10 de julho de 2012 § 5 Comentários

Foi escorregando para o fundo da banheira até que toda a cabeça estivesse submersa, os cabelos tingidos de vermelho ficaram flutuando no meio da espuma que cheirava a morango enquanto ela apertava com os dedos enrugados os olhos fechados – mas mesmo no escuro ainda o enxergava claramente. Daniel. Ergueu-se abruptamente, as gotas de água respingando do cabelo como as gotas de Júpiter sobre as quais o cantor com sotaque caipira gritava no rádio – ‘agora que ela está de volta à atmosfera…’ Não estava. Sentia-se alheia a tudo aquilo, como se em algum momento lá atrás tivesse sido transportada para um outro planeta, uma outra galáxia, talvez, e desde então assistisse aos acontecimentos alojada em uma estrela cadente, sem nunca interferir ou participar.

Chá verde

23 de junho de 2012 § 8 Comentários

Lóri N., a dor não é motivo de preocupação. Faz parte da vida animal.

Esse livro veio parar na minha estante, e eu não quero que você pense que eu amoleci e leio coisas de mulherzinha. Em minha defesa, foi por causa de uma dissertação.  É só que… me fez pensar em você. Todo o tempo. Eu te vi na Lóri, você sabe… você sabe porque também se viu, quando leu. Lembro de como ficou toda emocionada, toda empolgada, tinha se encontrado no livro. Te encontrei lá também. Eu pensei em você, e no porque de você chorar quase toda noite. Por que, N.? Por que gosta de fazer isso consigo mesma? Não é tão divertido quando não há algo pelo que se arrepender? Quando não há motivo para sentir dor? Acho que a questão é essa – a espera. Você espera demais, e de tudo. Da vida, dos outros, de você. E eu só espero que você um dia perceba – e porque não hoje? Por que não agora? Abra esses olhos ligeiramente tortos, meu amor, abra e veja, é tão claro. Abra e respire, inspire, enxergue… sinta tudo com os cílios, as pálpebras… sinta tudo e transborde (esse ‘transborde’ soou meio gay?) – que não importa o quanto você espere, não importa. Você pode esperar por um dia ou um mês, um mês ou um ano, nada nunca vai ser do jeito que você quer; As pessoas – não chore, tá bem? – não vão ser como você quer que sejam, porque… bom, N., porque elas são pessoas. E esse é o ponto. A espera não ameniza, ela só piora. Ela só adia. Esperar não vai deixar tudo mais fácil – sabe essa história de que o tempo tem o poder de mudar as coisas? É mentira. O tempo não muda nada. Só atitudes mudam, e eu não quero que isso soe como uma lição de moral, ou um sermão de igreja, mas já tentaram esperar antes. E não funcionou.

Eu detesto essa sensação que me invade toda vez que te escrevo, como se eu estivesse falando bobagem, ou sei lá. Eu só… eu só detesto a ideia de que você desperdiça seus anos e sua face e suas fronhas com lágrimas e palavras duras quando tudo podia ser leve e doce. Sabe do que você precisa? De um grito. Dê um grito. Um palavrão, um elogio, um substantivo abstrato, qualquer coisa. Um nome. A palavra proibida. Lembra dela? Porque não quebra a regra e grita? Bem alto, até sentir que toda a força e toda a raiva e toda a agressão e toda dor se foi, porque é um grito que te rouba as energias e a voz, que te tira o espírito e o devolve limpo e tranquilo, novo. Grite, N. Grite, amor. Grite por mim, no meio da rua, enquanto os carros correm e as pessoas vivem. Grite enquanto os outros olham e pensam em como você é bonita. Porque você é. E eu te amo. Não basta? Não. Pra você nunca nada vai bastar – mas tudo bem. Sei disso, e faz parte. Parte dessa sua natureza linda e complicada.

