5 de agosto de 2012 § 4 Comentários

Ela poderia ser feliz, e ele nem saberia.

Sussurrou um adeus e foi embora, deixando as marcas de seus pezinhos molhados no chão, as lágrimas nos lençóis, a mancha de batom na borda copo. E por um instante ele desejou nunca tê-la conhecido. Desejou que todos os momentos bons fossem apagados, levados embora com a água que lhe descia dos olhos. Desejou que ela nunca tivesse cruzado seu caminho, que nunca tivesse lhe apresentado seu sorriso, que nunca tivesse invadido sua casa, sua cama, seu peito, seu coração.

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eu que não fumo queria um cigarro ou o homem que se apaixonou pela beleza plástica

10 de maio de 2012 § 2 Comentários

Podia ser qualquer coisa – mas era amor.

Terrível batizar sentimento, ele agora se sentia na obrigação de comprovar as teorias, de obedecer às regras inúteis, chorar em plena madrugada por saudades dela, comprar Serenata de Amor só para ler as mensagens apaixonadas da embalagem e se sentir reconfortado e acolhido – “Se você está se sentindo estranhamente feliz e sorridente, das duas, uma: ou está apaixonado, ou ficou louco. No fundo, não faz muita diferença”. Não fazia, mesmo. Jogou o papel fora e enfiou as mãos roxas de frio nos bolsos da calça jeans surrada, os polegares tamborilando do lado de fora. Era outono e ele podia sentir seu sangue congelar dentro das veias que lhe saltavam da face. Mas o problema não estava no vento glacial das ruas brancas de maio que lhe cuspia a morbidez crua da cidade – o problema era aquela palidez interior. Não voltaria para casa, as noites se hospedavam nos bares. Por que ela não o amava de volta? Acariciou a barba mal-aparada e tropeçou nos próprios pés antes de se perguntar se estava sóbrio. Quando foi a última vez em que escovara os dentes? Seu hálito tinha um cheiro forte de cigarro, mas ele nunca havia fumado. Apertou o passo porque estava atrasado, e se alguém perguntasse ia ver a namorada. Só que ninguém perguntaria, porque ninguém se importava. Até ele estava ficando cansado de se importar. Andou por um tempo, e poderia ter sido um dia, um mês ou um ano – ele só sabia que os olhos estavam mais pesados que a consciência e a as mãos mais leves que os bolsos. E depois de uma era de gelo e fome (de amor, de comida, de dinheiro, de direito e de si mesmo) foi parar em frente à vitrine. Bonita que só ela,  estava quieta, como sempre. Não lhe dava bola, não o olhava nos olhos, apenas a feição leviana na face amarelada, tinha sobrancelhas finas e lábios grossos pintados de laranja. Não reparou na roupa que usava, mas era magra feito uma modelo. Os dedos longos pousados delicadamente sobre os joelhos pontudos, os sapatos de salto deixando-a tão alta e superior que ele não tinha certeza se era mesmo humana. Mas a amava. Humana ou não, amava-a. Sentou-se no asfalto sujo e ficou à espera, ela devia saber e na tentativa de evitá-lo nem sequer se moveu. Depois uma senhora de cabelos grisalhos a puxou para dentro, e ele achou que talvez já tivesse incomodado demais. Ajeitou-se no chão, recostou a cabeça já meio calva, e adormeceu com as carícias da brisa violenta.

minutos permanentes

28 de abril de 2012 § 4 Comentários

Ela disse que te viu por ai um dia desses, na padaria.

Eu até imagino o reencontro, seus olhos doces enfrentando o azedume do olhar dela. Se apaixonaram enquanto eu estive fora, durante todos esse anos? Vocês combinam, e sabem disso. Combinam de um jeito absurdo, assustador e esquisito, de um jeito tão abominável que chega a ser gracioso. Eu sabia que no fim ia ser assim, um esbarrão casual no supermercado, na lanchonete, na avenida… Uma troca carinhosa de olhares, de experiência, de vida. Uma noite juntos e pronto – vocês nasceram um para o outro. Você não gostava do cheiro que ela tinha. Você gosta agora?

