ladies wanna kiss you

3 de agosto de 2012 § 5 Comentários

Mas às vezes amá-la era muito difícil. Principalmente quando acentuava as palavras do jeito errado, mordiscando o lábio inferior e revirando os olhos quentes e castanhos. Só que no meio de tanta dificuldade havia um córrego leve e simples, tão tranquilo quanto o céu poderia ser. Franziu as sobrancelhas e as linhas de expressão foram cravando suas unhas na face antes lisa, os sulcos se abrindo na pele como flores brotando da terra. Era aquele detalhe singelo e rude que o fazia recordar os motivos implícitos pelos quais continuava ali, assistindo às mãos brancas e frias se movendo rapidamente enquanto ela tagarelava.

 

ps: eu não assinei nenhum contrato dizendo que tinha que escrever bem.

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22 de abril de 2012 § 2 Comentários

“eu queria ser assim, como uma árvore” ela disse.

Paulo ficou parado, apenas encarando seus olhos escuros. escuros como a noite, pensou. uma noite sem estrelas, noite vazia, solitária. uma noite crua, como aquela.

“uma árvore? com tanta coisa pra você querer ser, você escolhe logo uma árvore?” ele passou os dedos pelas longas madeixas de cabelo, cabelos de índia. tinha uma música que falava de índia, não tinha? índia da pele morena, sua boca pequena eu quero beijar. beijou. a boca, as bochechas, os olhos. foi beijando o rosto inteiro, de repente parou. melhor assim, sem muito beijo, que eu prefiro ficar te contemplando toda bela e toda pura, toda minha, ele dizia a si mesmo enquanto a imaginava índia.

“o que há de errado em querer ser árvore?” ela perguntou, um sorriso malandro nos lábios pintados de púrpura.

“o que há de especial numa árvore?”

ela se ergueu um pouco, apoiando a cabeça sobre os cotovelos no travesseiro. cotovelos, palavra engraçada, pensou. e podia ficar ali o resto da noite, pensando na graça que via nos próprios cotovelos, nos cotovelos alheios e no nome que aquilo levava, mas tinha que explicar a Paulo a história das árvores. ai, Paulo, nunca entende nada…

“pensa numa árvore. pensou?” Paulo fez que sim com a cabeça, os cachinhos do cabelo louro balançando. “tá. agora pensa em como ela nasceu. de uma semente, né? uma semente pequenininha, assim” ela mediu a semente com os dedos, quase que unindo o indicador ao polegar. depois pôs os dedos na boca de Paulo, ele os beijou. semente, semente, se não mente fale a verdade… tinha tanta música na cabeça, mas o quarto ainda estava quieto.

“entende? uma semente pequena de repente cresce e olha, vira árvore. uma árvore gigante e forte, robusta… cheia de folhas, que caem, e então nascem de novo, e caem de novo, e então renascem. o que eu gosto nas árvores é isso, Paulo. elas apenas são, entende? elas não pensam no que queriam ser, não tentam entender como tudo acontece, como nascem, e então tem filhos e etcetera e tal. elas só… bom, elas só são. e eu não consigo ser e só ser, entende?”

Paulo tamborilou os dedos brancos na cabeça de Aline, minha índia. “entendo, entendo. pra que tantos ‘entende’, eu entendi, querida, entendi. mas não sei se concordo. como sabe que a árvore é assim, passiva, só é e só vive? e se dentro daquele tronco parrudo existir um mar de dúvidas, e você nem sequer sabe? e se aquela árvore gigantesca do nosso jardim estiver se perguntando porque não pode ser como a menina morena da boca pequena que eu quero beijar? tão simples, tão apenas vivendo e sendo o que é? vai ver cada ser tem essa mania, de tentar ser menos, tentar entender menos, não sei. acho que se fosse árvore ia querer ser outra coisa.”

Aline mantinha os olhos nos próprios cotovelos. talvez tivesse razão, sobre isso de que nada apenas é, nem mesmo as árvores. não tinha como ter certeza, afinal de contas. “então que faço? se não posso nem querer ser árvore? que faço pra parar de tentar ser mais, que faço pra só existir?”

ele beijou seus braços escuros, a pinta, a pele de índia, que pele bonita ela tinha. o contraste com a dele fazia parecerem quase que opostos, o olho claro, o olho escuro, céu do dia, céu da noite. “por que só existir? fica aqui, dorme do meu lado, entende que te amo e é só isso. e deixa quieta essa sua angústia, deixa quieto esse seu espírito. só deixa, tá bem?”

deixou. dormiu nos braços dele, ele nos dela. os dias indo embora como as folhas das copas das árvores.

(então, tava falando de árvores com você ontem, não tava? e aí escrevi isso. eu sei, ficou ruim. mas, sei lá, queria contar dessa minha vontade de ser árvore sem deixar solto, então a menina queria ser árvore e eu a entendo… porque deve ser simples, realmente. ai, que vontade de ter nascido semente, dai não viveria essa loucura que é o não entender aqui dentro. complicado demais – ou a complicada sou eu? enfim… desculpem)

Onde estou?

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