Um dia isso vai ter passado, e você vai ver que nada é pra sempre, N. Nada dura tanto a ponto da gente não poder olhar pra trás e ver que é verdade o que dizem por ai: juventude é sinônimo de ingenuidade – os jovens são todos bobos (mas eu nunca disse que ser bobo é ruim). Acho que é assim que a vida funciona… envelhecer não é fácil pra ninguém, porque envelhecer é conhecer, é descobrir. E conforme a gente chega perto das respostas, conforme a gente conhece o mundo e se conhece, percebe que não é como ensinaram pra gente. As coisas não são tão simples. Mas a gente pode fingir que são.

Eu vou te deixar só, pra você poder gritar. Escute Keane, Oasis e Jaymay. Não resista tanto – eu não quero que você chore, mas não quero que se aprisione. Sentir é natural, N. Sofrer é natural, e mudar é natural. Não mudar pode ser também. Não se cobre tanto, porque o propósito não é chegar lá (seja lá o que lá for) mais depressa que os outros. Aliás, não há propósito. Leia Clarice, e escreva também. Desenhe olhos no rodapé da apostila, e rabisque uma palavra bem feia na última página de um livro. Pinte de vermelho e pronuncie. E se perdoe. E então eu vou voltar, pra ouvir você recitando Quintana. Adeus, N. Eu ainda sou seu.

D.”

 

ps1: Vermelha 2, obrigada por me apresentar Jaymay, mesmo que indiretamente (é, andei fuçando nas suas coisas,  rs).  O som dela é lindo e me acompanhou durante essa noite.

ps2: Eu preciso de Clarice. Urgentemente.

ps3: É. As coisas só pioram. Hm.

Apartment

14 de abril de 2012 § 6 Comentários

, a música soava familiar, embora ela estivesse certa de que nunca a escutara antes. Era algo na forma como o vocalista gritava as palavras que ela a muito custo conseguia traduzir – “depois de deixar meu apartamento eu sinto esse frio dentro de mim“. Depois de deixar a cidade ela sentia o frio se aproximando, não como a brisa doce cheirando a kiwi pela qual tanto ansiava durante as tardes longas e mormacentas de verão, mas como o frio impessoal e barulhento, o frio nebuloso e solitário que era digno de um filme europeu de final infeliz. O tipo de frio que, ela sabia, arrepiava o coração, e não os pelos do braço.

Ficou aliviada por ter ligado o rádio quando saíram de casa ou teria que iniciar e, o que era muito pior, manter uma conversa por todo o percurso. Aquilo seria impossível, considerando as circunstâncias. Derramou o olhar gélido por sobre o vidro embaçado da janela e se obrigou a lembrar quais eram as circunstâncias. Em primeiro lugar, Roberto está noivo. Noivo. Soletrou a palavra duas ou três vezes, para que a memorizasse bem e não corresse o risco de se esquecer momentaneamente de seu significado. Em segundo lugar, Roberto era seu amigo. Não, não era apenas seu amigo. Era seu melhor amigo. Aquela palavra tão pequenininha e tão carregada de acepção mudava a história toda. Ela tinha dezenas de amigos, todos eles muito adultos, maduros, íntimos. Todos eles eram maiores de idade, todos eles saiam com ela para beber nos finais de semana, todos eles se reuniam na casa de alguém para torcer e xingar em dia de jogo de futebol. Mas o adjetivo nanico que precedia o companheiro de festas e estudos mudava tudo: Roberto era quem estava lá quando ela não conseguia pregar os olhos durante a noite por causa da chuva. Roberto era quem estava lá quando ela tirava uma nota terrivelmente baixa (ou não tão terrivelmente baixa assim) e não sabia como parar de chorar. Roberto era quem estava lá quando ela acidentalmente bebia demais, e todos os outros queridos íntimos já haviam abandonado o bar há horas. Roberto, o garoto de cabelos escuros caídos por sobre os ombros largos como duas cortinas feitas de noite. O garoto do sorriso desnudo. O garoto do primeiro beijo. O garoto.