É engraçado porque o tempo passa, as pessoas passam, e a gente continua a mesma coisa. Mesmo crescendo (não fisicamente, claro – ainda tenho a entrada permitida em brinquedos de criança e calço sapatos com numeração infantil),  mesmo mudando, no fundo só a mesma adolescente bobinha que cora quando você sorri. Você ainda é dono daquele sorriso. Você ainda é responsável pela vermelhidão. Você ainda me faz passar a noite imaginando como seria, ainda me faz brigar com ela por sua causa, ainda me faz vir até aqui e escrever bobagem, derramar nas páginas as palavras que eu não capaz de te cuspir na face. Eu te transformei em tanto personagem bandido, te fiz senhor de tanta paixão, dono de tanto coração. Ler um conto da Lygia e me enxergar ali, na pele da mulher alienada que se apaixona pelo modo como ele corre os dedos pelos cabelos escuros e ouvir John Mayer pensando que a letra se encaixa como que feita sob medida me arranha, eu me sinto um disco antigo que repete a mesma faixa incessantemente – você usava o cachecol? Usava o mesmo perfume? Um casaco azul escolhido ao acaso ou a blusa que tinha significado especial? Jogou aquela touca fora ou ainda desfila pelas ruas parecendo um mamão de feira? (Acho que aprendi a gostar de mamão. Mas isso não tem nada a ver com você)

E em cada detalhe você ficou. Em cada abraço não dado, e naquele último que foi o primeiro, eu queria apenas lembrar quais as palavras exatas, mas a memória me falha e talvez seja para o bem. Você foi um babaca. E depois foi um doce. Não necessariamente nessa ordem. Você usava seus olhos como objeto de caça – helicópteros de caça. Você estava menino, e agora deve estar um homem – mas eu queria que mantivesse a voz. Ela disse que foi educado, polido, distante. Ela disse que ainda andava de maneira impecável; disse que lhe deu um beijo no rosto e saiu depressa, tinha que ir trabalhar. E eu achei que você viveria às custas da riqueza do pai eternamente.Você faz o quê? Vende promessas? Eu talvez precise de mais algumas. Eu talvez precise de um adeus honesto, um adeus eterno, que acabe tudo, entende? Eu talvez te precise um pouco, por minutos permanentes. Talvez.

ps: eu não vou rasgar nem deletar nada que te envolva, você não tem direitos sobre o que me deixou, nem mesmo sobre as lágrimas e cicatrizes.

ps2: e eu só não te detesto porque você me deu coisas demais para amar. E o jeito como você se move é injusto, você sabe.

ps3: se um dia vocês dois se casarem, eu os processo por plágio. Já tinha escrito uma história assim há muito tempo.

O primeiro foi seu pai, o segundo seu irmão, e o terceiro foi aquele a quem Tereza deu a mão

12 de março de 2012 § Deixe um comentário

Quando Tereza se deu conta lá estavam as mãos dele, segurando firme nas suas, seus lábios carnudos sussurrando promessas tentadoras ao pé de seu ouvido, o corpo quente tão próximo que ela quase se esquecia de que ele era um babaca e a única coisa que merecia dela era um tapa na cara, um chute nos países baixos e um eterno adeus. Olhou fundo nos olhos tropicais, e repetiu para si mesma que se ele não fosse tão barbudo as coisas seriam diferentes. Ah, me engana que eu gosto, Terezinha.

– Quer parar? – ela disse, se livrando do abraço quente e apertado dele.

– Não, não quero. E nem você quer. Agora, quer deixar de ser boba e me permitir amar você?

– Já chega, Davi. Você sabe que isso não é certo.

Davi – o bonitão de barba mal-feita e tatuagem no peito (o pivô da pior briga dos dois) – revirou os olhos escuros feito oceano quando não se tem o sol para iluminar a turbulência selvagem que há lá embaixo, e sorriu seu sorriso Colgate.

– E você sabe que eu nunca me importei em fazer o que é certo.

– Então talvez seja hora de começar. Já pensou o que sua mulher faria se nos visse assim?

– O que a Ingrid faria, você quer dizer.

Tereza ajeitou a blusa decotada, arrumou o cabelo desgrenhado por trás das orelhas salientes e continuou, num tom sério que lhe caia muito melhor do que aquele sorrisinho trouxa do qual ela andara abusando nos últimos meses:

– Não, eu quero dizer sua mulher, porque é isso que a Ingrid é.

– Nós estamos nos separando…

– Mas ainda não estão separados. E isso muda tudo.

