregou as costas da mão no nariz – havia sangue.

Muito sangue.

Devia ter ficado em casa. Não devia ter nem saído da cama. Por que bebeu tanto? Por que era tão esquentado? Por que pontos de interrogação soavam tão falsos? Tocou o interfone, os dedos vermelhos manchando os botões rijos que ele apertava insistentemente. ‘Que merda, por que não atende’, e se interrompeu antes de pontuar. Em algum cômodo mal-iluminado de um dos apartamentos daquele prédio achatado, Julia dormia. Ou talvez ainda estivesse acordada. Mas se estivesse, atenderia. Então, havia mais alguém – e era esse ‘mais’ atrevido e peludo que o atormentava. Claro. Um homem. Um homem de meia idade que ela encontrava secretamente, porque achava poético andar por ai acompanhada de um pai divorciado, já meio grisalho e que preferiria café à bebida alcoólica. Um marmanjo qualquer que tenha sorriso amarelo e goste de Chico Buarque. Babaca, do jeitinho que ela queria; a barriguinha proeminente e as costas largas, o sotaque imitando o de um ator espanhol mal-pago. Apertou os botões com força, mal enxergava os números que foram sendo apagados pelo tempo e pelos dedos e pelas doses. O sangue agora entrava indecente pelos lábios esbranquiçados.

– Pois não?

Não era voz de homem, era a voz de Julia. Meio desacordada, meio irritada, meio curiosa, e não havia tanto inteiro para haver tanta metade.

– Ju? Ju? Julia, me deixa entrar.

Não respondeu. Fernando ouviu o som do portão sendo destrancado, abriu-o depressa, fechou-o com brutalidade. Por algum motivo ele estava sempre com raiva, sempre com medo. Por algum motivo ele havia roubado uma bicicleta, e agora estava morrendo de vontade de roubar aquela voz sonolenta, de grudar sua boca ensanguentada na dela.

Foi subindo os degraus, eram tantos e ele nunca aprendera a contar. Não realmente, pelo menos. ‘Quem garante?’, ele dizia. Não queria dizer nada, embora as sobrancelhas se franzissem como se estivesse diante da questão fundamental da vida. ‘Você quer respostas, mas nem sabe qual a pergunta’, ele a ouviu gritar noutro dia. Julia gritava muita coisa, mas ele só prestava atenção naquilo que pudesse deixá-lo entretido mais tarde, quando não poderia tê-la. Talvez a coisa mais bonita que já a ouvira dizer fosse ‘plaquetas’.

– Ai. Meu. Deus.

Subiu o olhar vago – mas não muito, ela era pequena. Alcançou a expressão assustada, os dedos brancos e finos tapando a boca, quase como se com eles impedisse as palavras erradas de escapar.

– …Oi.

– Tem sangue saindo do seu nariz. E da sua boca.

Ele assentiu.

– É. Eu senti o gosto.

Julia se aproximou, colocando os braços magros por debaixo das axilas dele. Estava suado. Fedia bebida. Carregou-o para dentro do apartamento, que não cheirava a homem nem a cigarro, para o alívio de Fernando. Pela primeira vez naquele dia um sorriso largo apareceu, e os dentes ligeiramente tortos eram rubros como os cabelos dela.

– Você vai tomar um banho. E vai me explicar isso tudo. Onde dói?

Ele se sentou no sofá. Não queria sujar a mobília, nem empestar a casa com seu cheiro – mas a gente passa a vida querendo coisas, e metade delas nunca deixa de ser desejo. – A cabeça. E os joelhos.

Estavam ralados. Ele havia caído.

– Como aconteceu, dessa vez?

Ia contar do roubo, mas era complicado. Era complicado justamente por ser simples demais. ‘Sou um idiota, um bandido, um ladrão. Eu roubei. Eu caí. E depois me envolvi numa briga.’ Não tinha total controle sobre a língua, ou sobre sua própria língua, ou sobre qualquer coisa. Não queria explicar, não queria enfrentar aquele olhar azul que era doce como o céu primaveril, mas num piscar das pálpebras rodeadas de longos cílios se tornava impiedoso e atormentado. Ficou quieto. Chegou mais perto. Ela tinha cheiro de banho e de perdão – tinha cheiro de Julia.