Qual era mesmo a circunstância? Alice esbarrou sem querer os olhos nele, tinha o queixo contraído, e nesses momentos era inevitável se lembrar do pai – só que ela nunca dizia o quanto os dois eram parecidos, porque sabia o quão irritado Beto ficaria. Afinal de contas, ninguém quer se parecer com um monstro. Mas era um monstro bonito, ah, era sim. Ela nunca mencionou o tropeço que tinha pelo ‘tio’ barbudo, aquela voz meio rouca e aquele jeito revolucionário, gostava de se sentar na varanda e ficar tocando violão, umas músicas em espanhol que faziam Alice inventar traduções alternativas, cada palavra um novo significado só dela. De certa forma ela sabia que um dia Roberto cresceria e ficaria a cara do pai, só não sabia que isso geraria mais que um tropeço – muito mais.

Roberto abaixou o volume do rádio, e Alice sentiu vontade de tirar os dedos dele dali e aumenta-lo de novo – ‘você não vai me obrigar a falar, vai? Por favor…’. Agora o carro estava parado, estacionado no encostamento. Havia árvores ao redor, estavam se aproximando da cidadezinha de habitantes alienados e fofoqueiros, todos uma gracinha, mas ainda não haviam chegado lá, Alice não suportaria um final de percurso repleto de conversa quando ela ainda discutia consigo mesma a respeito de que diabos estava fazendo ali.

– Você sabe que temos um combinado, não sabe?

Ela se obrigou a manter os olhos longe dos dele, e ainda assim era capaz de sentir a palavra se desvanecendo como se estivesse exposta às gotas de chuva que caiam lá fora. Noivo… noiv… no… O que era, mesmo?

– Como?

Os dedos de Roberto saltaram do botão para o rosto pálido dela, e aquele contato fez com que ela estremecesse. Depois de tirar delicadamente os fios de cabelos ressecados e distribuí-los metodicamente atrás das orelhas perfuradas, virou a face branca para ele. – Eu só estou te levando pra casa da sua mãe porque sei que a situação é delicada. Mas eu quero você de volta. E a tempo.

“Eu quero você de volta.” Queria mesmo? Com todos os defeitos, com todas as crises existências, com toda a feiura do rosto e a graça do corpo, com todo os adendos e com toda a paixão por Radiohead? Ah, se quisesse a teria, teria, sim. A Alice dos velhos tempos, dos tempos novos, do futuro e do felizes para sempre. Ficou deliciando a frase pelo momento em que foi possível, até que se sentiu obrigada a dar uma resposta, – A tempo…?

– O casamento.

– Ah.

Roberto franziu o cenho. Claro, o casamento. Do que ela achou que estivessem falando? Por favor, Alice, não torne as coisas mais complicadas do que já são. Como ele podia lhe pedir isso? Alice era a complicação em forma de gente pequena, sempre foi. Pedir para não complicar era como pedir para não ser – e nem ele nem ela queriam isso. Seja, Alice. Mas seja com calma, devagar, como tem que ser.

– Você vai.

Não era uma pergunta. Alice tinha vontade de chorar, só não entendia porquê; ela foi a primeira a saber do casamento, lembrava-se de estar em casa assistindo a Friends quando ele telefonou eufórico, mal conseguia falar, ‘Vou casar, Alice! Vou casar!’. E agora esse desespero súbito, essa necessidade de transformar em lágrima tudo o que ela não disse na ligação e tudo que ela não disse depois, não ia dizer agora e não chegaria a dizer nunca.

– Claro. Claro que sim. É só que… Você sabe, mamãe tá muito doente. Eu preciso ficar com ela, ela está tão velhinha, coitada. Eu tenho que ir, sabe. Mas eu volto, quando ela estiver melhor. Eu… não perderia isso, por nada. E é claro que mamãe vai melhorar logo.

Roberto sorriu porque sabia que era mentira, toda aquela história de não perder o casamento por nada.  E ele achava graça em assistir-lhe enquanto fingia – ela ficava rosa e agitada, as palavras vinham num fluxo exagerado, uma ideia atropelando a outra.