– Ah, por favor – Davi passou a mão pela barba densa, a voz num tom debochado que fazia Tereza querer gritar e chorar, ao mesmo tempo – não venha bancar a Madre Tereza pra cima de mim. Há meio minuto você não dava a minima para o fato de, tecnicamente, eu ser casado. Não finja ser a religiosa que você não é, Têre. Não fica convincente.

A feição de Tereza se contorceu toda, sentia tanta raiva que era capaz de dar as costas para Davi naquele instante e ir embora, sem dizer-lhe uma única palavra – mas é claro que ela não o fez. Por causa da barba, do sorriso, de todo o ele que estava ali diante dela, implorando com um olhar suplicante para que não o levasse tão a sério e ficasse.

– Não é uma questão de religião, idiota – ela falou, entre dentes – é uma questão de ética. E você devia saber disso. Não é o sabichão, senhor que cursa a faculdade de Filosofia?

– Somos todos uns hipócritas, não somos?

Ah, o jeito cínico de Davi a tirava do sério.

– Você é. Não iguale a humanidade a você, Davi. Nem todo mundo é tão sem moral.

– Quer saber? Se você me acha tão detestável, por que não vai embora? Por que você não se vira, e sai? Eu não vou te impedir, você sabe disso. Eu posso ser um hipócrita, um babaca, um idiota, como você mesma diz. Mas eu não vou te forçar a nada que você não queira. Eu nunca fiz isso, e nem vou fazer.

Simples assim. Se vire e vá. Corra, Tereza, Terezinha, Terezoca, corra corra e corra. Você é livre, por que não abre suas asas de papel crepom e voa com destino ao… Paraíso? Não precisaria se mover muito para chegar lá, os olhos dele eram a versão mais autêntica do Paraíso que ela conhecia. “Diacho”.

Davi chegou mais perto, o cheiro do perfume barato misturado com o do vinho que seu hálito exalava entorpecendo os sentidos e as vontades de Tereza – Você sabe, Terezinha, que eu te amo. Então não se preocupe, tá bem? Eu te amo.

entre a minha boca e a tua há tanto tempo, há tantos planos

23 de fevereiro de 2012 § Deixe um comentário

É que por muito tempo me limitei a te olhar e fingir que não me importava, te criticar pelas costas (só pelas suas, costas largas e gigantescas, as muralhas brancas que me impediam de ver o sol, porque para os outros eu falava olhando nos olhos, a expressão se contorcendo conforme eu me recordava dos fatos), praguejar enquanto você infestava os corredores com suas ‘laranjidades’ habituais e desejar que uma casca de banana misteriosamente cruzasse seu caminho, essa sua carinha pálida se estatelando no chão. Mas agora eu vou cravar meus olhos caídos e chorosos nos seus, esses globos marrons emoldurados pelos cílios cor de manhã. Agora eu quero estar de pé, diante de toda sua autossuficiência, e ver até onde seu tamanho te ergue, Golias. Agora somos nós dois, sem boatos, sem mentiras, sem deduções. Jogo limpo, cartas na mesa, roupas sujas penduradas no varal, sua língua envenenada saltando pra fora da boca que de repente não me atrai mais. Agora sou só eu e minha coragem, nada de segundas intenções, nada de estratégias, vamos nos sentar aqui e admirar a verdade enquanto essa se alastra pelas nossas veias. Eu não te amo mais.

(P.S.: Mas, se você me quiser de volta, ou pra uma meia-volta, quem sabe, sou do tipo que perdoa e esquece.)

19 de fevereiro de 2012 § Deixe um comentário

Chico correu os dedos quentes pelas costas nuas da menina, as mãos morenas tocando de leve as manchas arroxeadas que ela trazia na pele clara.

– Como você consegui isso aqui? – ele sussurrou no ouvido de Catarina, os lábios grossos se movendo devagarzinho, as palavras tão baixas que ela não tinha certeza se era realidade ou se era sonho.

Depressa, puxou os lençóis azuis (da cor do céu sem nuvens e dos olhos sem vergonha dele) e se cobriu, virando o corpo para o outro lado – Não foi nada.

– Que foi? – ele perguntou, ao perceber que ela se encolhia e desaparecia no meio das cobertas.

– Que foi o quê?

– Quê? – Chico a encarou por alguns instantes, e depois riu, um riso abafado, piedoso e chuvoso, um riso com cheiro de café e dentes amarelados pelo consumo de cigarros exagerado.

– Não quero falar disso. E não quero que você veja.

