maresia

1 de abril de 2012 § 2 Comentários

Ficou estática, o rosto tão perto do dele que ela não tinha certeza de para onde devia olhar; os globos redondos e negros dançando pela face repleta de sardas, tão clarinhas que eram quase imperceptíveis, sem nunca pousar e permanecer por mais de alguns segundos. Ele era exatamente como o haviam descrito – o olhar meio azul meio verde meio mel meio ébrio com aquele ar inquietante, ela nadava nadava e nadava e não saia do lugar; sentia-se como um peixe dentro do aquário apertado, via seu reflexo na transparência brilhante do vidro e seguia em direção a ele, como se ali residisse o que procurara a vida inteira, mas, no fim, dava de cara com as grades da prisão. Ou talvez não tivesse nada sua história a ver com peixes. Ela só sentia vontade de comer bacalhau.

Ela gostava do cheiro que eles tinham, e gostava do cheiro que ele tinha, por mais que não lhe lembrasse o mar ou a areia. O cheiro dele tinha outras nascentes, tinha outro destino, uma mistura do suor doce com o perfume caro. Era um cheiro novo, mas familiar, era um cheiro tão bom e tão ruim que lhe entorpecia os sentidos, que lhe entrava pelas narinas e pelos lábios, ia abrindo um buraco dentro dela, um buraco destinado ao cheiro. E ela queria, de alguma forma, comer aquele cheiro.

Queria abrir bem grande a boca e engolir toda a essência que ele exalava, queria engolir todo o ar em torno dele. Engolir. Gostava da palavra, mas gostava mais de dizer (e principalmente de escrever) ‘boca’. Era tão mais bonito que lábio, era tão mais voraz. Ela pensava naquilo e quase que se desfazia em risos, porque achava a palavra maravilhosa demais pra ser só palavra. Boca. O buraco negro no meio do rosto, revestido pelo contorno atraente, o buraco negro que engana e atrai, que disfarça e seduz, e no fim engole e pronto, acabou. Toda a crueza e nudez daquela expressão, toda a selvageria daquele túnel que se abria no meio da face… Boca.

A boca dele era toda cheia de dentes, que se mostravam sem pudor quando ele sorria. Tinha um sorriso todo largo e nada tímido, tinha barba por toda a cara e os pelos laranjas estavam mal aparados, como um jardim abandonado do qual se esqueceram de cuidar. Não fazia o tipo dela, de jeito nenhum. Ela tinha arrancado os ruivos da lista de possíveis futuros maridos como arrancava as ervas-daninhas que nasciam em frente a porta de sua casa desde o último… acidente. Mas com ele era diferente. Devia ser algo ‘en la mirada inquietante’. Desejou que não fosse só uma primeira impressão, que não fosse passageiro. Desejou que ele gostasse de Pink Floyd, que gostasse de domingos com chuva, e porque não? Que gostasse dela também. Ela desejava coisas demais. As sardinhas dele (e ela de novo fazia alusão a peixes… qual seu problema, além dos óbvios?) foram desaparecendo no escuro, onde ela era muito mais bonita. Nunca esqueceria que o beijo dele tinha gosto de maresia.

do que foi escrito há algum tempo

16 de janeiro de 2011 § Deixe um comentário

– baseado na obra “Capitães de Areia”, do Jorge Amado. A verdade sobre meu personagem preferido, Sem-Pernas (que merecia um fim melhor…)

Sob a lua, num velho trapiche abandonado, os meninos dormem.

Por ser coxo, chamam-no Sem-Pernas. Tarde da noite, enquanto os outros Capitães descansam de um típico dia de furtos, de roubos, de perigos e de liberdade, ele caminha pelas ruas de Salvador. Os olhos vagam pela cidade, olhando sem nada ver. O vento frio em seu rosto suado, as feições duras, enrijecidas pela vida violenta.

Caminha até chegar à praia. Senta-se na areia branca, as mãos sujas envolvem os joelhos, os olhos estreitos observam as ondas do mar se formarem ao longe e se arrebentarem no areal. A canção do silêncio ecoa em seus ouvidos. Ele fecha os olhos. Pensa em Dona Ester, em tudo o que ela fizera por ele. Lembra dos guardas que o maltrataram, das piadas que faziam à sua custa. Lembra do tempo em que vivia com o padeiro, o homem a quem chamava de padrinho… Os olhos cheios d’água. Lágrimas descem por seu rosto de menino. Menino que vivia como homem, sem nunca ter descoberto o que era ser criança, o que era ter família. Lágrimas de dor, de raiva, de rancor. Lágrimas de remorso, de culpa.