– Mas é claro. Eu vou te buscar, e te levar à força, se você não for com seus próprios pés.

Eles riram, e soavam tão bonitos rindo juntos. Alice tinha um ótimo dedo para melhores, e aquele era melhor em especial, era Beto. Seria um marido incrível, e um pai incrível, porque era um ser incrível. Então ela o beijou.

ps: Vermelhinha 1, por que eu sempre subestimo seus conselhos musicais? Fui ouvir essa banda agora e só depois de semanas passadas desde sua indicação me dei conta do quanto ela é incrível. Obrigada, hehe, vou roubá-la pra mim.

30 de dezembro de 2011 § Deixe um comentário

As palavras atingiram os ouvidos de Nicole como tiros.

Onde estava o sangue? Descia-lhe pelo rosto, um suicídio de lágrimas. O gosto salgado da dor, não devia ser amargo? Estava cansada demais para pensar, onde estavam seus remédios, onde estava o torpor? Porque continuava doendo, mesmo sem ferida nem corte? Doía. A luz invadia o quarto escuro pelas frestas da janela, exatamente como o sentimento intruso, abrindo caminho por entre seus lábios, os beijos, os gritos, os tiros… A sensação. Por que o melhor sentimento é também o mais destrutivo? Ela sentia vontade de vomitar. Colocar pra fora a sensação de perda, colocar pra fora as entranhas, que é pra ver se ele volta, pra recolocar no lugar. Era médico, não era? Volta. Conserta. Faz uma cirurgia pra tirar dela o coração baleado, que ela já disse que não é à prova de balas. A luz do sol invadia o quarto. Quer dizer que é dia, amanheceu. Sobreviveu. É diferente, ela sabia. Sobreviver não equivale a viver, o médico não era o mesmo que oxigênio. Mas qual dos dois preferia? A resposta abriria um buraco ainda maior, ela sabia. É que tudo era muito sem sentido e injusto. Ele vem, ele dá amor, ele apaga as pegadas antigas. É pra ter espaço para suas próprias. Colocou o telefone no gancho. Enrolada nas cobertas, sentia um calor torturante, do tipo que parece queimar o corpo. E o que restaria, as cinzas? A dor ficaria ali, ela sabia. Se ficaria, pra que se queimar, pra que se desfazer? Doeria do mesmo jeito. Deixou-se cair na cama, o som perturbador dos batimentos cardíacos. Quais foram as palavras? Ele disse que não era culpa dela, não era culpa de ninguém. Então quem pagaria pelas cicatrizes? Que nome ela devia gritar? O nome dele. Mas ela nem sabia mais quem era ele. Deitada ali, sentindo pesar sobre seus ombros o cansaço. Ela ficará melhor depois, não ficará, doutor? Ele disse que sim. Que passa, que esquece. Que o tempo apaga. Apaga. Apaga. Por que não apaga logo, por que não passa um vento forte e ensurdecedor por sobre as declarações torturantes dele? Passa, passa depressa. Ela só queria poder voltar para os braços fortes dele. Mas não era culpa dela, não era culpa de ninguém.

21 de novembro de 2011 § Deixe um comentário

– Mas ninguém morre de amor – ela disse. – Você pode sofrer, e chorar, e sentir que seu coração está sendo picotado em mil pedacinhos, e depois atirado sobre o fogo. Vai doer, e pode doer muito. Mas você não morre. Você não ouve por ai gente dizendo ‘ah, ela morreu de amor’. Não dá. Isso te machuca, machuca muito. Mas passa. Como tudo na vida, entende?

As duas ficaram ali, no meio das lágrimas e do silêncio.

da tristeza de um menino que batizo de Rafael e suas lágrimas que lhe desciam pelo rosto como a chuva desce pelas ruas asfaltadas da minha cidade

13 de novembro de 2011 § Deixe um comentário

O dia amanhecia enquanto os olhos dela enchiam meu céu de estrelas. Aquele sorriso singular se abrindo por entre as pálpebras enquanto os lábios pintados de púrpura permaneciam fechados, imóveis, colados em meu ombro, deixando nele a marca do batom. Passei as mãos pelos cabelos dela, os dedos brancos deslizando pela floresta de fios escuros que lhe desciam quase até a cintura. Podia sentir sua respiração, o peito se enchendo de ar e depois o libertando, vento frio soprando palavras sinceras em meu rosto.