Chico a puxou para si, abraçando-a com força – Por que não? Se você sempre me deixou te ver inteira, sem esse pudor todo…

Seu rosto redondo e pueril se tingiu de vermelho, quase do mesmo tom que os lábios finos, apertados um no outro, enquanto ela desviava o olhar cor de terra molhada para longe do dele. – É diferente. Não quero que você veja essas marcas feias.

O cenho dele se franziu. – Feias? – Ele tirou as cobertas de cima das costas dela, e, vagarosamente, beijou as marcas roxas. – Desculpe, mas a gente não pode estar falando da mesma coisa.

Catarina sorriu, metade do sorriso triste, por causa das lembranças, e a outra metade feliz, por causa do agora. Desejou que Chico estivesse sempre por perto, no travesseiro ao lado, e que ela soubesse desde o primeiro dia o quão especial ele era. Chico foi beijando aquela areia alva, até o branco se tornar vermelho, até o vermelho desaparecer no escuro.

8 de fevereiro de 2012 § Deixe um comentário

Ontem te vi passar perto de casa, e de repente aquele buraco no peito se abriu, quase como se seus olhos escuros o estivessem cavando conforme me tragavam, eu, navegante de primeira viagem, pra dentro desses fossos escuros e assombrados. Respirei fundo, pensei em apenas passar diante de ti, seguir meu caminho, minha própria correnteza, minha vidinha pacata de compras em hortifrútis e idas ao sebo nos fins de semana. Mas a verdade é que esse tipo de coisa, esse tipo de olhos, esse tipo de corpo e de sorriso não se confunde com a paisagem tão facilmente, e eu tive que pensar em sentir saudades suas. Parei por um instante, refleti sobre o assunto. Sentir sua falta implicava em passar noites em claro, escrever textos melodramáticos e imaginar que todo personagem romântico e apaixonável de um livro Jane Austeniano é ruivo. Implicava em falar seu nome pelo menos uma vez a cada doze frases, imaginar seu rosto no meio das equações matemáticas e suspirar a cada trinta minutos, mais ou menos, seguindo com um típico ‘ai, ai’  enamorado.

Não valia a pena, mas eu já não tinha escolha. Seus olhos tropicais me encontraram, e, como de costume, você demorou um pouco para sorrir. Talvez não tenha me reconhecido logo de cara, ou simplesmente estivesse pesando os dois lados da coisa, como eu. De um jeito ou de outro, o sorriso veio, todo amarelo, todo torto, todo bonito, todo você. Entendi porque tanta reflexão, era esse sorriso que eu queria evitar, o sorriso mais feio e mais lindo do mundo, ao mesmo tempo. O sorriso que fazia meu coração acelerar e quase parar, ao mesmo tempo. O sorriso que me fazia querer correr para longe de ti, e para seus braços, ao mesmo tempo. Tudo, tudo ao mesmo tempo, que quando se trata de você não tem isso de passo a passo, é tudo de uma vez. Todo o ódio, todo o amor, todo o ímpeto, todo o remorso.

Quase que atravessei a rua e me atirei em direção ao seu peito, minha vontade era de me encolher ali e morar dentro do seu casaco marrom para sempre. Só que aquela coisinha irritante de voz afeminada surgiu, me fazendo mudar os planos, me fazendo perder a coragem, o impulso, a linha de pensamento. Aquela coisinha irritante que te acompanha de um lado para o outro, sua noiva, namorada, duende, sei lá o quê. Saiu de dentro da padaria, o sorriso quase que não cabendo nos lábios pintados de vermelho. Entendi o porquê daquela felicidade, algumas pessoas a chamam pelo seu nome, sabia? Te deu o braço, encostou a cabeça cabeluda no seu ombro largo, e os dois saíram andando, ela com sua bolsa cruzando o peito, uma sacolinha engordurada pendendo de uma das mãos, o vento batendo na cara branca que você tanto ama e beija.

Você nem se virou para acenar, dizer um adeus, ou gritar rua afora que ama. Suas pernas cheias de cicatrizes foram apertando o passo, a barba mal feita poluindo todo o rosto cheio de rugas de expressão que ainda vêm me atormentar os sonhos.

Dei meia volta, sorri para o dia azul que se estendia diante de mim. Ia voltar para casa, tomar um banho, tirar você da minha cabeça. Ou pelo menos fingir que tinha essa pretensão.

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