mais uma de amor – e se amanhã não for nada disso, caberá só a mim esquecer

5 de junho de 2012 § 2 Comentários

Mas eu gosto de todas as pequenas coisas a seu respeito, todas aquelas pelas quais você se crucifica e lamenta.

A cor indefinida dos olhos. O sorriso largo e sarcástico, que escapa sem consentimento, sai disperso e satisfeito, a gargalhada que se segue, tão liberta e tão tímida. A voz envelhecida, quase tanto quanto o rosto. Cada linha que se ramifica, cada desalinho das sobrancelhas grossas, o ângulo perfeito do nariz, as costas largas, as mãos sujas de tinta. Os dedos e as unhas, e os pulsos. Os pulsos. O pescoço. Você flui como música, soa como poesia. Rude feito bicho, uma delicadeza forçada que não convence – cada passo um sacrifício, mesmo harmonioso segue pesado, o mundo erguido por sobre os ombros másculos. Eu não mudaria nada. Cada palavra toca tão fundo, como um tiro em direção ao peito. Não sou à prova de balas, tenho ódio de exclamações e medo dos pronomes pessoais. Mas só um pouco. Você me faz perder os medos, e eu tenho tanto medo de te perder. Tudo contraditório, só não me deixe ser, não me deixe ver, porque o mundo faz mais sentido quando a gente não entende, entende? Eu gosto mesmo é do seu gosto musical. Gosto mesmo é dos olhos – mas eu já disse isso. Quatrocentas e quarenta e sete vezes, em silêncio. Gosto de chaves e gosto de Elvis.

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ou um cálculo matemático

29 de maio de 2012 § 3 Comentários

A borboleta pousou no parapeito da janela e permaneceu ali, exposta ao sol, quase como se, concentrada do jeito que estava, fizesse uma oração, ou um cálculo matemático.

“Senhor Deus das borboletas” – ou seria das mariposas? Ou seria o mesmo Deus de sempre, aquele senhor simpático de barba branca que corre por entre as constelações vestindo seus chinelos de dedo? – , ela diria. Mas é claro como água intocada por humanos que Pietra não entenderia, mesmo que falasse a língua dos homens e a língua dos anjos porque, bom… ela não sabia em que língua falavam as borboletas/mariposas. E antes que pudesse tentar algo em inglês ou espanhol, a coisinha voadora finalizou a prece ou o cálculo, ou sabe-se lá o quê, e foi embora. Provavelmente era uma mariposa. Borboletas nunca iriam sem antes se despedir.

Eriberto volveu o olhar cor de oceano nada pacífico em direção a Pietra, ele tinha cheiro de cigarros e creme de barbear. E de batatas. Em algum lugar, lá no fundo… batatas. Ela estendeu a mão e deixou que os dedos dele pousassem, leves e concentrados, como a mariposa que um dia fora borboleta, na palma alva e molhada, dançando por sobre as linhas que se ramificavam na pele. O mundo acaba hoje e eu estarei dançando… Talvez ela devesse dizer. Aquilo, duas palavras, oito letras. Talvez ela devesse se aproximar e aspirar, e sentir no rosto pálido a barba mal-aparada. Ele ficava tão bonito de barba. E sem barba. E de olhos abertos, e de olhos fechados, e sorrindo seu sorriso torto e sorrindo seu sorriso reto, e mudo e falante, e quieto, calado e gritando e cantando e sério. Ele era tão tímido que ela quase não acreditava. Tímido e tagarela, como pode? Não sabia como se sentir diante dele, diante de toda aquela complexidade tão simples. Diante de todo o paradoxo que ele era.

“Mas era uma mariposa ou uma borboleta?”

Ele riu. Baforou no ar: “Ma. Ri. Po. Sa. Mariposa. Mari, pousa.” Sim, sim, marido e esposa, ele já tinha desmembrado a palavra antes. Eriberto estava sempre se esquecendo das coisas. Talvez por isso ainda não se cansara dela.

“Mariposa, em espanhol, quer dizer borboleta”, ele disse, com seu sotaque carregado. Mas que contraditório. Então ela era os dois, de qualquer maneira. Borboleta, mariposa… aqui um bicho, lá nos campos argentinos outro. “La lengua de las mariposas…”, sussurrou.

