5 de agosto de 2012 § 4 Comentários

Ela poderia ser feliz, e ele nem saberia.

Sussurrou um adeus e foi embora, deixando as marcas de seus pezinhos molhados no chão, as lágrimas nos lençóis, a mancha de batom na borda copo. E por um instante ele desejou nunca tê-la conhecido. Desejou que todos os momentos bons fossem apagados, levados embora com a água que lhe descia dos olhos. Desejou que ela nunca tivesse cruzado seu caminho, que nunca tivesse lhe apresentado seu sorriso, que nunca tivesse invadido sua casa, sua cama, seu peito, seu coração.

(verme)

24 de junho de 2012 § 10 Comentários

“Você sabe que gosta de alguém quando sua música preferida é também a que você mais detesta.”

Fechou os olhos e apertou o botão. De repente ela estava lá de novo, no mesmo quarto, na mesma cama. De repente eles tinham apenas dezoito.

– Ulisses?

Ela se virou. Os olhos embaçados e a maquiagem borrada, os cabelos desalinhados presos numa trança frouxa. Os lábios estavam pintados de roxo, não sabia se pelo vinho ou se pelo frio – ou talvez fossem as amoras. Uma vez ela disse que gostava do nome, mesmo sendo nome de homem. Ou era por isso mesmo que gostava? Disse que a deixava mais forte, como se carregasse consigo a história do herói. Paolo ficou quieto, nunca sabia o que dizer quando Ulisses abanava os cílios daquele jeito. Era estranho pensar em toda aquela feminilidade revestida por um substantivo masculino. Ulisses. Os dentes ligeiramente tortos. Ulisses. Os dedos pequenos e gorduchos, a mão branca e miúda como a de uma criança. Segurou-a por entre os dedos quentes. Estava frio lá fora, mas era ainda mais gelado do lado de dentro – mesmo com todas as cobertas, com todas as roupas, ele ainda sentia uma camada espessa de gelo se formando, quase como se a neve caísse por sobre os corpos magros. Bebeu um gole de vinho. Ele não gostava de beber – não como Ulisses. Ela estava bêbada a maior parte do tempo, o que o fazia considerar a hipótese de que talvez (e apenas talvez) ele fosse chato demais com toda aquela conversinha fiada, aquela história de mitologia grega e escolas literárias e tudo mais. Não convencia. Mas Ulisses continuava ali, com as pálpebras semi-cerradas e o sorriso lânguido nos lábios rachados.

Fixou o olhar pacífico e ébrio naquela mancha em formato de lua que ela tinha no ombro esquerdo. Primeiro assoprou, como se dela brotasse uma chama ardente. Depois beijou. Ulisses se mexeu, e Paolo não sabia se ela estava realmente acordada, ou se era só um sonho ruim.

– Mas quando todo mundo tiver ido embora – ele sussurrou, pertinho do ouvido dela – você ainda vai ser minha, Ulisses?

Tudo o que ele escutou foi um ‘uhum’ abafado, sua boca estava agora prensada no travesseiro babado. Ulisses conseguia ser extremamente atraente e nojenta, ao mesmo tempo. – Você vai ficar? Vai me esperar?

Ulisses abanou a cabeça. Sorriu. Deu um tapa no braço peludo dele e virou o corpo magrelo para o outro lado. “Pra sempre, e tudo mais que você quiser, querido. ”

Paolo detestava ser chamado de querido. Desvencilhou-se dos dedos dela, deu uma última olhada no corpo desvanecido e saltou para fora da cama, em direção ao banheiro do apartamento apertado. Aquele lugar fedia cigarro.

Se ela não fosse tão bonita… parou na frente do espelho de moldura de plástico, molhou as mãos sujas e penteou os cabelos. No fundo ele sabia que ela não era mesmo tão bonita – nem nada perto disso. Mas era mulher. Tinha nome de homem. Cheirava feito animal e fazia seu coração bater depressa feito ninguém. Ela também falava alemão. Que palavra era aquela, que ela gritou pra ele outro dia no metrô? Devia ser palavrão. Ela disse que ia ficar, para sempre e mais o que ele quisesse. E foi naquele momento que ele soube que a tinha perdido.

