the last time

16 de maio de 2014 § 5 Comentários

Foi amor à primeira nota.

Olhou para o palco, enfeitiçada. A palavra era essa, por mais antiquada e clichê e rickerenneriana que soasse. Completamente enfeitiçada. Tá certo que as duas taças de álcool consumidas às pressas contribuíram para o desnorteamento da moça, que perdera o chão, o ar e os óculos. Mas mesmo com a vista embaçada e com os cílios poluídos, cobertos de rímel, turvando ainda mais a imagem mal iluminada, ela seria capaz de detalhar para as amigas o desenho do rosto dele (como faria, horas mais tarde, pelo telefone). ‘Dele’ leia-se: do dono daquela voz. E que voz. E que repertório. E que sobrancelhas. Da mesa em que estava, que apesar de perto parecia agora estar demasiado longe, podia observar com clareza (ou o mais próximo disso que uma quase bêbada um tanto lúdica e embriagada de rancor podia chegar) o movimento leve que as duas linhas grosseiras e escuras faziam, subindo e descendo ao som da música.

Evidências.

Cantar sertanejo romântico em uma sexta à noite num karaokê pouco frequentado era golpe baixo. E justo na noite em que ela decidira usar seu vestido preto. E beber mais do que estava habituada. E passar rímel azul nos olhos, e se deixar comover, e se lembrar dele. ‘Dele’ leia-se: do dono de um outro par de sobrancelhas, quase unidas em prol de fazer o coração de qualquer adolescente sonhadora se despedaçar. Da última vez que o vira ele trocou os lábios pelas bochechas – um beijo doce mas tão breve, ou talvez, por ser breve, tão doce. Seus olhos se encontraram e a cena foi sucinta: – até outra hora…

Caminharam em direções opostas, porque a vida é feita de desencontros.

Seu nome era Luciano. Tinha um sobrenome comum, desses que você encontra em sete a cada dez pessoas. Souza, Santos, Gomes… Lopes? Talvez fosse Maciel, ela já não se lembrava. Vinha do Rio e falava arrastado, fazendo biquinho, um sorrisinho besta surgindo no canto dos lábios. Tinha os olhos estreitos, pequeninos e infantis. Tão escuros que as íris quase se fundiam às pupilas, pareciam olhos de cavalo, meio tristes, meio arredios. Como se estivesse sempre arrependido – um pedido de desculpa a cada piscadela. Gostava de cruzar os braços enquanto falava, de coçar o lóbulo da orelha enquanto dava risada. O lóbulo quase que completamente preenchido pelo brinco brilhante. Ela detestava o brinco. Uma vez quase o arrancou – ela pensou em usar os dentes, mas seria erótico demais. Acabou optando pelas unhas compridas e pintadas de preto, que era pra combinar com o luto em que se afundara desde a morte de sua sensatez, quando passou a gostar de cariocas exxxnobes que iam longe demais com as mãos. E que mãos.

A essa altura não sabia se pensava no moço do palco ou no moço do passado, ou se ambos eram a mesma pessoa. Também não se lembrava tão bem da cena final. Era como um desenho a ser colorido: simples a princípio, e cada vez mais bonito e elaborado conforme ela o pintava com trilhas sonoras e alterações discretas nas falas e no figurino. A única certeza era que ele havia partido, partindo também o brinquedo de corda que ela guardava no lado esquerdo do peito, junto dos amigos.

(Mas o último beijo não havia sido na boca? Urgente, pesado, impreciso. Molhado pela chuva, repleto de saliva e lágrima. Sacudiu a cabeça, esfregou os olhos. Sabia que estava reinventando. Era fim de janeiro, calor insuportável, e há meses não chovia. O moço do Rio de Janeiro continuava lindo.)

Voltou a acompanhar com os olhinhos curiosos, cada vez mais vermelhos graças ao sono, o rapaz que cantava. Agora estava no fim da segunda música, e essa ela não conhecia. Mas era bonita. E como não seria? Com uma voz daquelas ele poderia recitar palavrões se quisesse, que pareceriam poesia.

E a taça sendo entornada.