La lengua de las mariposas. “Dejáme ver seu futuro”, ele disse. Pietra nunca entedia o que ele queria dizer, aquela mistura louca de línguas, aquele movimento louco da língua, o acento espanhol fortíssimo e o português ainda em construção confuso. Olhava para os dedos brancos e suados. Pietra ficava nervosa quando ele chegava perto, talvez fosse o cheiro de batata. Arranhou-a de leve, tão delicado ele, sem nem querer ser. Uma delicadeza máscula, uma força desajeitada e ao mesmo tempo cuidadosa, como se soubesse que toda a sua experiência e toda a sua maturidade poderiam quebrá-la em duas se ele se desatentasse. Ela recolheu a mão. Não. Não deixo. “Deixa que eu vejo o seu”.

“Pero es lo mismo, Pietra. Es lo mismo.”

Permaneceu estática. Por que ela só entendia metade do que ele falava? (Porque a dúvida é o preço da pureza e é inútil ter certeza e eu vejo as placas dizendo não corra, não morra, não fume… eu vejo as placas cortando o horizonte, elas parecem facas de dois gumes) Porque seu português era indecente e seu espanhol muito trabalhoso. Ou talvez ela preferisse assim, fazer-se de desentendida pra não ter que concordar. Es lo mismo.

“Me diz alguma coisa em espanhol? Qualquer coisa. Mas uma coisa bonita.”

Eriberto sorriu, dessa vez tortamente. Era um sorriso de Michael Fassbender, todo largo e infinito, um ar sarcástico e peralta. Ela se derreteu, mas só um pouquinho. Ele lambeu os lábios, meio ressecados por causa do frio. “Añoranza.

Añoranza. Recitou a palavra, deliciando o som do ‘nho’, mastigando bem a pronúncia do ‘ssa’. ‘Sssssa’. O que é?

Ele se aproximou. Estava apoiado sobre uma das mãos, as veias do braço direito coberto de sardas agora mais aparentes, as pintinhas claras formando um caminho secreto para debaixo de suas roupas. O cheiro do cigarro cada vez mais alto, o cheiro do creme de barbear, o cheiro de Eriberto (añoranza). Devagarzinho, encostou o nariz de estatueta grega na bochecha corada dela, que instantaneamente se incendiou. Pousou (porque a vida era mesmo feita de pousos) silenciosamente os lábios finos na borda da orelha. “Ssssaudade, Pietra. Significa (o ‘g’ desaparecendo no meio do ‘n’ guloso) saudade”.

 

ps1: qual é a palavra mais bonita do idioma espanhol?

ps2: eu sei gostar de Pietra. E de Eriberto.

ps3: não importa o que vocês digam, eu finalmente o transformei num texto.

ps4: certo, eu já tinha feito isso.

ps5: fim.

1 de abril de 2012 § 2 Comentários

Vamos fazer um trato? Eu te gosto bastante e você me gosta de volta.

Eu te gravo fitas k7’s do Elvis e você me vem com seus CDs do The Cure, The Strokes e companhia, todas aquelas bandas de rock que vão me fazer esquecer Engenheiros depressinha.

