eu que não fumo queria um cigarro ou o homem que se apaixonou pela beleza plástica

10 de maio de 2012 § 2 Comentários

Podia ser qualquer coisa – mas era amor.

Terrível batizar sentimento, ele agora se sentia na obrigação de comprovar as teorias, de obedecer às regras inúteis, chorar em plena madrugada por saudades dela, comprar Serenata de Amor só para ler as mensagens apaixonadas da embalagem e se sentir reconfortado e acolhido – “Se você está se sentindo estranhamente feliz e sorridente, das duas, uma: ou está apaixonado, ou ficou louco. No fundo, não faz muita diferença”. Não fazia, mesmo. Jogou o papel fora e enfiou as mãos roxas de frio nos bolsos da calça jeans surrada, os polegares tamborilando do lado de fora. Era outono e ele podia sentir seu sangue congelar dentro das veias que lhe saltavam da face. Mas o problema não estava no vento glacial das ruas brancas de maio que lhe cuspia a morbidez crua da cidade – o problema era aquela palidez interior. Não voltaria para casa, as noites se hospedavam nos bares. Por que ela não o amava de volta? Acariciou a barba mal-aparada e tropeçou nos próprios pés antes de se perguntar se estava sóbrio. Quando foi a última vez em que escovara os dentes? Seu hálito tinha um cheiro forte de cigarro, mas ele nunca havia fumado. Apertou o passo porque estava atrasado, e se alguém perguntasse ia ver a namorada. Só que ninguém perguntaria, porque ninguém se importava. Até ele estava ficando cansado de se importar. Andou por um tempo, e poderia ter sido um dia, um mês ou um ano – ele só sabia que os olhos estavam mais pesados que a consciência e a as mãos mais leves que os bolsos. E depois de uma era de gelo e fome (de amor, de comida, de dinheiro, de direito e de si mesmo) foi parar em frente à vitrine. Bonita que só ela,  estava quieta, como sempre. Não lhe dava bola, não o olhava nos olhos, apenas a feição leviana na face amarelada, tinha sobrancelhas finas e lábios grossos pintados de laranja. Não reparou na roupa que usava, mas era magra feito uma modelo. Os dedos longos pousados delicadamente sobre os joelhos pontudos, os sapatos de salto deixando-a tão alta e superior que ele não tinha certeza se era mesmo humana. Mas a amava. Humana ou não, amava-a. Sentou-se no asfalto sujo e ficou à espera, ela devia saber e na tentativa de evitá-lo nem sequer se moveu. Depois uma senhora de cabelos grisalhos a puxou para dentro, e ele achou que talvez já tivesse incomodado demais. Ajeitou-se no chão, recostou a cabeça já meio calva, e adormeceu com as carícias da brisa violenta.

21 de fevereiro de 2012 § Deixe um comentário

E embora não soubesse o significado de liberdade (ou até soubesse, mas preferisse dizer a si mesma que não sabia e ignorá-lo, por conhecer seus limites e ter a certeza de que o mais próximo que chegaria da definição seria procurando-a num dicionário), gostava de acreditar que era livre. E só ali, no meio de seu caderninho de capa desgasada, é que se sentia plenamente liberta e feliz. Desenhava seus pássaros depenados, seus maridos de pelo laranja e olhos tropicais, sua lua de óculos de sol e seus diálogos absurdos, que terminavam quase sempre com um beijo de boa-noite. Não se importava se liberdade era responsabilidade, uma questão política, social ou cultural, estado civil, estado de espírito ou estado nacional. No fim das contas, estão todos sujeitos à morte, e isso, para a menina de madeixas descoloridas, era prisão perpétua. Era livre pra escrever o que quisesse, era livre pra pintar as páginas de todas as cores, era livre pra contar suas mentiras deslavadas, era livre pra morrer de rir e pra comer amoras direto do pé (e por falar em pé, era livre pra ter chulé). Que mais no mundo importa? Foi comer torta atrás da porta.

30 de dezembro de 2011 § Deixe um comentário

Ela ficou na ponta dos pés, os dedos brancos no piso frio e molhado. Frio e molhado. O beijo dele, frio e molhado. O mundo girando depressa, os olhos dele roubando suas palavras. Perto, mais perto, tão perto. Nem havia mais distância entre os dois. Ele sorriu. Afastou-se, o olhar quente, olhar tropical. Ele era todo de antíteses, todo de paradoxos. Todo de beijos, todo de olhares, todo de perguntas. Ela corou. Ele colocou os dedos sobre a boca dela, saiu correndo. Ela ficou ali, os pés no piso gelado, o rosto queimando.

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