5 de agosto de 2012 § 4 Comentários

Ela poderia ser feliz, e ele nem saberia.

Sussurrou um adeus e foi embora, deixando as marcas de seus pezinhos molhados no chão, as lágrimas nos lençóis, a mancha de batom na borda copo. E por um instante ele desejou nunca tê-la conhecido. Desejou que todos os momentos bons fossem apagados, levados embora com a água que lhe descia dos olhos. Desejou que ela nunca tivesse cruzado seu caminho, que nunca tivesse lhe apresentado seu sorriso, que nunca tivesse invadido sua casa, sua cama, seu peito, seu coração.

edredons e dissabores

4 de julho de 2012 § 1 comentário

A tarde era branca – branca como o vazio.

Se era negra a ausência de cor, a ausência da voz era alva. E a palidez habitual dos dias aos poucos se metamorfoseava na brancura da pele dela, um deserto glacial envolto no manto estelar, a epiderme clara salpicada de luz, o caminhos das lágrimas pontilhado na bochecha esquerda. Vislumbrava seu rosto como se observasse uma espécie de santo; gostava de manter cada detalhe polido e intacto, o corpo esguio petrificado pelo tempo, o olhar felino imortalizado. Da última vez que a vira estava deitada na cama, as pernas magras e depiladas cobertas pelos lençóis amarelados até os joelhos. Balbuciava alguma coisa debilmente, mas, sem coragem, lucidez ou azar o bastante para formar frases com nexo, cerrou os lábios rachados e arroxeados (não sabia se pelo vinho ou se pelas amoras), e calou-se num adormecer tranquilo.

Ele era a ilha, desabitada, hostil, secreta. Ela era a sereia, infantil, esbelta e curiosa, como só uma mulher saberia ser. Dava voltas e voltas e voltas ao redor da areia dourada, o sol ardente a iluminar-lhe os cabelos negros, ele estático, pedra, barro, homem. Voltas e voltas e voltas e voltas. Talvez estivesse ficando bêbado. Tomou doses demais de vida, de paixão, de maré. Helena estendida na cama, a sereia se cansou de nadar. Nadava agora em sua sonolência, entorpecida pelo sabor da ebriedade. Como era bom não estar, não ser (!). Apenas um corpo que jaz sobre as almofadas, apenas um estorvo para os que despertam, ela não seria nada.

Teria prosseguido e lhe dado um beijo – a despedida silenciosa e amarga, com gosto de álcool e sal. O beijo que lhe devolveria a vida, roubando para sempre a dele. Mas não prosseguiu. Não a beijou. Permaneceu estático, com os olhos aflitos a vagar cautelosamente pelo cenário mórbido. Dentre tantas palavras ele escolhera a mais bonita, justamente para contrastar com o corpo desprovido de graça que, desfalecido, atirara-se ao oceano turbulento de edredons e dissabores. Cinco letras, começando com ‘a’.

outono em nova york (ou é em porto alegre?)

17 de maio de 2012 § 2 Comentários

Liza desce as escadas depressa, os pés descalços e molhados deixando o rastro de água pelos degraus de granito, os dedos se arrastando pelo corre-mão, produzindo pegadas de suor contorcidas, linhas se entrelaçando e dançando descompassadamente.

– Eu atendo! – ela grita para o vazio. Está sozinha em casa, como de costume. A mãe gosta de sair para ‘espairecer’, dar suas voltas, provocar suas revoltas, e mesmo assim anuncia seus atos em voz alta.

Tira o telefone do gancho: – Pois não?

Tudo permanece quieto, a não ser pelo som de sua respiração ofegante. – Alô? – Ela insiste. Nada.

Está prestes a desligar, mas antes de tirar o telefone da orelha a voz que está do outro lado responde.

– Quem fala?

– Quem fala?

Silêncio de novo. – Por favor, não desligue.

Liza coloca o telefone entre o ombro e o queixo, ajeitando a toalha cor-de-rosa que envolve seu corpo recém-saído do banho. – Não vou desligar. Quem fala?

– É Chico.

– Chico?

Sente uma felicidade imensa que é quase tão grande e esmagadora quanto o medo. Como se de repente o sol estivesse nascendo de novo, depois de anos de escuridão e trevas passados na masmorra. Chico. E se ele pudesse vê-la agora, assim, toda desnuda e descabelada, toda ela crua e humana? Não podia. Para sua graça ele está longe, então ela pode sorrir e chorar e sentir o que quiser, ele provavelmente nunca virá a saber.

– Liza! Meu amor…

(Precisava do ponto de exclamação)

Bate com a cabeça no orelhão. Pontos de exclamação são detestáveis, por natureza; Não são? Sorri amareladamente, os lábios arroxeados pelo frio do sul e pelas taças desmedidas de vinho, os dentes que têm a cor da manhã – ou do vício compulsivo. – Tava tão ansioso pra falar contigo…

Liza se senta no chão molhado – lavando o linóleo com as gotas de Júpiter que caem de seu cabelo. – Eu também.