– Com licença?

Tirou os fones de ouvido.

– Será que eu posso usar, moço?

Paolo fez que sim com a cabeça. – Claro. Desculpe.

Pegou o CD  e caminhou em direção ao caixa. A funcionária sorriu, tinha uns dentes brancos que eram quase inacreditáveis. – Gosta de Radiohead?

Coçou a nuca, ajeitou o cachecol. – Na verdade… Odeio.

outono em nova york (ou é em porto alegre?)

17 de maio de 2012 § 2 Comentários

Liza desce as escadas depressa, os pés descalços e molhados deixando o rastro de água pelos degraus de granito, os dedos se arrastando pelo corre-mão, produzindo pegadas de suor contorcidas, linhas se entrelaçando e dançando descompassadamente.

– Eu atendo! – ela grita para o vazio. Está sozinha em casa, como de costume. A mãe gosta de sair para ‘espairecer’, dar suas voltas, provocar suas revoltas, e mesmo assim anuncia seus atos em voz alta.

Tira o telefone do gancho: – Pois não?

Tudo permanece quieto, a não ser pelo som de sua respiração ofegante. – Alô? – Ela insiste. Nada.

Está prestes a desligar, mas antes de tirar o telefone da orelha a voz que está do outro lado responde.

– Quem fala?

– Quem fala?

Silêncio de novo. – Por favor, não desligue.

Liza coloca o telefone entre o ombro e o queixo, ajeitando a toalha cor-de-rosa que envolve seu corpo recém-saído do banho. – Não vou desligar. Quem fala?

– É Chico.

– Chico?

Sente uma felicidade imensa que é quase tão grande e esmagadora quanto o medo. Como se de repente o sol estivesse nascendo de novo, depois de anos de escuridão e trevas passados na masmorra. Chico. E se ele pudesse vê-la agora, assim, toda desnuda e descabelada, toda ela crua e humana? Não podia. Para sua graça ele está longe, então ela pode sorrir e chorar e sentir o que quiser, ele provavelmente nunca virá a saber.

– Liza! Meu amor…

(Precisava do ponto de exclamação)

Bate com a cabeça no orelhão. Pontos de exclamação são detestáveis, por natureza; Não são? Sorri amareladamente, os lábios arroxeados pelo frio do sul e pelas taças desmedidas de vinho, os dentes que têm a cor da manhã – ou do vício compulsivo. – Tava tão ansioso pra falar contigo…

Liza se senta no chão molhado – lavando o linóleo com as gotas de Júpiter que caem de seu cabelo. – Eu também.

Que bom que não pode vê-la, senão veria a tristeza dos olhos cor de… cor de quê? Cor de noite? Cor de estrada? Cor de olhos da cor que os dela tinham? Chico nunca falava dos olhos, só falava dos lábios e dos ombros e do pescoço e dos seios. Nunca os olhos. Talvez não prestasse muita atenção.

Ele fala do tempo, e fala da saudade. Ele fala com sotaque, levinho feito brisa, mas existente. Depois fala da comida, das noites, e da saudade. Fala das cartas, do trabalho, dos estudos, dos sonhos. E da saudade. Ela balança a cabeça afirmativamente, ri quando deve, derrama lágrimas quando pode. Fala da saudade. É saudade demais para um discurso só. Ele diz que o tempo vai acabar, está ficando sem moedas. “Que tipo de pessoa não tem celular, Chico?’. O meu tipo, ué. O seu tipo.

Ela, ainda molhada e escorregadia, desconversa quando ele toca no assunto. Era quase como tocar-lhe a barriga, aquela pontinha discreta que crescia lenta e cautelosamente por debaixo da toalha felpuda. Mas ele é insistente, ele é ariano. Ela é de libra. Tanto faz, não acredita. Ou finge que não. Ele pergunta, como vai? Vamos resolver isso, eu volto pra’i em algumas semanas, nós nos casamos, nos mudamos, eu tenho dinheiro… eu tenho trabalho. Eu tenho um namorado, ela diz. Ele bate a cabeça de novo, só que não de propósito. Como?

