10 de abril de 2012 § Deixe um comentário

“Querida Liza,

Posso te chamar assim, de querida? É o que eu tenho feito nessas semanas, tenho te querido muito, o tempo todo. E é só por isso que eu bebo, você sabe. A intenção real é justamente essa, esquecer-me da minha quase namorada. Não costuma dar certo.

Desculpe demorar tanto, o curso ocupa meu tempo possessivamente e eu quase nem observo as paisagens, sejam elas compostas de flores ou de mulheres, tudo me é só um amontoado de quadros que presenciam a minha constante vontade de pegar um avião e ir até ai, ver você. Mas eu poderia ter escrito antes. Eu só não quis. Eu não sabia o que te escrever, Liza, eu não fazia ideia. Passava a maior parte das manhãs mormacentas planejando o que te diria, desenhando na carteira as linhas repletas de saudades e de pedidos de perdão ‘é que eu não tenho tido tempo…’. Mas percebi que tinha de falar contigo, e logo, quando li sua última carta.

Sinto sua falta. Loucamente. E eu só entendi o verdadeiro significado desse advérbio quando, noite passada, sem conseguir pregar os olhos embora eles estivessem embebidos de sono, me deitei no chão da sala de estar (tudo em minhas mãos, nada em seu olhar) e chorei. Eu nunca me senti menos homem, nunca me senti mais homem. Entende? Eu não entendo, então me explique. O que a sua ausência não me faz, Liza? Loucamente. Chorei feito uma criança, por sua causa, por nossa causa, por causa desse bebê. Liza, eu te amo. Eu te amo e eu percebi que te amo mais do que eu mesmo julguei que amasse quando, deitado no piso frio, renunciei a mim mesmo e decidi que te quero e quero esse filho, e quero estar ai com você agora. Nem na noite em que eu fui seu e você foi minha eu te amei tanto, Liza. Nem naquela biblioteca eu tanto te amei. Você nunca me terá mais do que me tem nesse instante, porque você me tem inteiro, não há uma fibra do meu ser que não implore por sua presença agora. Liza, eu tive que recorrer às minhas lembranças mais perigosas noite passada… Não é justo. O que você faz comigo não é justo.

Você tinha razão – sobre a bolha de alienação. Mas eu não sou o mais indicado para te salvar (eu sou sua perdição, não sabe? Corra antes que seja tarde, Liza, corra, corra, corra); sou só o garoto metido a poeta que aprendeu a tocar violão sozinho e se gaba pelo número de livros que lê. Só o garoto assustado que fugiu para Curitiba ao menor sinal de ameaça, ao menor sinal de você. Eu é que preciso de ajuda, Liza. Eu.

Passo a maior parte do tempo estudando, e gosto disso. É uma forma de me manter ocupado. Tenho aprendido muito, sinto que estou finalmente fazendo o que deveria, o que eu nasci para fazer. Sua fantasia da câmera e das mãos trêmulas não é muito distante da realidade – embora eu goste de visualizar a cena de uma forma um tanto mais rude e máscula. Parei de tomar café e comecei um tratamento odontológico, caso queira saber. Meus dentes vão voltar um pouco menos amarelos – espero que não se importe. Lolita está longe de ser sujo, Liza. Você ainda tem muito o que ler…

Quanto ao sotaque das moças, não se preocupe, as coisas que você diz superam qualquer beleza no jeito de falar. Além disso, eu gosto do seu jeito… caipira.

Eu quero telefonar, para conversarmos direito, sobre tudo. Diga-me a que horas está em casa, da última vez que liguei não encontrei ninguém. Estou sem meu celular, por isso vou telefonar de um orelhão. Temos tanta coisa para resolver, Liza.

Eu te amo, e espero ouvir sua voz em breve, ou ler qualquer coisa que você me tenha escrito.

Se cuida.

Chico.

 

P.S.1: Eu só acredito porque a verdade está diante de mim e certas coisas a gente não ignora, Liza. O que você precisa é abrir esses lindos olhos para o mundo que te espera lá fora. E eu vou estar aqui para quando acontecer.

P.S.2: O que eu tenho lido, além de jornais e gibis? ‘A branca voz da solidão’. Quando terminar te digo o que achei.”

los monstruos del ayer

28 de dezembro de 2011 § Deixe um comentário

Saiu correndo dali, desejando que fosse rápida o bastante para escapar da realidade a tempo. Não adiantaria, ela sabia. Por mais que quisesse levantar vôo e mergulhar numa dimensão distinta, onde tudo o que a cercava fosse bonito e inofensivo, ela tinha plena consciência de que era naquele mundo –  mundo terrível e hostil – que ela vivia, e assim seria, para sempre. Não tinha coragem de olhar para trás. Se o fizesse, desistiria. De quê? Qual era o plano? Correr até não aguentar mais, e então se jogar no chão, exausta? Não havia plano. Nem nada próximo disso. Ela tentou pensar em algo enquanto suas pernas imploravam por uma pausa, mas a verdade é que não fazia ideia do que aconteceria depois.

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