– Eu vou cuidar disso. Espera ai.

Ele segurou a barra de sua saia, antes que se virasse e fosse embora. Seus dedos ficaram parados ali, hesitantes mas insistentes. Julia ficou de joelhos, no chão. Passou as mãos pelos cabelos dele, depois contornou com as unhas a barba mal-feita. Aquela história era cheia de meios e maus, e ele sabia que não conhecia o propósito, nem o fim. Pouco a pouco, seus rostos foram se aproximando, e o coração batendo mais rápido, e a culpa se desvanecendo, e as interrogações dando espaço para as reticências de um penúltimo capítulo. Pouco a pouco, o som de sua respiração foi entrando no ritmo conturbado da dela, e ele já não sabia dizer quem era quem. O sangue ainda escorria pelo rosto – era uma visão desprezível e nojenta. Julia podia dar o nome que quisesse – mas ainda seria amor.

8 de maio de 2012 § 2 Comentários

Eles estavam tão perto do céu que ela sentia como se pudesse agarrar um pedaço da nuvem que pairava por sobre suas cabeças e prová-la, caso ficasse na ponta dos pés e estendesse uma das mãos.

Então era verdade. Aquilo que diziam, sobre se rever toda a vida quando está prestes a morrer. Ela poderia morrer ali, naquele instante, de tanta felicidade. Não é justo, ela pensava. Não é justo eu estar tão feliz agora, enquanto há tanta gente triste por ai. Queria dividir sua felicidade com o mundo, de alguma maneira. Queria abrir a boca pintada de vermelho e gritar, lá de cima, para a cidade empoeirada que se confundia lá embaixo num emaranhado de cabeças e reflexões obscuras um pedacinho da música que cantarolava interiormente enquanto eles andavam até o prédio – mas ela não o fez, porque o silêncio que tardara a chegar estava agora num momento pleno, e qualquer ruído estragaria tudo.

Ficou parada, buscando o fundo dos olhos negros. O que se passava diante dela não eram as primeiras palavras, os primeiros gestos, o primeiro dia na escola ou as longas conversas com a mãe, nas quais ela dizia que não deveria andar com Gustavo. O que ela via era a tarde fria do fim de outono que passara junto dele, os dois andando de bicicleta, com os cachecóis esvoaçantes, reclamando dos pais. A noite de formatura em que dançaram mesmo quando não havia música, ele disse que ela estava linda e ela disse que era mentira – embora soubesse que não era. A primeira briga, e depois a segunda, e todas as outras que sempre terminavam com um longo telefonema, o pedido de desculpa e a respiração ofegante. Era tão fácil perder quando se tratava dele – perdia o fôlego, o ritmo, o controle e a distinção. Como se sua vida fosse apenas (mas isso era tanto) o que vivera com ele. Antes disso ela só dormia, uma espera infinita que tivera fim – e todo fim era começo, ela lhe deu a mão gelada e ele a segurou firme. “Se pra te ganhar eu tiver de perder todo o resto, eu perco“.

O vento soprou forte e ela chegou perto. Não gostava da forma como ele deixava o cabelo, comprido daquele jeito, mas não ia dizer nada, porque não tinha importância. Talvez um dia ela olhasse e até achasse gracioso. Até lá ia espiar com um meio sorriso no rosto, aquele olhar de desaprovação que ele adorava. Fazia de propósito, era a forma mais eficaz de chamar-lhe a atenção. Era engraçado porque ela sabia desde o início, desde o dia em que ele chegou com mala e cuia à casa ao lado, desde o dia em que colocou seus CDs criticados no aparelho de som e se tornou alvo dos comentários maldosos da mãe. Era tão previsível, como ela poderia não amá-lo? E de repente era óbvio e simples, os dois juntos, como devia ser. Se ele pudesse ao menos permanecer para sempre – ela gostaria de eternizá-lo, de dormir naquele instante para levá-lo consigo. Se ao menos ela fizesse nevar.

Balões coloriram o céu cinza. Seus olhos e seus braços estavam abertos, e estava tudo bem. A brisa secou-lhe o rosto. “Mas eu sabia desde o início“.