Mãos delicadas tocam sua face, acariciando-a levemente, como uma doce brisa com o cheiro salgado do mar. Abre os olhos. A mulher sorri. Sem-Pernas não consegue se lembrar de tê-la visto alguma vez, mas tem certeza de que a conhece. O olhar confortante da mulher se cruza com o olhar carente do menino. Um sorriso brota dos lábios de Sem-Pernas. Um sorriso doce, inocente, um sorriso de criança. A mulher sorri também, senta-se ao seu lado e põe uma de suas mãos em seu ombro. A pele, um pouco mais clara que a dele, está suja e maltratada. Os lábios finos se curvam num sorriso que não desaparece nunca. Os olhos têm a mesma cor que os do menino, os cabelos longos descendo em ondas até a cintura, negros como uma noite sem lua e sem estrelas.

Os dois olham fixamente para o mar. Ele tem esperanças de que uma onda o arraste para o fundo, e arranque dele todas as mágoas, a tristeza, o rancor que ele nunca fora capaz de perder. Ela não sabe o que pedir ao mar. Tudo o que podia querer estava ali, envolto em seus braços fracos.

-Meu filho… – Sua voz suave era a mais bela de todas as músicas que ele já ouvira e que haverá de ouvir.

Ela beija seu rosto suado, o vento despenteando seus cabelos. Seus olhos se encontram novamente. Ele anseia por explicações, por satisfações. Onde ela estava durante todo aquele tempo? Ela apenas olha para ele e sorri. Seu sorriso soa como um pedido de desculpas. Ela também tem muito que dizer a ele. Quer abraçá-lo, beijá-lo, levá-lo com ela para sempre, mas não pode. A vida é injusta, é complicada. Ele já é um menino crescido. É uma criança, mas conhece melhor as injustiças da vida do que qualquer homem feito. Sem-Pernas segura firme as mãos judiadas da mãe.

-Mãe… Minha mãe… – Ele beija seu rosto, ela põe a mão sobre a face, depois segura a mão de seu filho e a leva até seu peito. Aperta-a com força. Ele se deita em seu colo, ouvindo as histórias que as ondas do mar vêm lhe contar.

A mulher começa a cantar. É uma cantiga que Sem-Pernas nunca tinha escutado; não se lembra de ter ouvido ou de ter cantado. Mas ele reconhece a letra e acompanha sua mãe na melodia triste. Sua voz rouca, quase inaudível, se desfaz em soluços, e a mulher se cala. Uma tristeza que ele não sabe de onde vem invade seu coração, e as lágrimas começam a cair de novo de seus olhos, e descem por seu rosto, e são enxugadas pelos dedos frios de sua mãe. Era a música que ela cantava para ele quando ainda era pequeno, tão pequeno que nem devia se lembrar.

Sem-Pernas fica quieto por um tempo, enquanto chora cada vez mais baixo, até que os soluços e as lágrimas cessam. A mulher sabe o que ele quer perguntar. Antes que ele diga qualquer coisa, ela fita o horizonte, como se voltasse a um tempo distante, e diz que o pai do menino desistiu de viver, porque achava que a vida era muito difícil e não valia à pena. O menino continua em silêncio.

Um vento forte faz os cabelos de sua mãe esvoaçarem, Sem-Pernas apenas olha. É a mulher mais bonita que ele já vira na vida. Se parece um pouco com ele no jeito de olhar, como quem invade a alma do outro através dos olhos e rouba um pedaço dela, leva embora e faz a pessoa querer ir atrás para pegar de volta. O sorriso que nunca some ainda está intacto em seus lábios, mesmo com as lágrimas escorrendo pela face, ele não desaparece. A voz rouca, cansada… Ela também parece achar a vida difícil demais, injusta demais. Os braços longos apertam Sem-Pernas cada vez com mais força. Ela sabe que vai perdê-lo de novo, e logo. Ele é um menino de rua. Um homem da rua. As ruas de Salvador são a casa dele, não existe outro lar senão aquela cidade inteira. Ele e os Capitães da Areia são os donos dali. Tirar Sem-Pernas daquele lugar é como arrancar as asas de um passarinho. O menino, que andava, falava e agia feito homem tinha que seguir o caminho dele, por mais sofrido que fosse.

