10 de julho de 2012 § 5 Comentários

Foi escorregando para o fundo da banheira até que toda a cabeça estivesse submersa, os cabelos tingidos de vermelho ficaram flutuando no meio da espuma que cheirava a morango enquanto ela apertava com os dedos enrugados os olhos fechados – mas mesmo no escuro ainda o enxergava claramente. Daniel. Ergueu-se abruptamente, as gotas de água respingando do cabelo como as gotas de Júpiter sobre as quais o cantor com sotaque caipira gritava no rádio – ‘agora que ela está de volta à atmosfera…’ Não estava. Sentia-se alheia a tudo aquilo, como se em algum momento lá atrás tivesse sido transportada para um outro planeta, uma outra galáxia, talvez, e desde então assistisse aos acontecimentos alojada em uma estrela cadente, sem nunca interferir ou participar.

da cicatriz, da necessidade, de preposições e da menina que não sabia amar

1 de março de 2012 § Deixe um comentário

Era uma necessidade absurda, ainda que anônima.  Lorena gostava mais das coisas quando ainda não tinham nome e podia batizá-las como bem entendesse – só que nesses últimos dias não tinha entendido nada. Mantinha o olhar ligeiramente verde fixo nas próprias mãos, e umedecia e emudecia os lábios com a língua rosada, aquela boca que era pequena demais para o tamanho das palavras que queriam sair dali de dentro. Flávio tomou um gole de café, e Lorena fez o mesmo porque pensou que seria mais sofisticado de sua parte se fizesse. Detestava café, não suportava nem o cheiro – mas era uma questão de honra. Levou a xícara até os dentes, fazendo-os tilintar. O vapor quente subiu-lhe à cara, torceu o nariz sardento, contou mentalmente até três e jogou tudo goela abaixo. ah! O sabor da vitória, deliciava-o com tamanha intensidade que quase não sentia o desgosto de provar o gosto amargo do café – pedira sem açúcar, já que tinha acordado determinada a ser corajosa. Olhou fundo nos olhos de Flávio e sorriu, satisfeita. Os olhos foram descendo, escorrendo pelo rosto enrijecido e estranhamente tranquilo, roçaram a barba mal-feita, deslizaram pelos lábios contraídos, até que chegaram ao pescoço.

Foi quando ela percebeu que ele tinha uma cicatriz. Ficava ali, escondidinha, tão pequena e tão bem disfarçada que quase passou despercebida, mas Lorena foi mais rápida e avistou-a antes que ele mudasse de posição e ela a perdesse de vista. E foi por aquela cicatriz que ela se apaixonou.

Tudo a respeito de Flávio era desumano demais. O sorriso, o olhar, o falar, o gesticular, seu ar paradoxal era inteiro divino, e Lorena aprendera a detestar aquilo. Estar sentada na mesma mesa que ele era como estar cercada por um júri, e sentia-se avaliada todo o tempo, como se até mesmo o arquear de suas sobrancelhas grossas não estivesse à altura do companheiro. Mas aquilo era carnal. Aquele ferimento era a prova, um sinal de que era gente como ela, que cometida erros, que se arrependia, que desejava. E a palavra fez com que ela estremecesse. Foi aquela lua pendurada na pele do pescoço, quase como um pingente, que a fez sentir absurda. Absurda como a necessidade que tinha, absurda como era quando pequena e via nas coisas uma complexidade inexistente, do mesmo modo que olhava para os cálculos matemáticos e achava respostas simples e harmônicas, utilizando-se das próprias regras que eram as regras da vida. Mas não se tratava de cálculos, de complexidades, de vida. Se tratava de Flávio, de como Flávio a tratava, de como ele a olhava e não demonstrava um pingo de atenção, embora fosse todo ouvidos e todo olhos para ela. Se tratava daquela vontade louca que tinha, e nem sabia direito de quê.

Já era a terceira ou quarta vez que se encontravam no mesmo bar, ela com suas saias justas, ele com seu riso largo. Quando pensava em vê-lo o coração batia depressa, como se adiantar-se fizesse o tempo passar mais rápido e levá-la logo para ele, ele, que nem sequer a tocara até então. Ele, com aquelas sobrancelhas unidas, aquele rosto fechado, aquela cicatriz que agora Lorena não perdia de vista. Ele, que visitava seus sonhos todas as noites, que inundava seus pensamentos com hipérboles, que era tudo que ela queria agora. Ele, Flávio, escritor, vinte e tantos anos, talvez beirasse aos trinta, divorciado, sem filhos, pelo menos até onde sabia. Ele, com as mãos calcadas estendidas atrás da cabeça raspada, o olhar meio perdido em algum lugar entre seu sorriso escurecido pelas doses de coca-cola e o fecho da blusa decotada. Não havia suor. Lorena sentia-se úmida, o sangue transbordando do corpo, mas não havia provas, não havia lágrimas, não havia transpiração. Queria a liberdade de derramar para fora de si a imensidade daquele sentimento, aquela liberdade que lhe era sua por direito, mas que fugira para algum campo do sul e nunca mais voltara, deixando-a ali, fechada, os lábios pintados se abrindo e cerrando, tanta coisa pra dizer e ao mesmo tempo sentia que precisava permanecer calada. Não falaria nada até que Flávio quebrasse o gelo com sua voz de trovão, sua perspectiva torta, seus ideias hipócritas, mas ainda assim (ou por isso mesmo) revolucionários.

