8 de maio de 2012 § 2 Comentários

Eles estavam tão perto do céu que ela sentia como se pudesse agarrar um pedaço da nuvem que pairava por sobre suas cabeças e prová-la, caso ficasse na ponta dos pés e estendesse uma das mãos.

Então era verdade. Aquilo que diziam, sobre se rever toda a vida quando está prestes a morrer. Ela poderia morrer ali, naquele instante, de tanta felicidade. Não é justo, ela pensava. Não é justo eu estar tão feliz agora, enquanto há tanta gente triste por ai. Queria dividir sua felicidade com o mundo, de alguma maneira. Queria abrir a boca pintada de vermelho e gritar, lá de cima, para a cidade empoeirada que se confundia lá embaixo num emaranhado de cabeças e reflexões obscuras um pedacinho da música que cantarolava interiormente enquanto eles andavam até o prédio – mas ela não o fez, porque o silêncio que tardara a chegar estava agora num momento pleno, e qualquer ruído estragaria tudo.

Ficou parada, buscando o fundo dos olhos negros. O que se passava diante dela não eram as primeiras palavras, os primeiros gestos, o primeiro dia na escola ou as longas conversas com a mãe, nas quais ela dizia que não deveria andar com Gustavo. O que ela via era a tarde fria do fim de outono que passara junto dele, os dois andando de bicicleta, com os cachecóis esvoaçantes, reclamando dos pais. A noite de formatura em que dançaram mesmo quando não havia música, ele disse que ela estava linda e ela disse que era mentira – embora soubesse que não era. A primeira briga, e depois a segunda, e todas as outras que sempre terminavam com um longo telefonema, o pedido de desculpa e a respiração ofegante. Era tão fácil perder quando se tratava dele – perdia o fôlego, o ritmo, o controle e a distinção. Como se sua vida fosse apenas (mas isso era tanto) o que vivera com ele. Antes disso ela só dormia, uma espera infinita que tivera fim – e todo fim era começo, ela lhe deu a mão gelada e ele a segurou firme. “Se pra te ganhar eu tiver de perder todo o resto, eu perco“.

O vento soprou forte e ela chegou perto. Não gostava da forma como ele deixava o cabelo, comprido daquele jeito, mas não ia dizer nada, porque não tinha importância. Talvez um dia ela olhasse e até achasse gracioso. Até lá ia espiar com um meio sorriso no rosto, aquele olhar de desaprovação que ele adorava. Fazia de propósito, era a forma mais eficaz de chamar-lhe a atenção. Era engraçado porque ela sabia desde o início, desde o dia em que ele chegou com mala e cuia à casa ao lado, desde o dia em que colocou seus CDs criticados no aparelho de som e se tornou alvo dos comentários maldosos da mãe. Era tão previsível, como ela poderia não amá-lo? E de repente era óbvio e simples, os dois juntos, como devia ser. Se ele pudesse ao menos permanecer para sempre – ela gostaria de eternizá-lo, de dormir naquele instante para levá-lo consigo. Se ao menos ela fizesse nevar.

Balões coloriram o céu cinza. Seus olhos e seus braços estavam abertos, e estava tudo bem. A brisa secou-lhe o rosto. “Mas eu sabia desde o início“.

 

ps: ah, certo. Não tem ps. É que eu me acostumei…

ps2: tem sim. Essa música é bonita demais pra ter sido escrita por um mortal. Aposto que esse cara é um semideus disfarçado. Hm..

ps3: só me ignorem (:

19 de novembro de 2011 § Deixe um comentário

Ela o encarou por alguns segundos, depois perguntou: – que horas são?

Ele deslizou o olhar azul para o relógio no pulso dela.

Coisa estúpida de se perguntar, ela pensou. Droga.

-É que… Tá um pouco atrasado. – Sorriu.

Ele mexeu no cabelo alaranjado, aquele meio sorriso lindo, o mais bonito do mundo.

-Sete horas. Você devia correr, se quiser chegar a tempo.

Ela riu de volta pra ele, involuntariamente – culpa daquele sorriso lindo, seu sorriso predileto. Corou, se virou, saiu correndo. Ele ficou ali parado, rindo interiormente, menina esquisita. Por algum motivo, não conseguia tirar os olhos dela enquanto a figura alta, magra e um pouco desengonçada se esgueirava pela multidão.

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