– Vai sentir minha falta?

Ela disse, de repente, tão baixinho que eu quase não pude ter certeza de que haviam sido mesmo aquelas as palavras. Seus olhos estavam abertos, duas esferas escuras me examinando como se eu fosse um livro aberto, as palavras escritas na minha face, nenhum enigma, nenhum segredo.

– Claro que vou. – foi tudo o que consegui dizer. Havia mais, muito mais a ser dito, mas eu não sabia como fazer aquilo – achar um jeito de explicar como eu me sentiria quando fosse embora. Porque, na verdade, eu não conseguia imaginar como seria. Não conseguia me imaginar acordando durante a manhã sem ter seus cabelos espalhados pelo meu peito. Não ter suas mãos presas entre as minhas, a mancha do batom impregnada no travesseiro, o rosto delicado colado ao meu. Nada daquilo parecia plausível, possível, real. Eu estava por demais acostumado a tê-la junto a mim, e agora teria de me olhar no espelho sem vê-la refletida ao meu lado. A ideia soava assustadora e terrível.

Ela pressionou os lábios um no outro, depois me beijou delicadamente o ombro. – Vou sentir sua falta também. Muito mais do que imagina.

Seus olhos estavam secos, mas eu podia sentir as lágrimas lhe caindo por dentro.

Começou a chover. Ela se aproximou de mim, os braços me envolveram e me apertaram até que nos tornamos um só. Meus dedos dançavam sobre sua pele, a sinfonia de silêncios e o cheiro dos nossos perfumes embaralhados no quarto escuro.

do que foi escrito há algum tempo

16 de janeiro de 2011 § Deixe um comentário

– baseado na obra “Capitães de Areia”, do Jorge Amado. A verdade sobre meu personagem preferido, Sem-Pernas (que merecia um fim melhor…)

Sob a lua, num velho trapiche abandonado, os meninos dormem.

Por ser coxo, chamam-no Sem-Pernas. Tarde da noite, enquanto os outros Capitães descansam de um típico dia de furtos, de roubos, de perigos e de liberdade, ele caminha pelas ruas de Salvador. Os olhos vagam pela cidade, olhando sem nada ver. O vento frio em seu rosto suado, as feições duras, enrijecidas pela vida violenta.

Caminha até chegar à praia. Senta-se na areia branca, as mãos sujas envolvem os joelhos, os olhos estreitos observam as ondas do mar se formarem ao longe e se arrebentarem no areal. A canção do silêncio ecoa em seus ouvidos. Ele fecha os olhos. Pensa em Dona Ester, em tudo o que ela fizera por ele. Lembra dos guardas que o maltrataram, das piadas que faziam à sua custa. Lembra do tempo em que vivia com o padeiro, o homem a quem chamava de padrinho… Os olhos cheios d’água. Lágrimas descem por seu rosto de menino. Menino que vivia como homem, sem nunca ter descoberto o que era ser criança, o que era ter família. Lágrimas de dor, de raiva, de rancor. Lágrimas de remorso, de culpa.

Mãos delicadas tocam sua face, acariciando-a levemente, como uma doce brisa com o cheiro salgado do mar. Abre os olhos. A mulher sorri. Sem-Pernas não consegue se lembrar de tê-la visto alguma vez, mas tem certeza de que a conhece. O olhar confortante da mulher se cruza com o olhar carente do menino. Um sorriso brota dos lábios de Sem-Pernas. Um sorriso doce, inocente, um sorriso de criança. A mulher sorri também, senta-se ao seu lado e põe uma de suas mãos em seu ombro. A pele, um pouco mais clara que a dele, está suja e maltratada. Os lábios finos se curvam num sorriso que não desaparece nunca. Os olhos têm a mesma cor que os do menino, os cabelos longos descendo em ondas até a cintura, negros como uma noite sem lua e sem estrelas.

