30 de dezembro de 2011 § Deixe um comentário

As palavras atingiram os ouvidos de Nicole como tiros.

Onde estava o sangue? Descia-lhe pelo rosto, um suicídio de lágrimas. O gosto salgado da dor, não devia ser amargo? Estava cansada demais para pensar, onde estavam seus remédios, onde estava o torpor? Porque continuava doendo, mesmo sem ferida nem corte? Doía. A luz invadia o quarto escuro pelas frestas da janela, exatamente como o sentimento intruso, abrindo caminho por entre seus lábios, os beijos, os gritos, os tiros… A sensação. Por que o melhor sentimento é também o mais destrutivo? Ela sentia vontade de vomitar. Colocar pra fora a sensação de perda, colocar pra fora as entranhas, que é pra ver se ele volta, pra recolocar no lugar. Era médico, não era? Volta. Conserta. Faz uma cirurgia pra tirar dela o coração baleado, que ela já disse que não é à prova de balas. A luz do sol invadia o quarto. Quer dizer que é dia, amanheceu. Sobreviveu. É diferente, ela sabia. Sobreviver não equivale a viver, o médico não era o mesmo que oxigênio. Mas qual dos dois preferia? A resposta abriria um buraco ainda maior, ela sabia. É que tudo era muito sem sentido e injusto. Ele vem, ele dá amor, ele apaga as pegadas antigas. É pra ter espaço para suas próprias. Colocou o telefone no gancho. Enrolada nas cobertas, sentia um calor torturante, do tipo que parece queimar o corpo. E o que restaria, as cinzas? A dor ficaria ali, ela sabia. Se ficaria, pra que se queimar, pra que se desfazer? Doeria do mesmo jeito. Deixou-se cair na cama, o som perturbador dos batimentos cardíacos. Quais foram as palavras? Ele disse que não era culpa dela, não era culpa de ninguém. Então quem pagaria pelas cicatrizes? Que nome ela devia gritar? O nome dele. Mas ela nem sabia mais quem era ele. Deitada ali, sentindo pesar sobre seus ombros o cansaço. Ela ficará melhor depois, não ficará, doutor? Ele disse que sim. Que passa, que esquece. Que o tempo apaga. Apaga. Apaga. Por que não apaga logo, por que não passa um vento forte e ensurdecedor por sobre as declarações torturantes dele? Passa, passa depressa. Ela só queria poder voltar para os braços fortes dele. Mas não era culpa dela, não era culpa de ninguém.

Onde estou?

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