Eu te faço discursos demorados sobre clássicos literários, você narra as partidas de futebol por cima da voz do comentarista, grita e canta quando seu time faz gol e xinga o adversário com todos aqueles palavrões que eu não conheço e você faz questão de me ensinar (mas não me permite usar). Tudo isso num domingo bem largo e chuvoso, a gente só de pijama folgado deitado no sofá da sala, as pernas uma por cima da outra, os braços entrelaçados e os rostos colados, o cheirinho bom de gente que só quem é amado tem. Você me ensina as frases mais obscenas em alemão, eu te explico minhas teorias espirituais absurdas, a gente dá as mãos e vai junto pra Igreja de manhã, ouve o padre e reza quieto, sem saber direito se aquilo faz sentido ou não. Você tira fotos espontâneas, eu vou lá e deleto tudo. Eu escrevo textos bobos, você vai lá e lê tudo. Eu mexo nas suas coisas, tiro os cadernos do lugar, você só ri e arruma de novo, porque no fundo é mais metódico que eu. A gente pede pizza porque uma vida saudável não compensa, mas compensa tudo na academia porque nossos rostos não são tão bonitos pra não precisar de um corpo que faça valer a pena. Eu acho sua barba mal feita um charme, você gosta do meu cabelo bagunçado – ou mente, só pra me fazer feliz. Eu fico feliz. Simples assim, perfeito assim. Eu tocando violão, você rabiscando as paredes feito criança. Eu vendo novela, você lendo a sessão de política no jornal. Eu te corrigindo gramaticalmente, você refazendo as contas porque eu sou impossível com números, a gente sabe. Quando chega a noite eu reclamo da vida, você me lembra o porque de’u ainda insistir nela, e nós dois dormimos feito pedra no carpete. Mas feito pedras felizes.

que a sua maturidade te derrube do alto da árvore.

29 de março de 2012 § 5 Comentários

É que meu orgulho ferido geme toda vez que você passa sem olhar pra trás.

E eu continuo buscando culpados em vez de erguer a cabeça e encontrar saídas. Eu continuo bancando a idiota, jogando um jogo que você abandonou antes mesmo de começar. Como se meu coração fosse feito de papel, você escreveu nele seu nome, pichou em minha pele suas palavras sem nexo e pintou meus olhos com a cor do seu cabelo. Você se apagou, mas nunca por completo. Você me dobrou e me rasgou e tudo o que eu quero é ser o que você quer.

Eu passo e aperto o passo, eu desvio os olhos e me escondo, como se fosse a culpada de um crime que eu apenas pensei em cometer. Eu fico pelo avesso toda vez que você vem, toda vez que você não vem, meu espírito se contrai porque no fundo ele sabe o que eu não tenho coragem de admitir – ainda dói saber que você não se importa. E todo o drama, toda a fome, toda a vontade dormem comigo, substitutos de um corpo que nunca foi nem vai ser meu (mas não se trata do corpo, entende? Se trata de nós). Eu aprendi a olhar pra você e te ter como meu. Eu te batizei com outro nome, que é pra ter uma parte sua só minha, uma parte única e imutável, perfeita à sua maneira. Eu tive que subestimar a razão e fazer de conta que não ser notada é normal, quando cada pedaço do meu ser chora e grita, e berra e se rompe, por que você me esquece e some, por que você não cola em mim? Tô me sentindo muito sozinha, uma solidão que só sara com sua presença, um frio que é interno e não tem nada a ver com a aproximação do inverno – você me abandona no inferno, e eu queimo nas chamas geladas do que eu não vou (mas não vou mesmo) chamar de amor. Eu te chamo e você não chega, mas pra mim já chega, eu não te quero mais. É mentira, é mentira e você sabe, você sabe de tudo, não é? Então só pode ser de propósito, só pode ser brincadeira. Que bom deve ser pra você me assistir enquanto eu perco a lucidez.

(Mas eu ainda quero você, agora, e amanhã, e depois e depois e depois. Por que você não me gosta de volta?)

19 de março de 2012 § 1 comentário

balões coloriram o céu azul daquela manhã – ela sabia que, em algum lugar naquela cidade cheia de gente e barulho, ele olhava para cima e sorria, lembrando-se dela.

entre a minha boca e a tua há tanto tempo, há tantos planos

23 de fevereiro de 2012 § Deixe um comentário

É que por muito tempo me limitei a te olhar e fingir que não me importava, te criticar pelas costas (só pelas suas, costas largas e gigantescas, as muralhas brancas que me impediam de ver o sol, porque para os outros eu falava olhando nos olhos, a expressão se contorcendo conforme eu me recordava dos fatos), praguejar enquanto você infestava os corredores com suas ‘laranjidades’ habituais e desejar que uma casca de banana misteriosamente cruzasse seu caminho, essa sua carinha pálida se estatelando no chão. Mas agora eu vou cravar meus olhos caídos e chorosos nos seus, esses globos marrons emoldurados pelos cílios cor de manhã. Agora eu quero estar de pé, diante de toda sua autossuficiência, e ver até onde seu tamanho te ergue, Golias. Agora somos nós dois, sem boatos, sem mentiras, sem deduções. Jogo limpo, cartas na mesa, roupas sujas penduradas no varal, sua língua envenenada saltando pra fora da boca que de repente não me atrai mais. Agora sou só eu e minha coragem, nada de segundas intenções, nada de estratégias, vamos nos sentar aqui e admirar a verdade enquanto essa se alastra pelas nossas veias. Eu não te amo mais.

