11 de outubro de 2012 § 2 Comentários

“manhã de janeiro.
os carros trafegam, os pássaros voam, as tartarugas fazem amor.”

As tartarugas fazem amor. As sobrancelhas grossas se uniram formando uma linha curva acima do nariz, que brilhava em suor. A mão direita foi escavando a terra, apalpando com os dedos curtos as pedras e a areia e o capim. Encontrou o lápis. Riscou as linhas que havia rabiscado. As tartarugas não fazem amor.

Tinha essa obsessão por quintas-feiras, começando pelo plural. Sentada sobre a grama recém-cortada, Núbia observava o sol escaldante se derramar como óleo por sobre as copas armadas das árvores, que cobriam o céu líquido feito um véu esverdeado. Estava ali desde o início do dia, mas ainda não tinha nada. Havia algo grandioso a respeito daquele lugar – talvez fosse a ausência do tempo, que parava para assistir ao sol se pôr; talvez fosse o cheiro da paz, que entrava pelos olhos e pelas narinas e pelos ouvidos. Talvez fosse o senhor sentado no banco, que lia. Mas nada disso era capaz de lhe trazer o que precisava: as palavras que reteve como água represada nas pálpebras durante a manhã toda. Estavam dentro dela, podia sentir. Usando as unhas como pinças para escalar a parede da garganta, se arrastavam como bichos e se agarravam aos cílios, aos lábios, ao corpo. Pisavam com salto agulha dentro do estômago dela, faziam guerra com as borboletas, depreciavam as músicas e os poemas. Tinha de cuspi-las para fora, atira-las no asfalto. Se ao menos pudessem usar a saída de emergência, se aos menos se dirigissem às pupilas… mas era mais interessante permanecer no meio caminho, o estorvo do sentimento que é simples e conciso, mas se prolonga e disfarça, engorda dez quilos para pesar e ocupar espaço. O problema é que com Núbia, os males não se sentiam espantados. Ou ela escrevia, ou nunca mais eles se mudavam – e ela definitivamente não sabia escrever.

Um caderno cheio de linhas, e só falava sobre as tartarugas. Enterrou a face na folha amarela. “Tartarugas não fazem amor”.

– Yo conozco a algunos que lo hacen.

Ergueu os olhos que se escondiam por detrás da armação dos óculos e encontrou o par de pés. Arranhou o pescoço com a ponta do lápis. “Melhor fingir que não escutei, talvez ele resolva ir embora”.

– ¿Qué estás leyendo?

O homem coçou a barba com as costas da mão. Tinha os olhos cautelosos e os cabelos desgrenhados – mas em contraste à agressividade enfatizada pelas sobrancelhas, o sorriso se mostrava absurdamente inofensivo. Núbia não respondeu. Ele se abaixou, ajoelhando-se para ficar do mesmo tamanho que ela. Limpou os dedos arroxeados na camisa desestampada e ajeitou-lhe os óculos  que haviam deslizado para a ponta arrebitada do nariz.

– Desculpa, eu não falo espanhol. Mas acho pontos de interrogação ao contrário muito atraentes.

– Obrigado – ele disse. Continuava sorrindo.

Por um instante Núbia pensou em correr para longe, e em se jogar com força no chão. Depois pensou em ficar, e dizer que apesar da barba e do jeito simpático, não falava com estranhos – e ele era bem estranho. Mas, em vez disso, chegou mais perto e cheirou o cabelo dele. Não havia motivo para aquilo. Mesmo assim o fez.

– Eu perguntei o que você tá lendo.

Então ele falava português.

– Então você fala português.

– Só quando não tenho escolha. Então você não fala espanhol.

– Só o tempo todo. Desculpe, não falo com estranhos.

– Mas você cheirou meu cabelo. Eu não sou mais um estranho.

Núbia ponderou. Em contrapartida ao cheiro bom de cabelo recém-lavado, ele ainda podia ser um louco ou um tarado ou um sociopata ou um serial killer ou um cara que fingia ser amigável e sorridente, mas na verdade só queria uma grande aventura romântica. ‘Por favor, tudo menos grandes aventuras românticas.’

– E como eu vou saber se você não lavou o cabelo de manhã só pra tentar me enganar?

– A questão não é essa – o homem que devia ter um nome, mas provavelmente não gostava muito dele, apoiou as mãos em cima dos joelhos e ficou encarando a cicatriz que ela tinha debaixo do olho esquerdo.

– E qual é, então?

– O que você está lendo.

Suspirou. Arrastou discretamente o livro jogado no chão para debaixo da bolsa –  não diria que estava lendo Crepúsculo. Não para um homem aparentemente sem nome, que falava espanhol e tinha cheiro de xampu.