Os dois olham fixamente para o mar. Ele tem esperanças de que uma onda o arraste para o fundo, e arranque dele todas as mágoas, a tristeza, o rancor que ele nunca fora capaz de perder. Ela não sabe o que pedir ao mar. Tudo o que podia querer estava ali, envolto em seus braços fracos.

-Meu filho… – Sua voz suave era a mais bela de todas as músicas que ele já ouvira e que haverá de ouvir.

Ela beija seu rosto suado, o vento despenteando seus cabelos. Seus olhos se encontram novamente. Ele anseia por explicações, por satisfações. Onde ela estava durante todo aquele tempo? Ela apenas olha para ele e sorri. Seu sorriso soa como um pedido de desculpas. Ela também tem muito que dizer a ele. Quer abraçá-lo, beijá-lo, levá-lo com ela para sempre, mas não pode. A vida é injusta, é complicada. Ele já é um menino crescido. É uma criança, mas conhece melhor as injustiças da vida do que qualquer homem feito. Sem-Pernas segura firme as mãos judiadas da mãe.

-Mãe… Minha mãe… – Ele beija seu rosto, ela põe a mão sobre a face, depois segura a mão de seu filho e a leva até seu peito. Aperta-a com força. Ele se deita em seu colo, ouvindo as histórias que as ondas do mar vêm lhe contar.

A mulher começa a cantar. É uma cantiga que Sem-Pernas nunca tinha escutado; não se lembra de ter ouvido ou de ter cantado. Mas ele reconhece a letra e acompanha sua mãe na melodia triste. Sua voz rouca, quase inaudível, se desfaz em soluços, e a mulher se cala. Uma tristeza que ele não sabe de onde vem invade seu coração, e as lágrimas começam a cair de novo de seus olhos, e descem por seu rosto, e são enxugadas pelos dedos frios de sua mãe. Era a música que ela cantava para ele quando ainda era pequeno, tão pequeno que nem devia se lembrar.

Sem-Pernas fica quieto por um tempo, enquanto chora cada vez mais baixo, até que os soluços e as lágrimas cessam. A mulher sabe o que ele quer perguntar. Antes que ele diga qualquer coisa, ela fita o horizonte, como se voltasse a um tempo distante, e diz que o pai do menino desistiu de viver, porque achava que a vida era muito difícil e não valia à pena. O menino continua em silêncio.

Um vento forte faz os cabelos de sua mãe esvoaçarem, Sem-Pernas apenas olha. É a mulher mais bonita que ele já vira na vida. Se parece um pouco com ele no jeito de olhar, como quem invade a alma do outro através dos olhos e rouba um pedaço dela, leva embora e faz a pessoa querer ir atrás para pegar de volta. O sorriso que nunca some ainda está intacto em seus lábios, mesmo com as lágrimas escorrendo pela face, ele não desaparece. A voz rouca, cansada… Ela também parece achar a vida difícil demais, injusta demais. Os braços longos apertam Sem-Pernas cada vez com mais força. Ela sabe que vai perdê-lo de novo, e logo. Ele é um menino de rua. Um homem da rua. As ruas de Salvador são a casa dele, não existe outro lar senão aquela cidade inteira. Ele e os Capitães da Areia são os donos dali. Tirar Sem-Pernas daquele lugar é como arrancar as asas de um passarinho. O menino, que andava, falava e agia feito homem tinha que seguir o caminho dele, por mais sofrido que fosse.