Que bom que não pode vê-la, senão veria a tristeza dos olhos cor de… cor de quê? Cor de noite? Cor de estrada? Cor de olhos da cor que os dela tinham? Chico nunca falava dos olhos, só falava dos lábios e dos ombros e do pescoço e dos seios. Nunca os olhos. Talvez não prestasse muita atenção.

Ele fala do tempo, e fala da saudade. Ele fala com sotaque, levinho feito brisa, mas existente. Depois fala da comida, das noites, e da saudade. Fala das cartas, do trabalho, dos estudos, dos sonhos. E da saudade. Ela balança a cabeça afirmativamente, ri quando deve, derrama lágrimas quando pode. Fala da saudade. É saudade demais para um discurso só. Ele diz que o tempo vai acabar, está ficando sem moedas. “Que tipo de pessoa não tem celular, Chico?’. O meu tipo, ué. O seu tipo.

Ela, ainda molhada e escorregadia, desconversa quando ele toca no assunto. Era quase como tocar-lhe a barriga, aquela pontinha discreta que crescia lenta e cautelosamente por debaixo da toalha felpuda. Mas ele é insistente, ele é ariano. Ela é de libra. Tanto faz, não acredita. Ou finge que não. Ele pergunta, como vai? Vamos resolver isso, eu volto pra’i em algumas semanas, nós nos casamos, nos mudamos, eu tenho dinheiro… eu tenho trabalho. Eu tenho um namorado, ela diz. Ele bate a cabeça de novo, só que não de propósito. Como?

“Namorado, Chico”. “Eu te amo”.

Eu também, ela diz. Mas eu não posso, sabe. E esse filho… cê não se preocupa. Não é seu.

Ele sibila alguma coisa, mas o tempo acaba e a ligação cai. Ela ainda está molhada, de suor de banho e de lágrima. Ela ainda o ama, e ainda quer conversar. Mas ele não retorna. Em algum lugar de Curitiba, naquela noite fria de outono, alguém se embriaga de uísque escocês.

ps1: quero ver alguém adivinhar que música me levou a isso.

ps2: ou não.

ps3: eu não sei pontuar, e não sei descrever.

ps4: eu não gosto desse tempo verbal.

ps5: já chega, né?

minutos permanentes

28 de abril de 2012 § 4 Comentários

Ela disse que te viu por ai um dia desses, na padaria.

Eu até imagino o reencontro, seus olhos doces enfrentando o azedume do olhar dela. Se apaixonaram enquanto eu estive fora, durante todos esse anos? Vocês combinam, e sabem disso. Combinam de um jeito absurdo, assustador e esquisito, de um jeito tão abominável que chega a ser gracioso. Eu sabia que no fim ia ser assim, um esbarrão casual no supermercado, na lanchonete, na avenida… Uma troca carinhosa de olhares, de experiência, de vida. Uma noite juntos e pronto – vocês nasceram um para o outro. Você não gostava do cheiro que ela tinha. Você gosta agora?

É engraçado porque o tempo passa, as pessoas passam, e a gente continua a mesma coisa. Mesmo crescendo (não fisicamente, claro – ainda tenho a entrada permitida em brinquedos de criança e calço sapatos com numeração infantil),  mesmo mudando, no fundo só a mesma adolescente bobinha que cora quando você sorri. Você ainda é dono daquele sorriso. Você ainda é responsável pela vermelhidão. Você ainda me faz passar a noite imaginando como seria, ainda me faz brigar com ela por sua causa, ainda me faz vir até aqui e escrever bobagem, derramar nas páginas as palavras que eu não capaz de te cuspir na face. Eu te transformei em tanto personagem bandido, te fiz senhor de tanta paixão, dono de tanto coração. Ler um conto da Lygia e me enxergar ali, na pele da mulher alienada que se apaixona pelo modo como ele corre os dedos pelos cabelos escuros e ouvir John Mayer pensando que a letra se encaixa como que feita sob medida me arranha, eu me sinto um disco antigo que repete a mesma faixa incessantemente – você usava o cachecol? Usava o mesmo perfume? Um casaco azul escolhido ao acaso ou a blusa que tinha significado especial? Jogou aquela touca fora ou ainda desfila pelas ruas parecendo um mamão de feira? (Acho que aprendi a gostar de mamão. Mas isso não tem nada a ver com você)

E em cada detalhe você ficou. Em cada abraço não dado, e naquele último que foi o primeiro, eu queria apenas lembrar quais as palavras exatas, mas a memória me falha e talvez seja para o bem. Você foi um babaca. E depois foi um doce. Não necessariamente nessa ordem. Você usava seus olhos como objeto de caça – helicópteros de caça. Você estava menino, e agora deve estar um homem – mas eu queria que mantivesse a voz. Ela disse que foi educado, polido, distante. Ela disse que ainda andava de maneira impecável; disse que lhe deu um beijo no rosto e saiu depressa, tinha que ir trabalhar. E eu achei que você viveria às custas da riqueza do pai eternamente.Você faz o quê? Vende promessas? Eu talvez precise de mais algumas. Eu talvez precise de um adeus honesto, um adeus eterno, que acabe tudo, entende? Eu talvez te precise um pouco, por minutos permanentes. Talvez.

ps: eu não vou rasgar nem deletar nada que te envolva, você não tem direitos sobre o que me deixou, nem mesmo sobre as lágrimas e cicatrizes.

ps2: e eu só não te detesto porque você me deu coisas demais para amar. E o jeito como você se move é injusto, você sabe.

ps3: se um dia vocês dois se casarem, eu os processo por plágio. Já tinha escrito uma história assim há muito tempo.