(P.S.: Mas, se você me quiser de volta, ou pra uma meia-volta, quem sabe, sou do tipo que perdoa e esquece.)

8 de fevereiro de 2012 § Deixe um comentário

Ontem te vi passar perto de casa, e de repente aquele buraco no peito se abriu, quase como se seus olhos escuros o estivessem cavando conforme me tragavam, eu, navegante de primeira viagem, pra dentro desses fossos escuros e assombrados. Respirei fundo, pensei em apenas passar diante de ti, seguir meu caminho, minha própria correnteza, minha vidinha pacata de compras em hortifrútis e idas ao sebo nos fins de semana. Mas a verdade é que esse tipo de coisa, esse tipo de olhos, esse tipo de corpo e de sorriso não se confunde com a paisagem tão facilmente, e eu tive que pensar em sentir saudades suas. Parei por um instante, refleti sobre o assunto. Sentir sua falta implicava em passar noites em claro, escrever textos melodramáticos e imaginar que todo personagem romântico e apaixonável de um livro Jane Austeniano é ruivo. Implicava em falar seu nome pelo menos uma vez a cada doze frases, imaginar seu rosto no meio das equações matemáticas e suspirar a cada trinta minutos, mais ou menos, seguindo com um típico ‘ai, ai’  enamorado.

Não valia a pena, mas eu já não tinha escolha. Seus olhos tropicais me encontraram, e, como de costume, você demorou um pouco para sorrir. Talvez não tenha me reconhecido logo de cara, ou simplesmente estivesse pesando os dois lados da coisa, como eu. De um jeito ou de outro, o sorriso veio, todo amarelo, todo torto, todo bonito, todo você. Entendi porque tanta reflexão, era esse sorriso que eu queria evitar, o sorriso mais feio e mais lindo do mundo, ao mesmo tempo. O sorriso que fazia meu coração acelerar e quase parar, ao mesmo tempo. O sorriso que me fazia querer correr para longe de ti, e para seus braços, ao mesmo tempo. Tudo, tudo ao mesmo tempo, que quando se trata de você não tem isso de passo a passo, é tudo de uma vez. Todo o ódio, todo o amor, todo o ímpeto, todo o remorso.

Quase que atravessei a rua e me atirei em direção ao seu peito, minha vontade era de me encolher ali e morar dentro do seu casaco marrom para sempre. Só que aquela coisinha irritante de voz afeminada surgiu, me fazendo mudar os planos, me fazendo perder a coragem, o impulso, a linha de pensamento. Aquela coisinha irritante que te acompanha de um lado para o outro, sua noiva, namorada, duende, sei lá o quê. Saiu de dentro da padaria, o sorriso quase que não cabendo nos lábios pintados de vermelho. Entendi o porquê daquela felicidade, algumas pessoas a chamam pelo seu nome, sabia? Te deu o braço, encostou a cabeça cabeluda no seu ombro largo, e os dois saíram andando, ela com sua bolsa cruzando o peito, uma sacolinha engordurada pendendo de uma das mãos, o vento batendo na cara branca que você tanto ama e beija.

Você nem se virou para acenar, dizer um adeus, ou gritar rua afora que ama. Suas pernas cheias de cicatrizes foram apertando o passo, a barba mal feita poluindo todo o rosto cheio de rugas de expressão que ainda vêm me atormentar os sonhos.

Dei meia volta, sorri para o dia azul que se estendia diante de mim. Ia voltar para casa, tomar um banho, tirar você da minha cabeça. Ou pelo menos fingir que tinha essa pretensão.

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