“Namorado, Chico”. “Eu te amo”.

Eu também, ela diz. Mas eu não posso, sabe. E esse filho… cê não se preocupa. Não é seu.

Ele sibila alguma coisa, mas o tempo acaba e a ligação cai. Ela ainda está molhada, de suor de banho e de lágrima. Ela ainda o ama, e ainda quer conversar. Mas ele não retorna. Em algum lugar de Curitiba, naquela noite fria de outono, alguém se embriaga de uísque escocês.

ps1: quero ver alguém adivinhar que música me levou a isso.

ps2: ou não.

ps3: eu não sei pontuar, e não sei descrever.

ps4: eu não gosto desse tempo verbal.

ps5: já chega, né?

minutos permanentes

28 de abril de 2012 § 4 Comentários

Ela disse que te viu por ai um dia desses, na padaria.

Eu até imagino o reencontro, seus olhos doces enfrentando o azedume do olhar dela. Se apaixonaram enquanto eu estive fora, durante todos esse anos? Vocês combinam, e sabem disso. Combinam de um jeito absurdo, assustador e esquisito, de um jeito tão abominável que chega a ser gracioso. Eu sabia que no fim ia ser assim, um esbarrão casual no supermercado, na lanchonete, na avenida… Uma troca carinhosa de olhares, de experiência, de vida. Uma noite juntos e pronto – vocês nasceram um para o outro. Você não gostava do cheiro que ela tinha. Você gosta agora?

É engraçado porque o tempo passa, as pessoas passam, e a gente continua a mesma coisa. Mesmo crescendo (não fisicamente, claro – ainda tenho a entrada permitida em brinquedos de criança e calço sapatos com numeração infantil),  mesmo mudando, no fundo só a mesma adolescente bobinha que cora quando você sorri. Você ainda é dono daquele sorriso. Você ainda é responsável pela vermelhidão. Você ainda me faz passar a noite imaginando como seria, ainda me faz brigar com ela por sua causa, ainda me faz vir até aqui e escrever bobagem, derramar nas páginas as palavras que eu não capaz de te cuspir na face. Eu te transformei em tanto personagem bandido, te fiz senhor de tanta paixão, dono de tanto coração. Ler um conto da Lygia e me enxergar ali, na pele da mulher alienada que se apaixona pelo modo como ele corre os dedos pelos cabelos escuros e ouvir John Mayer pensando que a letra se encaixa como que feita sob medida me arranha, eu me sinto um disco antigo que repete a mesma faixa incessantemente – você usava o cachecol? Usava o mesmo perfume? Um casaco azul escolhido ao acaso ou a blusa que tinha significado especial? Jogou aquela touca fora ou ainda desfila pelas ruas parecendo um mamão de feira? (Acho que aprendi a gostar de mamão. Mas isso não tem nada a ver com você)

E em cada detalhe você ficou. Em cada abraço não dado, e naquele último que foi o primeiro, eu queria apenas lembrar quais as palavras exatas, mas a memória me falha e talvez seja para o bem. Você foi um babaca. E depois foi um doce. Não necessariamente nessa ordem. Você usava seus olhos como objeto de caça – helicópteros de caça. Você estava menino, e agora deve estar um homem – mas eu queria que mantivesse a voz. Ela disse que foi educado, polido, distante. Ela disse que ainda andava de maneira impecável; disse que lhe deu um beijo no rosto e saiu depressa, tinha que ir trabalhar. E eu achei que você viveria às custas da riqueza do pai eternamente.Você faz o quê? Vende promessas? Eu talvez precise de mais algumas. Eu talvez precise de um adeus honesto, um adeus eterno, que acabe tudo, entende? Eu talvez te precise um pouco, por minutos permanentes. Talvez.

ps: eu não vou rasgar nem deletar nada que te envolva, você não tem direitos sobre o que me deixou, nem mesmo sobre as lágrimas e cicatrizes.

ps2: e eu só não te detesto porque você me deu coisas demais para amar. E o jeito como você se move é injusto, você sabe.

ps3: se um dia vocês dois se casarem, eu os processo por plágio. Já tinha escrito uma história assim há muito tempo.