Sem-Pernas imagina como era seu pai. Devia se parecer bastante com ele, porque da mãe tem apenas os olhos e o sorriso, quase que imperceptível depois de tanto sofrimento que passou. Mas ainda está ali, escondido, por trás de uma expressão dura, aquele sorriso meigo, que nunca desaparece. O sorriso que sua mãe trouxe de volta depois de tanto tempo. No jeito, Sem-Pernas também não se parece muito com sua mãe. Ele tem raiva do mundo, das pessoas, dele mesmo, por ter perdido a única família que um dia ele teve. Mas agora ele tem sua mãe, e não sente raiva. Sente amor. Uma coisa que ele antes não sabia dizer o que era; não acreditava que existisse. Quando via Pirulito rezando, Gato indo ao encontro de sua amada, Professor perdido em meio aos seus livros, achava tudo aquilo besteira. Nunca pensou que podia sentir isso também, nunca acreditou que realmente funcionasse. Mas agora ele estava com sua mãe, e sabia o que era amar alguém. Não sabia que sentia amor, mas sentia. O amor vinha da mãe, e ele sabia disso.

A mulher diz, em meio a soluços, que não pode explicar porque o abandonara. A vida é a vida, tem coisas que acontecem sem motivo aparente. Ela conheceu o pai de Sem-Pernas numa noite de lua cheia, como aquela. O mar enchia os ouvidos dos homens com suas cantigas tristes, e os corações com promessas de que o dia que está por vir será melhor que o que se passou. Os dois se apaixonaram, e dessa paixão nasceu o menino. Mas o pai dele era um homem do mar, não sabia permanecer em terra firme por muito tempo. Ele amava a sua mulher, mas amava ainda mais ao mar. Num dia, sem nem avisar, sem nem se despedir, foi embora. Ela não sabia para onde. Ele também não. Não sabia se ia voltar, sabia apenas que a amava, mas não tinha coragem o bastante para mudar por esse amor. Os dias se passaram, para ela pareciam anos, até que ele reapareceu. Estava diferente, não era mais o mesmo homem forte e bonito de antes. Parecia cansado, temeroso. Nunca disse a ela o que acontecera na viagem, mas ela sabia que alguma coisa tinha transformado aquele seu homem em um corpo vazio, seu espírito morto. Com o tempo, foi desistindo da vida. Ela parecia desgraçada demais para ele. E foi ficando fraco, foi ficando fraco… Até que o corpo, que já não tinha espírito, também morreu. A mulher jogou-o no mar, rezou por ele, embora não soubesse direito em que tinha fé, esperava que as coisas fossem melhorar. E semanas depois nasceu o menino.

Mas a mulher também não via muita graça na vida. Metade dela fora embora com seu amor, e ela não queria saber de lutar por mais nada, por mais ninguém. Então abandonou tudo. O filho, a família, a cidade, abandonou a si mesma por um tempo, por muito tempo. É isso o que ela sabe contar ao seu filho. Não tem explicação para o que fez. Ela sabe que é difícil demais perdoar o abandono, porque ela também nunca perdoou seu amor por tê-la abandonado. Mas Sem-Pernas olha para ela e sorri. Ela reconhece o sorriso, não precisa dizer mais nada. Está perdoada.

O sol ilumina o céu. Sem-Pernas sente os braços cansados de sua mãe se afrouxarem ao redor dele. Ela beija seu rosto. Ele sabe que é um beijo de despedida e tenta prolongá-lo, impedir sua mãe de ir embora. O vento frio da manhã despenteia os cabelos do menino. Ele abre os olhos. Ela não está mais lá, em seu lugar há uma rosa branca. Com suas mãos trêmulas ele recolhe a flor e a leva até sua boca. Beija-a delicadamente, mas com ardor. A rosa tem o cheiro salgado do mar misturado com o aroma doce que emanava da mãe. Uma onda traz de volta a cantiga que escutara durante a noite; traz de volta a lembrança. E pela primeira vez seus olhos sentiram-se úmidos de lágrimas, que não eram causadas pela dor nem pela raiva. Levanta-se, aperta a rosa branca contra seu peito. Despede-se do mar, do vento, da cantiga, das lembranças. Fecha os olhos. Despetala a rosa.

As pétalas caem sobre a areia branca e são arrastadas junto a Sem-Pernas para a imensidão do mar.

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