– Ensaio sobre a cegueira.

– É legal?

– É bom. Mas eu não estou aqui pra ler. Nem pra falar com você, aliás.

Núbia se levantou e recolheu suas coisas, escondendo o livro enquanto enfiava o caderno e os lápis na mochila, depressa.

– Pra que está aqui?

– Pra escrever. Mas não consigo.

Ele também se levantou. – Eu podia te ajudar. Tenho uma boa história.

Os dois permaneceram ali,  escutando o som curioso das árvores assobiando. Um de frente para o outro, os olhos dela nas mãos dele, as mãos dele no ombro dela.

– Ok. Por que você me ajudaria?

– Porque eu estou com essa música na cabeça, e preciso que alguém a arranque daqui. Se eu te der uma história, você faz a cirurgia?

– Então além de intrometido você também é louco. Olha, eu vou embora. Fique aqui. Não se mexa. Tá tudo bem, vou me afastar com calma…

– É sério. Eu só queria conversar. Mas não com qualquer pessoa. Eu preciso de algum desconhecido, alguém que não faça ideia de quem eu sou. Alguém com quem eu possa me sentar e falar. Alguém que não saiba nada de espanhol.

Núbia riu.

Mas não foi assim. Descrever o momento é quase como apagar toda a cor. O riso dela era roxo, e tinha cheiro de lavanda. Tinha gosto de amora. Tinha um quê de poeta. Era um riso de reconciliação. Quase como se as palavras presas na garganta estivessem pouco a pouco se libertando, conforme ela cantava.

– “Y así llegaste tu, devolviéndome la fe…sin poemas y sin flores, con defectos, con errores, pero en pie…”. Acho que eu não sirvo para o posto.

– Mas você disse que não falava espanhol…

(Ela percebeu que não tinha reparado, os olhos dele eram da cor do céu.)

– Eu não falo, eu canto. E não entendo.

– Você disse que quer uma história. Que aceita tomar um café. Que acha que meu nome é Gabriel.

– Eu acertei?

– Não. Meu nome é Juan.

– Gabriel seria mais apropriado. Eu aceito o café.

– Eu sei que sim. Eu não tenho uma história.

Núbia mordiscou o lábio inferior. – Eu ainda preciso de uma.

– Nós vamos resolver isso. Você vai ver.

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da tristeza de um menino que batizo de Rafael e suas lágrimas que lhe desciam pelo rosto como a chuva desce pelas ruas asfaltadas da minha cidade

13 de novembro de 2011 § Deixe um comentário

O dia amanhecia enquanto os olhos dela enchiam meu céu de estrelas. Aquele sorriso singular se abrindo por entre as pálpebras enquanto os lábios pintados de púrpura permaneciam fechados, imóveis, colados em meu ombro, deixando nele a marca do batom. Passei as mãos pelos cabelos dela, os dedos brancos deslizando pela floresta de fios escuros que lhe desciam quase até a cintura. Podia sentir sua respiração, o peito se enchendo de ar e depois o libertando, vento frio soprando palavras sinceras em meu rosto.

– Vai sentir minha falta?

Ela disse, de repente, tão baixinho que eu quase não pude ter certeza de que haviam sido mesmo aquelas as palavras. Seus olhos estavam abertos, duas esferas escuras me examinando como se eu fosse um livro aberto, as palavras escritas na minha face, nenhum enigma, nenhum segredo.

– Claro que vou. – foi tudo o que consegui dizer. Havia mais, muito mais a ser dito, mas eu não sabia como fazer aquilo – achar um jeito de explicar como eu me sentiria quando fosse embora. Porque, na verdade, eu não conseguia imaginar como seria. Não conseguia me imaginar acordando durante a manhã sem ter seus cabelos espalhados pelo meu peito. Não ter suas mãos presas entre as minhas, a mancha do batom impregnada no travesseiro, o rosto delicado colado ao meu. Nada daquilo parecia plausível, possível, real. Eu estava por demais acostumado a tê-la junto a mim, e agora teria de me olhar no espelho sem vê-la refletida ao meu lado. A ideia soava assustadora e terrível.

Ela pressionou os lábios um no outro, depois me beijou delicadamente o ombro. – Vou sentir sua falta também. Muito mais do que imagina.

Seus olhos estavam secos, mas eu podia sentir as lágrimas lhe caindo por dentro.

Começou a chover. Ela se aproximou de mim, os braços me envolveram e me apertaram até que nos tornamos um só. Meus dedos dançavam sobre sua pele, a sinfonia de silêncios e o cheiro dos nossos perfumes embaralhados no quarto escuro.

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