8 de fevereiro de 2012 § Deixe um comentário

Ontem te vi passar perto de casa, e de repente aquele buraco no peito se abriu, quase como se seus olhos escuros o estivessem cavando conforme me tragavam, eu, navegante de primeira viagem, pra dentro desses fossos escuros e assombrados. Respirei fundo, pensei em apenas passar diante de ti, seguir meu caminho, minha própria correnteza, minha vidinha pacata de compras em hortifrútis e idas ao sebo nos fins de semana. Mas a verdade é que esse tipo de coisa, esse tipo de olhos, esse tipo de corpo e de sorriso não se confunde com a paisagem tão facilmente, e eu tive que pensar em sentir saudades suas. Parei por um instante, refleti sobre o assunto. Sentir sua falta implicava em passar noites em claro, escrever textos melodramáticos e imaginar que todo personagem romântico e apaixonável de um livro Jane Austeniano é ruivo. Implicava em falar seu nome pelo menos uma vez a cada doze frases, imaginar seu rosto no meio das equações matemáticas e suspirar a cada trinta minutos, mais ou menos, seguindo com um típico ‘ai, ai’  enamorado.

Não valia a pena, mas eu já não tinha escolha. Seus olhos tropicais me encontraram, e, como de costume, você demorou um pouco para sorrir. Talvez não tenha me reconhecido logo de cara, ou simplesmente estivesse pesando os dois lados da coisa, como eu. De um jeito ou de outro, o sorriso veio, todo amarelo, todo torto, todo bonito, todo você. Entendi porque tanta reflexão, era esse sorriso que eu queria evitar, o sorriso mais feio e mais lindo do mundo, ao mesmo tempo. O sorriso que fazia meu coração acelerar e quase parar, ao mesmo tempo. O sorriso que me fazia querer correr para longe de ti, e para seus braços, ao mesmo tempo. Tudo, tudo ao mesmo tempo, que quando se trata de você não tem isso de passo a passo, é tudo de uma vez. Todo o ódio, todo o amor, todo o ímpeto, todo o remorso.

Quase que atravessei a rua e me atirei em direção ao seu peito, minha vontade era de me encolher ali e morar dentro do seu casaco marrom para sempre. Só que aquela coisinha irritante de voz afeminada surgiu, me fazendo mudar os planos, me fazendo perder a coragem, o impulso, a linha de pensamento. Aquela coisinha irritante que te acompanha de um lado para o outro, sua noiva, namorada, duende, sei lá o quê. Saiu de dentro da padaria, o sorriso quase que não cabendo nos lábios pintados de vermelho. Entendi o porquê daquela felicidade, algumas pessoas a chamam pelo seu nome, sabia? Te deu o braço, encostou a cabeça cabeluda no seu ombro largo, e os dois saíram andando, ela com sua bolsa cruzando o peito, uma sacolinha engordurada pendendo de uma das mãos, o vento batendo na cara branca que você tanto ama e beija.

Você nem se virou para acenar, dizer um adeus, ou gritar rua afora que ama. Suas pernas cheias de cicatrizes foram apertando o passo, a barba mal feita poluindo todo o rosto cheio de rugas de expressão que ainda vêm me atormentar os sonhos.

Dei meia volta, sorri para o dia azul que se estendia diante de mim. Ia voltar para casa, tomar um banho, tirar você da minha cabeça. Ou pelo menos fingir que tinha essa pretensão.

1 de fevereiro de 2012 § Deixe um comentário

E ontem me permiti sentir saudades suas.