 

ps: ah, certo. Não tem ps. É que eu me acostumei…

ps2: tem sim. Essa música é bonita demais pra ter sido escrita por um mortal. Aposto que esse cara é um semideus disfarçado. Hm..

ps3: só me ignorem (:

que a sua maturidade te derrube do alto da árvore.

29 de março de 2012 § 5 Comentários

É que meu orgulho ferido geme toda vez que você passa sem olhar pra trás.

E eu continuo buscando culpados em vez de erguer a cabeça e encontrar saídas. Eu continuo bancando a idiota, jogando um jogo que você abandonou antes mesmo de começar. Como se meu coração fosse feito de papel, você escreveu nele seu nome, pichou em minha pele suas palavras sem nexo e pintou meus olhos com a cor do seu cabelo. Você se apagou, mas nunca por completo. Você me dobrou e me rasgou e tudo o que eu quero é ser o que você quer.

Eu passo e aperto o passo, eu desvio os olhos e me escondo, como se fosse a culpada de um crime que eu apenas pensei em cometer. Eu fico pelo avesso toda vez que você vem, toda vez que você não vem, meu espírito se contrai porque no fundo ele sabe o que eu não tenho coragem de admitir – ainda dói saber que você não se importa. E todo o drama, toda a fome, toda a vontade dormem comigo, substitutos de um corpo que nunca foi nem vai ser meu (mas não se trata do corpo, entende? Se trata de nós). Eu aprendi a olhar pra você e te ter como meu. Eu te batizei com outro nome, que é pra ter uma parte sua só minha, uma parte única e imutável, perfeita à sua maneira. Eu tive que subestimar a razão e fazer de conta que não ser notada é normal, quando cada pedaço do meu ser chora e grita, e berra e se rompe, por que você me esquece e some, por que você não cola em mim? Tô me sentindo muito sozinha, uma solidão que só sara com sua presença, um frio que é interno e não tem nada a ver com a aproximação do inverno – você me abandona no inferno, e eu queimo nas chamas geladas do que eu não vou (mas não vou mesmo) chamar de amor. Eu te chamo e você não chega, mas pra mim já chega, eu não te quero mais. É mentira, é mentira e você sabe, você sabe de tudo, não é? Então só pode ser de propósito, só pode ser brincadeira. Que bom deve ser pra você me assistir enquanto eu perco a lucidez.

(Mas eu ainda quero você, agora, e amanhã, e depois e depois e depois. Por que você não me gosta de volta?)

18 de março de 2012 § 2 Comentários

Eram quase cinco da tarde quando Luana resolveu que queria sair e comprar um pote de sorvete de banana.

Vestiu sua calça jeans apertada – aquela que provocava olhares indiscretos na rua -, seu all star vermelho que aumentava o tamanho dos pés em dois números e a camiseta decotada que enaltecia o tamanho pequeno e delicado dos seios. Prendeu os cabelos armados no alto da cabeça, usando um elástico de prender papel que provavelmente acabaria por detonar os fios descoloridos; ela não se importava, sentia calor demais para se preocupar com qualquer coisa além de chegar depressa à sorveteria.

Foi atravessando descuidadamente (como de costume, já que sua cabecinha amarrotada de pensamentos e insanidades parecia se desligar do mundo toda vez que tinha de lidar com o que existia do lado de fora) uma das ruas que o viu, com o cachorro, do outro lado da calçada. Ele? Ele. Não podia ser. Depois de tanto tempo, de tanto silêncio, de tanta barba crescendo por cima das feições rígidas e masculinas, não era possível que aquele homem feliz e tranquilo caminhando por sobre o asfalto quente da cidade fosse o seu (por que não usar pronomes possessivos? estamos falando de Luana, e ela gostava de possuir tudo aquilo que de certa forma também a possuía) homem. Seu Juliano. Seu Juliano branquelo e barbudo – tanto pelo na cara que quase não se notava a falta de melanina.