Sem-Pernas imagina como era seu pai. Devia se parecer bastante com ele, porque da mãe tem apenas os olhos e o sorriso, quase que imperceptível depois de tanto sofrimento que passou. Mas ainda está ali, escondido, por trás de uma expressão dura, aquele sorriso meigo, que nunca desaparece. O sorriso que sua mãe trouxe de volta depois de tanto tempo. No jeito, Sem-Pernas também não se parece muito com sua mãe. Ele tem raiva do mundo, das pessoas, dele mesmo, por ter perdido a única família que um dia ele teve. Mas agora ele tem sua mãe, e não sente raiva. Sente amor. Uma coisa que ele antes não sabia dizer o que era; não acreditava que existisse. Quando via Pirulito rezando, Gato indo ao encontro de sua amada, Professor perdido em meio aos seus livros, achava tudo aquilo besteira. Nunca pensou que podia sentir isso também, nunca acreditou que realmente funcionasse. Mas agora ele estava com sua mãe, e sabia o que era amar alguém. Não sabia que sentia amor, mas sentia. O amor vinha da mãe, e ele sabia disso.

A mulher diz, em meio a soluços, que não pode explicar porque o abandonara. A vida é a vida, tem coisas que acontecem sem motivo aparente. Ela conheceu o pai de Sem-Pernas numa noite de lua cheia, como aquela. O mar enchia os ouvidos dos homens com suas cantigas tristes, e os corações com promessas de que o dia que está por vir será melhor que o que se passou. Os dois se apaixonaram, e dessa paixão nasceu o menino. Mas o pai dele era um homem do mar, não sabia permanecer em terra firme por muito tempo. Ele amava a sua mulher, mas amava ainda mais ao mar. Num dia, sem nem avisar, sem nem se despedir, foi embora. Ela não sabia para onde. Ele também não. Não sabia se ia voltar, sabia apenas que a amava, mas não tinha coragem o bastante para mudar por esse amor. Os dias se passaram, para ela pareciam anos, até que ele reapareceu. Estava diferente, não era mais o mesmo homem forte e bonito de antes. Parecia cansado, temeroso. Nunca disse a ela o que acontecera na viagem, mas ela sabia que alguma coisa tinha transformado aquele seu homem em um corpo vazio, seu espírito morto. Com o tempo, foi desistindo da vida. Ela parecia desgraçada demais para ele. E foi ficando fraco, foi ficando fraco… Até que o corpo, que já não tinha espírito, também morreu. A mulher jogou-o no mar, rezou por ele, embora não soubesse direito em que tinha fé, esperava que as coisas fossem melhorar. E semanas depois nasceu o menino.

Mas a mulher também não via muita graça na vida. Metade dela fora embora com seu amor, e ela não queria saber de lutar por mais nada, por mais ninguém. Então abandonou tudo. O filho, a família, a cidade, abandonou a si mesma por um tempo, por muito tempo. É isso o que ela sabe contar ao seu filho. Não tem explicação para o que fez. Ela sabe que é difícil demais perdoar o abandono, porque ela também nunca perdoou seu amor por tê-la abandonado. Mas Sem-Pernas olha para ela e sorri. Ela reconhece o sorriso, não precisa dizer mais nada. Está perdoada.

O sol ilumina o céu. Sem-Pernas sente os braços cansados de sua mãe se afrouxarem ao redor dele. Ela beija seu rosto. Ele sabe que é um beijo de despedida e tenta prolongá-lo, impedir sua mãe de ir embora. O vento frio da manhã despenteia os cabelos do menino. Ele abre os olhos. Ela não está mais lá, em seu lugar há uma rosa branca. Com suas mãos trêmulas ele recolhe a flor e a leva até sua boca. Beija-a delicadamente, mas com ardor. A rosa tem o cheiro salgado do mar misturado com o aroma doce que emanava da mãe. Uma onda traz de volta a cantiga que escutara durante a noite; traz de volta a lembrança. E pela primeira vez seus olhos sentiram-se úmidos de lágrimas, que não eram causadas pela dor nem pela raiva. Levanta-se, aperta a rosa branca contra seu peito. Despede-se do mar, do vento, da cantiga, das lembranças. Fecha os olhos. Despetala a rosa.

As pétalas caem sobre a areia branca e são arrastadas junto a Sem-Pernas para a imensidão do mar.

Onde estou?

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