Já fazia tanto tempo que eu quase não me lembrava da sensação, a tristeza e o êxtase, a mistura colorida de alegria e infelicidade ao me deparar com o vazio existente por detrás das pálpebras que se abriram, depois de te enxergar de novo ao lado meu. Deixei-me ouvir as músicas mais tristes, ler os poemas mais antigos, repensar cada detalhe, cada segundo, cada cílio seu, tão perto e tão distante. Narrei em minha mente nossos diálogos, os falsos e os verdadeiros, esforçando-me para recordar de cada palavra sua, a forma como seus olhos mudavam de cor com a luz do sol. Tentei sentir na pele seu toque, mas esse é o tipo de coisa que desaparece com o tempo, o que o vento, que arrasta consigo as páginas do calendário, faz questão de despistar. Delineei em meus devaneios seus lábios rosados, sua face branca, seu cabelo alaranjado. Reformulei meus gestos, fiz questão de reformar os momentos impensados. Nossa história devia ser perfeita, estava escrito, eu sabia. Mas alguém a apagou. Não sei dizer quem, assim como não sei dizer o que eu faço com esse poço sem fundo que resolveu habitar meu peito desde que você se foi. E o pior, o que me mata, é saber que tudo aquilo que eu planejei, tudo aquilo que eu esbocei, não passou de um rascunho que eu recrio durante a noite dentro de minha cabeça. Eu só queria que você entendesse, que você enxergasse. Eu só queria que não doesse tanto.

Guardei os desejos dentro de uma caixa, enterrei-a debaixo da cama e fui dormir. Não sei dizer se sonhei contigo, mas a verdade é que eu nem preciso disso para ver seu rosto assim que desperto – ele já é a primeira coisa que aborda minha mente pela manhã. As lágrimas estão seguras aqui dentro, e eu sei que se te ver na rua não vou me aproximar. Apenas desejar que tudo tivesse sido diferente, voltar para casa, me encolher num canto, e devorar as memórias que eu construí para nós dois.

da tristeza de um menino que batizo de Rafael e suas lágrimas que lhe desciam pelo rosto como a chuva desce pelas ruas asfaltadas da minha cidade

13 de novembro de 2011 § Deixe um comentário

O dia amanhecia enquanto os olhos dela enchiam meu céu de estrelas. Aquele sorriso singular se abrindo por entre as pálpebras enquanto os lábios pintados de púrpura permaneciam fechados, imóveis, colados em meu ombro, deixando nele a marca do batom. Passei as mãos pelos cabelos dela, os dedos brancos deslizando pela floresta de fios escuros que lhe desciam quase até a cintura. Podia sentir sua respiração, o peito se enchendo de ar e depois o libertando, vento frio soprando palavras sinceras em meu rosto.

– Vai sentir minha falta?

Ela disse, de repente, tão baixinho que eu quase não pude ter certeza de que haviam sido mesmo aquelas as palavras. Seus olhos estavam abertos, duas esferas escuras me examinando como se eu fosse um livro aberto, as palavras escritas na minha face, nenhum enigma, nenhum segredo.

– Claro que vou. – foi tudo o que consegui dizer. Havia mais, muito mais a ser dito, mas eu não sabia como fazer aquilo – achar um jeito de explicar como eu me sentiria quando fosse embora. Porque, na verdade, eu não conseguia imaginar como seria. Não conseguia me imaginar acordando durante a manhã sem ter seus cabelos espalhados pelo meu peito. Não ter suas mãos presas entre as minhas, a mancha do batom impregnada no travesseiro, o rosto delicado colado ao meu. Nada daquilo parecia plausível, possível, real. Eu estava por demais acostumado a tê-la junto a mim, e agora teria de me olhar no espelho sem vê-la refletida ao meu lado. A ideia soava assustadora e terrível.

Ela pressionou os lábios um no outro, depois me beijou delicadamente o ombro. – Vou sentir sua falta também. Muito mais do que imagina.

Seus olhos estavam secos, mas eu podia sentir as lágrimas lhe caindo por dentro.

Começou a chover. Ela se aproximou de mim, os braços me envolveram e me apertaram até que nos tornamos um só. Meus dedos dançavam sobre sua pele, a sinfonia de silêncios e o cheiro dos nossos perfumes embaralhados no quarto escuro.

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