Não tinha jeito, não tinha dúvida. Estava mais velho – e Luana não pôde deixar de sentir-se feliz ao saber que o tempo não passara só para ela – , mais bem vestido, mais aprumado.  Talvez estivesse indo ao encontro de alguma namorada (e agora a palavra atravessava a mente de Luana como um carro corta a avenida em alta velocidade, deixando todos os outros veículos para atrás). Com o cachorro?, acho que não.  A sensação de alívio por descartar a possibilidade preencheu todo o corpinho juvenil da menina que já era mulher mas nem sempre aparentava ser. Mas que bobeira era essa em que estava pensando? Que diferença faria se ele estava ou não indo ao encontro de uma mulher, de uma namorada, de sua esposa, talvez? Diferença nenhuma. Havia se passado anos, convenhamos. As coisas não eram mais como antigamente, e nem ela gostaria que fossem. E por falar nela, tinha lá seus casos – a maioria mal resolvida, mas tinha – por que diabos iria se preocupar com relacionamentos alheios?

Mas não era de todo alheio, era? Juliano fora embora num dia de chuva grossa, dessas que mais assustam que acalantam – lembrava-se de vê-lo saindo pela porta da frente, gritando qualquer coisa que insinuava um adeus, mas não chegava a ser uma despedida propriamente dita. Qual foi o motivo da briga? Provavelmente a culpada era ela, ela que achava que estavam no meio de um relacionamento complexo e apaixonado, quando tudo que ele queria era alguém para emprestar o corpo quando sua alma ficava muito pesada. Homens.

No fundo sabia que nada era tão simples quanto gostaria que fosse, nem tão complicado quando imaginava ser. Juliano era só Juliano, e Luana era só Luana – um homem com ar revolucionário, que só queria saber de cigarros, festas e mulher, e uma mulher com ar de vocalista de banda adolescente, que só queria saber de revolucionários e de sorvete (e de dinheiro para colocar silicone, mas essa era outra história).

Então nada de reencontro apaixonado, beijo cinematográfico e chuva torrencial? Nada. Talvez um único aceno de cabeça resolvesse a questão, talvez não houvesse questão para resolver. O homem barbudo e branquelo olhou para o outro lado da rua, o sinal ainda estava fechado, a cara de Luana também – às vezes se esquecia da platéia e discutia consigo mesma com fervor, mais até que o indispensável. Ela preferiu sorrir com o olhar, ele sorriu de volta, só que com os dentes amarelados (pelo visto não abandonara os cigarros, nem pagara aquele tratamento dentário que ela lhe sugerira uma vez). Ah, o sorriso Juliano, o mundo agora era todo here comes the sun, dududu. Atravessou a rua, seguiu a caminho da sorveteria – porque era só essa a certeza que tinha na vida, a de um pote de doce gelado a lhe esperar veemente.

O resto da cena ela não viu, mas Juliano ficou ali estático com cara de bobo quando a moça da calça colada passou. Era ela, a menina-moça-mulher-idosa-de-mentalidade que corria tão leve pela avenida? Era ela, Luaninha. Luana, Luana, Luana. Lembrou da chuva grossa, dos gritos, do adeus que nunca foi de fato dado, das noites em que ela, tão magrinha e tão macia, mas tão dura de pensamentos, foi sua casa e seu céu e seu ar. O cachorro pareceu ler aquela cabeça coberta de cabelo negro e correu atrás dos cabelos armados – eles não ficavam tão bonitos vistos por trás, alguém devia dizer isso a ela. E tudo que ficou ali naquela avenida larga e tumultuada foi o destino, esperando pra ver no que aquela história antiga e agora recente um dia ia dar.

 

28 de dezembro de 2011 § Deixe um comentário

Amanda cambaleou até o carro, o vestido curto e vermelho levemente levantado, os sapatos de salto carregados pelas mãos brancas.  Bateu a porta com força – ela sabia o quanto Ismael detestava aquilo, e por isso o fez. Ao ver o lampejo de irritação nos olhos dele, sorriu.

Ismael esperou alguns segundos antes de entrar no carro. Com os dedos massageando nervosamente as sobrancelhas, respirou fundo e contou até dez, numa tentativa falha de se acalmar antes de enfrentar um percurso ao lado da esposa, que, como de costume, estava bêbada.