Quando se viram pela primeira vez o bêbado era ele. Camisa social machada de vinho, óculos de grau pousados sobre o nariz achatado, braços cruzados – porque era sempre ele quem falava – e queixo erguido, sinal do orgulho de ser. Ser carioca? Ser jovem? Ser corajoso? Ser carismático? Tinha orgulho de estar vivo, de desbravar o mundo, de olhar para a mulher que quisesse e consegui-la com o franzir das sobrancelhas. Elas estavam pesadas, diminuindo ainda mais o tamanho dos olhos. Olhou para ela e gostou do que viu: a camiseta de banda. Se ela gostava de Kiss? Nem um pouco. Se mentiu até o fim do quase relacionamento? Com certeza. Não era tão difícil, decorava os nomes das músicas e dava pause sempre que ele roubava os fones de ouvido. Ele nunca soube das verdadeiras intenções dela – ouvir a trilha sonora de Shrek enquanto ele ia para o trabalho, desembrulhar os cds de Alanis Morissette enquanto ele tomava banho, só para admirar e depois esconder tudo de novo, nenhuma suspeita do crime perfeito. Porque não importava o que ouvia, se o som predileto era o da voz dele. Não importava o que lia, se o texto predileto eram as entrelinhas do que ficava entre o dito e o não dito, as linhas de expressão no rosto, as manchinhas nas costas da mão – tudo no diminutivo, só por causa do olhar pueril. Mas de todas as cicatrizes do corpo, de todas as formas da silhueta, de todas as palavras, honestas ou falsas, de todos os cabelos do peito deixados nos lençóis, o detalhe predileto nem chegava a ser um detalhe. Gostava de quando ele revirava os olhos depois de uma sentença absurda dela. Quando ria e jogava a cabeça para trás, porque ela era inteira absurda. E depois, tão distraído e rápido que o ato vinha como havia sido concedido, sem planejamento ou avaliação, aproximava os dedos dos cabelos dela. Não para colocar atrás da orelha, como nos filmes. Só pousava a mão ali, e deixava ficar. Sem subentender nada, sem esperar continuação. Apenas o gesto de pousar a mão.

(Foi assim que ele a deixou: dormindo tranquila no sofá do apartamento dela. Fingindo que dormia, na realidade. Ela podia ter se levantado para questionar, argumentar, protestar. Mas não faria sentido, não surtiria efeito. Luciano insira-aqui-um-sobrenome-comum era um desses homens de ombros largos e olhos estreitos, palavras duras e coração mole. Se ficasse tempo demais criaria raízes, e criar raízes é sintoma de amor, é sinal de deixar-se tocar e comover. Imagine, um homem tão orgulhoso de ser. Chegou bem perto, com aquele perfume forte que dava dor de cabeça, mas tão gostoso que ela suportava e ainda pedia que usasse. Chegou bem perto e pensou num beijo. Mas só pensou. Colocou os dedos longos e enrugados, graças ao banho recém-tomado, no topo da cabeça dela, os cabelos bagunçados graças ao sono e à turbulência dos pensamentos. Não moveu a mão, não fez carinho, não colocou a mecha por trás da orelha. Só deixou os dedos ali, por alguns segundos. Dessa vez não teve risada e não era ela a absurda. A única coisa absurda que havia ali, como ele pode constatar assim que deixou o lugar, era a vontade louca de ficar. Enxugou o rosto – suor e lágrima – com as costas da mão. Sabia que estava reinventando. Mas e daí? Não havia ninguém para desmentir, nenhum fato para comprovar. Eram apenas ela, a garrafa de vinho e o rapaz comovente do palco. Apenas eles e a sensação de frescor e dormência que sextas-feiras traziam.)

Levantou-se da mesa, puxando o vestido para baixo, na tentativa de aumentar o decote. Olhou em direção ao palco, e teve a sensação de ser olhada de volta. O cantor estava já na última música – uma canção espanhola, de despedida. Acenou com a cabeça. Sabia que ele também estava apaixonado por ela.

Ele só via os olhos borrados de rímel, a cena deprimente da moça jovem tropeçando nos sapatos sem salto. Sentiu pena. Queria oferecer ajuda, ligar para os pais, secar-lhe o rosto todo sujo e molhado. Mas já era tarde, porque ela atravessava a porta do estabelecimento. Já era tarde, porque era a canção espanhola da despedida. Já era tarde, porque era, de fato, tarde.

E o Rio de Janeiro continuava lindo.

 

ps: sutileza define.

Anúncios

Marcado:

§ 5 Respostas para the last time

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

O que é isso?

Você está lendo no momento the last time no o segundo sol.

Meta

%d blogueiros gostam disto: