4 de fevereiro de 2014 § 2 Comentários

Alicia lia Um Amor Para Recordar quando ele se sentou.

Segurava um violão para canhoto coberto de detalhes um bocado femininos. Não que ele houvesse colado todos aqueles adesivos florais ali – o violão era da irmã caçula dele. Também não era canhoto. Mas gostava do violão, e gostava de dedilhar as cordas e emitir sons, ainda que incomodasse os ouvintes. Entrou no ônibus tocando Beatles, e depois Rolling Stones, e depois Legião. Tudo ao mesmo tempo, num inglês indiano cheio de línguas acentos e sotaques que tinham a pretensão de ser britânicos.

Ela depressa escondeu o livro. Escondeu também a lágrima que ameaçava saltar por debaixo das pálpebras, escorregadia e esperta. Não era do tipo que chorava com romances Sparkianos – pelo menos não quando um moço barbado que toca violão entra no ônibus e se senta ao seu lado. Ela era do tipo que pegava Crime e Castigo na biblioteca e devolvia dois dias depois com um ar intelectual de quem saboreou cada frase complexa ao som de Clair de Lune, acompanhada de uma caneca de chá de limão, quando na realidade detestava bebidas quentes e não se atrevera sequer a abrir o livro, maior que sua edição infantil da Bíblia, na qual ela, a propósito, também nunca tocara. Era do tipo que comprava broches com frases de Bukowski (mas quem compra broches com frases de Bukowski?) e os pregava na mochila que carregava todos os dias para a escola, que estampava a capa do fichário com fotografias da Sérvia e customizava as próprias roupas, propositalmente mais largas do que deveriam ser. Ela era toda uma montagem, uma colagem feita com os recortes mais obscenos e previsíveis. Uma tentativa claramente falha de ser exótica, desleixada. Um exemplo perfeito do que, na esperança de se diferenciar, acabava por se tornar a definição precisa de clichê.

– Se você é um pássaro, eu sou um pássaro – ele dedilhou o violão. A voz rouca denunciou um  sotaque sulista, que ele fez questão de carregar enquanto a cantava: – se você é um pááááássaro, um lindo passariiiiiinho, eu serei seu pááááássaro, e voaremos juntiiiiiinhos…

Ela riu. Irritou-se.

– Tá citando o livro errado. Isso ai é de Diário de Uma Paixão.

Denunciada pela presunção.

– Puxa, vocês, fãs de Nicholas Sparks, não nos dão um descanso, hein? Sou um artista, me deixe criar.

Coçou a barba castanha com a ponta dos dedos, as unhas ligeiramente compridas. Alicia não sabia explicar porquê, mas sentiu-se repentinamente atraída por aquele par de mãos largas.

– Fãs de Nicholas Sparks? Por favor, eu só assisti aos filmes. Nunca nem abri um livro dele.

– Esse ai no seu colo você comprou pra usar de enfeite, foi? – tinha um sorriso largo, os dentes brancos contrastando drasticamente com o tom da barba, que por sua vez contrastava drasticamente com o tom da pele, coberta por pintinhas minúsculas que se acumulavam ao redor dos olhos, estreitos, apertados, como se o peso das sobrancelhas grossas fosse demais para ser sustentado por uma dupla tão pequena e tímida.

Alicia se encolheu, cobrindo a contra-capa do livro com as mãos, que logo se tornaram o alvo da atenção dele. Ela se sentiu constrangida, sendo observada com tamanha urgência. As unhas, curtinhas e roídas, estavam cobertas com esmalte preto. Detestava passar esmalte. Tinha as unhas pequenas demais, os dedos nanicos demais.. e a cor preta só enfatizava a grosseria das mãos. Mas mesmo assim as pintava, como forma de protesto. Contra o quê ou a quem, ela não sabia.

– Eu.. estou levando pra uma amiga. Não é meu. É da minha irmã. Eu não li e nem pretendo, mas uma amiga minha pediu e eu resolvi emprestar…e… eu… eu não te devo explicações, na verdade. Eu nem te conheço.

Ele desviou o olhar. Coçou o pescoço, e ela mais uma vez reparou nos dedos, nas mãos. O que tinha que se coçava tanto? Devia ser o calor, insuportável dentro daquele ônibus. Fim de janeiro, o sol ardente se debruçando sobre as janelas abertas. O vento entrava e espalhava o cheiro do perfume dela (jabuticaba), que se debatia contra o cheiro do perfume dele (creme de barbear, desodorante e suor), e as essências dançavam ao redor dos corpos, se uniam aos cheiros dos assentos, dos outros passageiros, do cigarro da senhora gorda que fumava no banco de trás.

– Calma, eu só perguntei. E você não me engana, sei que o livro é seu. Já deve ter lido umas quinhentas vezes, olha só essas orelhas… Sabe os diálogos de cor.

– Minha irmã sabe os diálogos de cor. Eu não sei nem o título.

Ele a observou por alguns instantes.

– Mesmo?

Ela alisou a contra-capa do livro.

– Ok… talvez eu tenha lido algumas páginas. Você sabe… só folheado.

– Claro. – Ele riu. O sotaque sulista caprichado de novo, a voz propositalmente mais aguda, numa imitação grotesca da voz dela – “Só folheado…”. “Só lido quinhentas e quarenta e nove vezes. Esse ano.”

Ela o acertou com o livro, no ombro. Ele imediatamente suspendeu o riso e a encarou. Não que já não o estivesse fazendo desde que se sentara ao seu lado – seus olhos iam e vinham pelo rosto de Alicia, desciam até o pingente de olho grego que adentrava, indiscretamente, o decote generoso, revelador do par de seios realmente pequenos, no qual seus olhos fizeram questão de se demorar. Os mesmos dançavam pela pele morena, pelos braços nus, pelas mãos descuidadamente depositadas por sobre o livro, pelas coxas lisas que se cruzavam e se mostravam por debaixo da saia amarela, pelos pés um tom ligeiramente mais claro que as pernas, enfiados dentro de rasteirinhas. Mas agora o olhar que se dirigia a ela era diferente. Como se de repente ele não fosse mais um moço estranho, acompanhado de um violão e de um gosto musical requintado, que se sentara, por acaso, ao seu lado no ônibus, em uma quarta-feira insuportavelmente quente. Como se eles fossem antigos amigos, que se reviam depois de muito tempo separados.

Alicia se sentiu estranhamente incomodada. Abaixou o rosto, colocando uma mecha descolorida do cabelo atrás da orelha. Vira essa cena em milhares de filmes, lera a respeito em centenas de livros. Não sabia exatamente porque, mas queria que ele a encarasse por mais alguns segundos, e encontrasse naquele gesto uma deixa. Ela podia ver, através de sua visão periférica, que ele continuava a observar, com as duas mãos segurando o violão, que se encontrava no meio das pernas. Sentiu-se envergonhada. Por ler Nicholas Sparks no ônibus. Por estar tão envolvida em um diálogo com um desconhecido. Por gostar tanto das mãos dele. Por tê-lo acertado com um livro no ombro. Por querer desesperadamente ser bonita aos olhos dele.

Ele pigarreou. Franziu o cenho (porque vira isso em milhares de filmes, e lera a respeito em textos na Internet), coçou a barba. Sentiu-se subitamente estranho. Por estar com o violão para canhotos da irmã, quando ele era destro e mesmo com um violão adequado não sabia tocar. Por esse violão estar repleto de desenhos demasiadamente femininos. Por não conseguir tirar os olhos de uma desconhecida. Por achar uma graça ela ler Nicholas Sparks dentro de um ônibus lotado. Por carregar tanto o sotaque, em uma tentativa (que não era, no final das contas, tão falha) de se parecer um pouquinho com Thiago Lacerda naquela série da Globo. Por achar a moça tão bonita.

– Vocês, mulheres, não resistem a esse tipo de história. Esse tipo de mentira compacta que vendem em livrarias e cinemas. Essa baboseira toda de homem ideal, com olhar e cabelo de Zac Efron e comportamento de príncipe medieval. – Seu olhar era sério, mas ele sorria de um jeito debochado. Alicia se perguntou se aquilo era uma crítica disfarçada de piada, ou o contrário. Não sabia o que dizer – porque no fundo era verdade. Apesar de ela definitivamente trocar qualquer mocinho com rosto de ator americano por um rapaz que não sabe tocar violão e tenta falar como gente do sul.

– Você entende bastante de Nicholas Saprks, pelo visto.

– Eu… tenho uma irmã mais nova.

– É ela que compra os livros pra você? – Alicia riu. Ergueu uma das sobrancelhas, como fazia quando sabia que havia vencido uma discussão. Ele abaixou a cabeça, como que se rendendo. Coçou a abertura estreita que havia entre as sobrancelhas com a ponta do polegar. Respirou fundo, espreguiçou-se. Tinha as costas largas, a camiseta cinza sem estampa já toda manchada de suor.

– Exato. E também foi ela quem comprou esse violão pra mim, escolhido a dedo. Fiquei sem jeito de ir até a loja buscar…

– É a sua cara,…

Alicia interrompeu a frase, esperando pela continuação. Não sabia o nome dele.

O ônibus parou no ponto. Alicia teria de descer. Ele se ergueu, segurando o violão. Ela recolheu a bolsa, largada no chão, ajeitou a saia e se enfiou entre a poltrona da frente e o corpo dele. Era mais alto do que achou que seria. Os olhos dela ficavam na altura do peito dele; ergueu a cabeça, ligeiramente tonta com o calor e a proximidade, e o cheiro forte do desodorante. Não havia tempo para despedidas, ou apresentações. Saiu do ônibus correndo.

Ele continuou de pé, até o ônibus voltar a andar e derrubá-lo no banco. Foi depositar o violão no assento ao lado, e encontrou nele o livro. Sorriu. Sentia ainda, no ar, a presença do perfume cítrico dela. Não sabia dizer o que era, mas gostava. Através da janela, observou-a correr em direção ao outro lado da rua, provavelmente atrasada para o que quer que a esperasse. Escola? A suposta amiga que queria o livro? Um namorado?

Enquanto o corpo magro se afastava e desaparecia à luz do sol, ele imaginava os mil destinos que a encontrariam na esquina a seguir. Comporia uma música sobre ela. A garota sem nome, sem seios, sem despedidas. A garota que lia Nicholas Sparks escondida. Abriu o livro.

“Alicia,

Continue fingindo gostar de autores russos e intelectuais alemães. Mas, nas horas vagas, dedique-se ao que seu coração realmente ama: livros que dão ótimas adaptações cinematográficas de histórias clichês hollywoodianas. Faça bom proveito .

Antônio”.

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