– Ei, querido – ela cantarolou pela janela do carona – não vai entrar? Já está tarde, é perigoso ficar ai, no meio da rua. Veja só, já são… São… – ela se confundiu tentando adivinhar as horas. Sempre tivera problemas com os ponteiros do relógio, e estar meio tonta só tornava a tarefa mais difícil – são nove… Não, calma… São onze, onze e meia? Espere, eu… Querido, entre! Eu não consigo ver as horas! Venha me ajudar, eu… Ai, porque você ainda está ai fora?

Amanda começou a gargalhar enquanto girava o relógio de pulso nas mãos, os olhos se apertando e os números se embaralhando dentro da cabeça dela. Ismael entrou no carro, tirou o relógio da esposa e guardou-o dentro do porta-luvas, depois fechou a porta violentamente, zangando-se com o barulho.

– Droga.

– Está bravo? – Amanda corria seus dedos frios pelos fios loiros do cabelo dele.

Ismael não respondeu, apenas ligou o carro e colocou o cinto de segurança, as mãos apertando o volante com força.

– Ismael? Não vai falar comigo? Ismael… Não faz assim, querido – ela beijava-lhe os cabelos, e depois a face, até que ele a afastou de si, um empurrão que a fez gargalhar. – Por que parece que estamos sempre brigando, querido?

– Porque estamos sempre brigando.

– Por quê? – ela se aproximou novamente, os dedos dançando pelas pernas dele, arranhando de leve a calça jeans desbotada. – Por que a gente não fica… Não fica bem? Por que a gente só não se diverte um pouco, hein? Pra variar…

Ele colocou as mãos sobre as dela, depois as carregou para longe de si, uma força maior do que a que seria necessária.

– Ei, pare com isso! Você me machucou, Ismael! Veja o que fez com meu pulso! – ela apontou o braço avermelhado para o marido, mostrando uma mancha de batom que percorria todo o caminho azulado de suas veias, os rios de sangue que se arrastavam pela pele pálida. – Espere… – ela aproximou o braço dos olhos, e, ao notar que aquilo era maquiagem começou a rir novamente – Ah, é só meu batom! Como isso aconteceu? Minha maquiagem… Está borrada, querido? Estou bonita? Me diga que estou bonita, diga. Estou?

– Você está bêbada.

Ela franziu o cenho, depois se encolheu no banco e virou-se para a janela. Do lado de fora do carro a noite escura parecia querer engolir os dois. Talvez fosse melhor, ela pensou. Poupar-me dessa discussão, de outra discussão. Seria o quê? A quarta briga na noite? Primeiro por causa do vestido curto, depois o comportamento ‘impróprio’ no bar, a risada escandalosa, a forma como sorria para o garçom, o vestido curto, a freqüência com que ia ao banheiro, o vestido curto… Como se Amanda nunca fizesse nada certo, como se quem ela era fosse motivo o bastante para que ele ficasse zangado. E agora eles iriam para casa, Ismael gritando duras verdades modificadas na cara dela, molhada de lágrimas e manchada de rímel. Tudo bem. Ela estava bêbada. Aquilo tudo seria apenas outra dor de cabeça na manhã seguinte, e ao anoitecer ela faria aquilo outra vez. Ismael interpretaria seu papel, o marido injustiçado, o casal turbulento, mas, apesar de tudo, feliz. Feliz. Era feliz. Era feliz? Às vezes Amanda cometia o grave erro de se fazer a pergunta. Não acontecia com freqüência, só muito de vez em quando, antes de sair para mais um de seus jantares. Olhava-se no espelho, orgulhosa do belo corpo que tinha, envolto em um de seus vestidos curtos e provocantes, a maquiagem carregada, o cabelo penteado. Era jovem, tinha de estar bonita, arrumada. As pessoas reparavam. E, quando a viam com seu marido, que tinha o dobro de sua idade, deviam pensar na sorte que ele tinha de ter se casado com ela. E ela pensava em sua própria sorte. E na felicidade. Um dia alguém lhe disse que a gente não nasceu para ser feliz. Felicidade, para quê felicidade? Pode-se viver bem sem ela. A questão não é essa, pensou. Não sabia se havia questão, e, se havia, qual era. Mas não importava. A questão não era aquela.