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8 de abril de 2012 § Deixe um comentário

Ela não sabia explicar – só sabia que sentia e sentia muito, e por mais que desejasse dar àquilo um nome e uma definição permanecia perdida em meio às palavras e ao silêncio, perdida no escuro do quarto e das pálpebras, e nem à luz do sol sua tristeza se desvanecia.

Antigamente Beatles costumava resolver. Colocava os discos na vitrola empoeirada do avô e passava horas deitada de bruços sobre o piso de linóleo, a face encostada no chão e os pés chutando um ao outro. Mas agora o remédio perdera o efeito. Nem Beatles, nem Elton, nem Elvis nem nada. Taylor? Só piorava a situação. Não encontrava uma viva ou morta alma naquela casa capaz de emudecer os batimentos altos do coração com a voz harmoniosa, e nem a mais estridente poderia fazer seu espírito barulhento se calar. Ela sofria, e ninguém entendia. Não fazia questão que entendessem, de jeito nenhum. Ela sabia  que aquele sentimento era só dela, e não tinha jeito de distribuir o peso do mundo despedaçado sobre os ombros de outra pessoa – como se fosse um castigo, fora fadada a caminhar por sobre as chamas com o peito derramando sangue, só que não havia chamas nem peito ensaguentado, era só uma menina pequena demais para fazer analogias decentes com a cabeça cheia de abobrinha. Então não queria ajuda. Não queria entendimento, não queria apoio, não queria que outra pessoa a ouvisse e compreendesse porque o outro era só o outro, e o problema estava dentro dela.

Estava fora do alcance de qualquer um lhe dizer o que fazer. Mas também estava fora de seu próprio alcance, e ela perdia a lucidez conforme pensava no assunto – ou ela nunca fora lúcida e só agora uma pontinha de sanidade se apoderava de seu cérebro? Ia caminhando dentro de si e lá mesmo se perdia, lá mesmo se afogava, com todas aquelas lágrimas que nunca saiam, toda aquela água acumulada em anos (Quanto drama) Quando é que a nave mãe viria buscá-la, afinal? Sentia falta de sua terra e sentia falta do seu povo, do mundo que ela não conhecia mas que precisava existir, porque, se não existisse, ai sim ela estaria para sempre sozinha.

3 de março de 2012 § Deixe um comentário

A noite lá fora pedia socorro – não sabe que Luísa não está em condições de ajudar ninguém? Continuou debruçada sobre o beiral da janela, o cheiro doce da cidade invadindo o quarto com violência, quase como se se convidasse para dormir ali. Era uma sensação engraçada aquela, de observar a vida correndo enquanto ela permanecia estática com seus olhos escuros bem abertos. Tinha sido um dia cansativo e quente, e agora ela finalmente se sentia fresca, com a camisola esvoaçante e os cabelos recém-lavados. Era o tipo de liberdade que pedia a Deus todos os dias, a liberdade de se lavar – lavar os cabelos, o corpo, a alma… Arrancar da pele toda e qualquer cicatriz permanente. Os vaga-lumes rodopiavam em torno dos postes de luz acesos, os carros escorriam pelas avenidas como as gotas de chuva escorrem pelo vidro da janela em tardes de domingo – só que era segunda-feira, e ela não sabia que analogia fazer com aquilo que lhe era atirado à cara.

entre a minha boca e a tua há tanto tempo, há tantos planos

23 de fevereiro de 2012 § Deixe um comentário

É que por muito tempo me limitei a te olhar e fingir que não me importava, te criticar pelas costas (só pelas suas, costas largas e gigantescas, as muralhas brancas que me impediam de ver o sol, porque para os outros eu falava olhando nos olhos, a expressão se contorcendo conforme eu me recordava dos fatos), praguejar enquanto você infestava os corredores com suas ‘laranjidades’ habituais e desejar que uma casca de banana misteriosamente cruzasse seu caminho, essa sua carinha pálida se estatelando no chão. Mas agora eu vou cravar meus olhos caídos e chorosos nos seus, esses globos marrons emoldurados pelos cílios cor de manhã. Agora eu quero estar de pé, diante de toda sua autossuficiência, e ver até onde seu tamanho te ergue, Golias. Agora somos nós dois, sem boatos, sem mentiras, sem deduções. Jogo limpo, cartas na mesa, roupas sujas penduradas no varal, sua língua envenenada saltando pra fora da boca que de repente não me atrai mais. Agora sou só eu e minha coragem, nada de segundas intenções, nada de estratégias, vamos nos sentar aqui e admirar a verdade enquanto essa se alastra pelas nossas veias. Eu não te amo mais.

(P.S.: Mas, se você me quiser de volta, ou pra uma meia-volta, quem sabe, sou do tipo que perdoa e esquece.)

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