(verme)

24 de junho de 2012 § 10 Comentários

“Você sabe que gosta de alguém quando sua música preferida é também a que você mais detesta.”

Fechou os olhos e apertou o botão. De repente ela estava lá de novo, no mesmo quarto, na mesma cama. De repente eles tinham apenas dezoito.

– Ulisses?

Ela se virou. Os olhos embaçados e a maquiagem borrada, os cabelos desalinhados presos numa trança frouxa. Os lábios estavam pintados de roxo, não sabia se pelo vinho ou se pelo frio – ou talvez fossem as amoras. Uma vez ela disse que gostava do nome, mesmo sendo nome de homem. Ou era por isso mesmo que gostava? Disse que a deixava mais forte, como se carregasse consigo a história do herói. Paolo ficou quieto, nunca sabia o que dizer quando Ulisses abanava os cílios daquele jeito. Era estranho pensar em toda aquela feminilidade revestida por um substantivo masculino. Ulisses. Os dentes ligeiramente tortos. Ulisses. Os dedos pequenos e gorduchos, a mão branca e miúda como a de uma criança. Segurou-a por entre os dedos quentes. Estava frio lá fora, mas era ainda mais gelado do lado de dentro – mesmo com todas as cobertas, com todas as roupas, ele ainda sentia uma camada espessa de gelo se formando, quase como se a neve caísse por sobre os corpos magros. Bebeu um gole de vinho. Ele não gostava de beber – não como Ulisses. Ela estava bêbada a maior parte do tempo, o que o fazia considerar a hipótese de que talvez (e apenas talvez) ele fosse chato demais com toda aquela conversinha fiada, aquela história de mitologia grega e escolas literárias e tudo mais. Não convencia. Mas Ulisses continuava ali, com as pálpebras semi-cerradas e o sorriso lânguido nos lábios rachados.

Fixou o olhar pacífico e ébrio naquela mancha em formato de lua que ela tinha no ombro esquerdo. Primeiro assoprou, como se dela brotasse uma chama ardente. Depois beijou. Ulisses se mexeu, e Paolo não sabia se ela estava realmente acordada, ou se era só um sonho ruim.

– Mas quando todo mundo tiver ido embora – ele sussurrou, pertinho do ouvido dela – você ainda vai ser minha, Ulisses?

Tudo o que ele escutou foi um ‘uhum’ abafado, sua boca estava agora prensada no travesseiro babado. Ulisses conseguia ser extremamente atraente e nojenta, ao mesmo tempo. – Você vai ficar? Vai me esperar?

Ulisses abanou a cabeça. Sorriu. Deu um tapa no braço peludo dele e virou o corpo magrelo para o outro lado. “Pra sempre, e tudo mais que você quiser, querido. ”

Paolo detestava ser chamado de querido. Desvencilhou-se dos dedos dela, deu uma última olhada no corpo desvanecido e saltou para fora da cama, em direção ao banheiro do apartamento apertado. Aquele lugar fedia cigarro.

Se ela não fosse tão bonita… parou na frente do espelho de moldura de plástico, molhou as mãos sujas e penteou os cabelos. No fundo ele sabia que ela não era mesmo tão bonita – nem nada perto disso. Mas era mulher. Tinha nome de homem. Cheirava feito animal e fazia seu coração bater depressa feito ninguém. Ela também falava alemão. Que palavra era aquela, que ela gritou pra ele outro dia no metrô? Devia ser palavrão. Ela disse que ia ficar, para sempre e mais o que ele quisesse. E foi naquele momento que ele soube que a tinha perdido.

– Com licença?

Tirou os fones de ouvido.

– Será que eu posso usar, moço?

Paolo fez que sim com a cabeça. – Claro. Desculpe.

Pegou o CD  e caminhou em direção ao caixa. A funcionária sorriu, tinha uns dentes brancos que eram quase inacreditáveis. – Gosta de Radiohead?

Coçou a nuca, ajeitou o cachecol. – Na verdade… Odeio.

eu que não fumo queria um cigarro ou o homem que se apaixonou pela beleza plástica

10 de maio de 2012 § 2 Comentários

Podia ser qualquer coisa – mas era amor.

Terrível batizar sentimento, ele agora se sentia na obrigação de comprovar as teorias, de obedecer às regras inúteis, chorar em plena madrugada por saudades dela, comprar Serenata de Amor só para ler as mensagens apaixonadas da embalagem e se sentir reconfortado e acolhido – “Se você está se sentindo estranhamente feliz e sorridente, das duas, uma: ou está apaixonado, ou ficou louco. No fundo, não faz muita diferença”. Não fazia, mesmo. Jogou o papel fora e enfiou as mãos roxas de frio nos bolsos da calça jeans surrada, os polegares tamborilando do lado de fora. Era outono e ele podia sentir seu sangue congelar dentro das veias que lhe saltavam da face. Mas o problema não estava no vento glacial das ruas brancas de maio que lhe cuspia a morbidez crua da cidade – o problema era aquela palidez interior. Não voltaria para casa, as noites se hospedavam nos bares. Por que ela não o amava de volta? Acariciou a barba mal-aparada e tropeçou nos próprios pés antes de se perguntar se estava sóbrio. Quando foi a última vez em que escovara os dentes? Seu hálito tinha um cheiro forte de cigarro, mas ele nunca havia fumado. Apertou o passo porque estava atrasado, e se alguém perguntasse ia ver a namorada. Só que ninguém perguntaria, porque ninguém se importava. Até ele estava ficando cansado de se importar. Andou por um tempo, e poderia ter sido um dia, um mês ou um ano – ele só sabia que os olhos estavam mais pesados que a consciência e a as mãos mais leves que os bolsos. E depois de uma era de gelo e fome (de amor, de comida, de dinheiro, de direito e de si mesmo) foi parar em frente à vitrine. Bonita que só ela,  estava quieta, como sempre. Não lhe dava bola, não o olhava nos olhos, apenas a feição leviana na face amarelada, tinha sobrancelhas finas e lábios grossos pintados de laranja. Não reparou na roupa que usava, mas era magra feito uma modelo. Os dedos longos pousados delicadamente sobre os joelhos pontudos, os sapatos de salto deixando-a tão alta e superior que ele não tinha certeza se era mesmo humana. Mas a amava. Humana ou não, amava-a. Sentou-se no asfalto sujo e ficou à espera, ela devia saber e na tentativa de evitá-lo nem sequer se moveu. Depois uma senhora de cabelos grisalhos a puxou para dentro, e ele achou que talvez já tivesse incomodado demais. Ajeitou-se no chão, recostou a cabeça já meio calva, e adormeceu com as carícias da brisa violenta.

30 de dezembro de 2011 § Deixe um comentário

Ela ficou na ponta dos pés, os dedos brancos no piso frio e molhado. Frio e molhado. O beijo dele, frio e molhado. O mundo girando depressa, os olhos dele roubando suas palavras. Perto, mais perto, tão perto. Nem havia mais distância entre os dois. Ele sorriu. Afastou-se, o olhar quente, olhar tropical. Ele era todo de antíteses, todo de paradoxos. Todo de beijos, todo de olhares, todo de perguntas. Ela corou. Ele colocou os dedos sobre a boca dela, saiu correndo. Ela ficou ali, os pés no piso gelado, o rosto queimando.

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