Viu-se tomando mais um gole de café, e não era nem por ser desafiada nem porque sentia vontade, só queria algo que lhe ocupasse a mente enquanto o olhar vagava pelo corpo forte de Flávio. Vontade. Ele se levantou, ajeitou-se na cadeira de plástico e tomou mais café – Lorena pensou que talvez dessa vez só bebesse porque ela bebia, e então deduziu que se o amasse ele talvez precisasse amá-la de volta, senão perderia o jogo. Soava meio arriscado, mas era o dia de ser corajosa, refrescou ela mesma sua memória, e sorriu como que se a resposta da questão quinze de Matemática estivesse logo no enunciado da próxima. Parou por alguns instantes, tocou de leve a mão dele, imaginando que Flávio a faria escapar dali, fazendo o encontro dos dedos parecer acidente, o encontro das almas parecer acaso, o encontro dos corpos parecer aventura. Mas não. Ele apenas se deixou ficar, sentindo com a ponta do dedão o comprimento exagerado das unhas dela, que ele já disse que preferia curtas. Olhou bem para o rosto da moça, para o corpo que nem era mesmo um corpo de Lorena, aquele frasco onde ela gostava de guardar o espírito, e pensou no quão absurdo lhe parecia necessitar tanto de algo, necessitar tanto dela.

19 de fevereiro de 2012 § Deixe um comentário

Chico correu os dedos quentes pelas costas nuas da menina, as mãos morenas tocando de leve as manchas arroxeadas que ela trazia na pele clara.

– Como você consegui isso aqui? – ele sussurrou no ouvido de Catarina, os lábios grossos se movendo devagarzinho, as palavras tão baixas que ela não tinha certeza se era realidade ou se era sonho.

Depressa, puxou os lençóis azuis (da cor do céu sem nuvens e dos olhos sem vergonha dele) e se cobriu, virando o corpo para o outro lado – Não foi nada.

– Que foi? – ele perguntou, ao perceber que ela se encolhia e desaparecia no meio das cobertas.

– Que foi o quê?

– Quê? – Chico a encarou por alguns instantes, e depois riu, um riso abafado, piedoso e chuvoso, um riso com cheiro de café e dentes amarelados pelo consumo de cigarros exagerado.

– Não quero falar disso. E não quero que você veja.

Chico a puxou para si, abraçando-a com força – Por que não? Se você sempre me deixou te ver inteira, sem esse pudor todo…

Seu rosto redondo e pueril se tingiu de vermelho, quase do mesmo tom que os lábios finos, apertados um no outro, enquanto ela desviava o olhar cor de terra molhada para longe do dele. – É diferente. Não quero que você veja essas marcas feias.

O cenho dele se franziu. – Feias? – Ele tirou as cobertas de cima das costas dela, e, vagarosamente, beijou as marcas roxas. – Desculpe, mas a gente não pode estar falando da mesma coisa.

Catarina sorriu, metade do sorriso triste, por causa das lembranças, e a outra metade feliz, por causa do agora. Desejou que Chico estivesse sempre por perto, no travesseiro ao lado, e que ela soubesse desde o primeiro dia o quão especial ele era. Chico foi beijando aquela areia alva, até o branco se tornar vermelho, até o vermelho desaparecer no escuro.

30 de dezembro de 2011 § Deixe um comentário

As palavras atingiram os ouvidos de Nicole como tiros.

Onde estava o sangue? Descia-lhe pelo rosto, um suicídio de lágrimas. O gosto salgado da dor, não devia ser amargo? Estava cansada demais para pensar, onde estavam seus remédios, onde estava o torpor? Porque continuava doendo, mesmo sem ferida nem corte? Doía. A luz invadia o quarto escuro pelas frestas da janela, exatamente como o sentimento intruso, abrindo caminho por entre seus lábios, os beijos, os gritos, os tiros… A sensação. Por que o melhor sentimento é também o mais destrutivo? Ela sentia vontade de vomitar. Colocar pra fora a sensação de perda, colocar pra fora as entranhas, que é pra ver se ele volta, pra recolocar no lugar. Era médico, não era? Volta. Conserta. Faz uma cirurgia pra tirar dela o coração baleado, que ela já disse que não é à prova de balas. A luz do sol invadia o quarto. Quer dizer que é dia, amanheceu. Sobreviveu. É diferente, ela sabia. Sobreviver não equivale a viver, o médico não era o mesmo que oxigênio. Mas qual dos dois preferia? A resposta abriria um buraco ainda maior, ela sabia. É que tudo era muito sem sentido e injusto. Ele vem, ele dá amor, ele apaga as pegadas antigas. É pra ter espaço para suas próprias. Colocou o telefone no gancho. Enrolada nas cobertas, sentia um calor torturante, do tipo que parece queimar o corpo. E o que restaria, as cinzas? A dor ficaria ali, ela sabia. Se ficaria, pra que se queimar, pra que se desfazer? Doeria do mesmo jeito. Deixou-se cair na cama, o som perturbador dos batimentos cardíacos. Quais foram as palavras? Ele disse que não era culpa dela, não era culpa de ninguém. Então quem pagaria pelas cicatrizes? Que nome ela devia gritar? O nome dele. Mas ela nem sabia mais quem era ele. Deitada ali, sentindo pesar sobre seus ombros o cansaço. Ela ficará melhor depois, não ficará, doutor? Ele disse que sim. Que passa, que esquece. Que o tempo apaga. Apaga. Apaga. Por que não apaga logo, por que não passa um vento forte e ensurdecedor por sobre as declarações torturantes dele? Passa, passa depressa. Ela só queria poder voltar para os braços fortes dele. Mas não era culpa dela, não era culpa de ninguém.

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