– Honestamente, Amanda, não sei por que faz isso comigo. O que você quer agindo assim? Me envergonhar? É isso? Por isso se comporta desse jeito?

– Você fala como se eu fosse sua filha.

– Talvez seja assim que eu te veja quando estou com você, e você age desse jeito.  Como se eu fosse seu pai, e você uma adolescente rebelde, sem nenhum senso, sem nenhuma noção do que é certo e errado. Honestamente…

Amanda ficou quieta. Observou Ismael gritando, o rosto vermelho, as sobrancelhas grossas se unindo sobre os olhos que se apertavam, ele se esforçava para não chorar. As lágrimas começavam a escorrer pelo rosto envelhecido,  uma das mãos trêmulas enxugou a face enquanto a outra conduzia o carro. Nunca lhe disse, mas às vezes também tinha a impressão de que aquele, no banco do motorista, era seu pai, e não seu marido.

Ela tirou um cigarro do maço que estava jogado debaixo do banco, aquele que ela guardava para ‘emergências’. Tinha prometido a si mesma e ao marido que não voltaria a fumar, mas eram tantas promessas, ela nem se lembrava mais. Só queria que as coisas voltassem a ser como antes, quando estar ao lado de Ismael era uma diversão, e não uma obrigação. Quando a noite terminava em beijos e risos, e não em lágrimas e gritos. Pensou em pedir desculpas. Não sabia exatamente pelo quê – pedir perdão por estar embriagada? Parecia ridiculo, e de fato seria. Pedir perdão por não conseguir mais estar ao lado dele sem antes ter bebido, até não entender uma palavra do que ele dizia? A culpa nem era dela, o que podia fazer se o marido havia se tornado maçante? Ou então podia pegar suas coisas e ir embora. Fugir para a casa do pai, ou passar a noite em um hotel, até decidir onde ficar. Poderia ir para a casa de algum amigo, ou esperar até que amanhecesse em um bar, na companhia de algum homem mais divertido que Ismael. Algum cara legal que lhe pagasse o café da manhã. Depois veria o que fazer, não tinha muita importância, afinal de contas. Qualquer programa era melhor que dormir ao lado do marido naquela noite, ouvindo-o lamentar por mais um erro cometido. “Por que está sempre agindo como uma adolescente, Amanda?”.

A cabeça doía, e o mundo ao seu redor girava enquanto o carro andava depressa. Tinha começado a chover, Amanda sentia os pingos gelados entrando pela janela aberta enquanto a fumaça do cigarro embaçava o céu estrelado, as ruas silenciosas e molhadas. Talvez devesse descer ali mesmo, voltar para o restaurante onde haviam jantado. Talvez devesse pedir para o marido parar o carro. Ismael… Ainda chorava? Agora estava em prantos, Amanda detestava aquilo, detestava ver um homem chorar. Fraco. Idiota e fraco. Idiota, fraco e babaca.  Nunca sentira tanta repulsa por ele como naquele momento, queria ir embora dali, queria estar longe de Ismael. Estavam correndo demais, sentia o vento bater no seu rosto com força, quase como se a vida estivesse lhe dando tapas. Ismael chorava mais alto, e gritava. Ela não entendia o quê, não entendia o por quê. “Mas que droga, Ismael, vá com cuidado!”

Ele não ouviu. Ou ouviu, e, por isso, acelerou. Estava com raiva, raiva de sí próprio, raiva de Amanda. Amanda. Tão nova, bonita. Tão arrumada, tão provocante. Amanda. Amanda e seus amigos, aqueles rapazes. A forma como olhavam para ela, a forma como todos comentavam. Era tão óbvio, estava fazendo papel de bobo. Amanda, acha que sou idiota? Ele acelerou ainda mais, o carro deslizando na estrada encharcada.

As árvores passavam como vultos do lado de fora da janela, o vento frio, a chuva estava ficando mais forte. Amanda sentia o carro correr cada vez mais depressa.

Apertou a coxa de Ismael, “Ismael, quer nos matar? Vá mais devagar! Preste atenção! Ismael!”

“Ismael! Isma…”

Onde estou?

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