28 de junho de 2012 § Deixe um comentário

Mas eu acho que na maior parte do tempo tudo o que eu sou é medo.

Ele tinha olhos de caleidoscópio – e eu nem sabia o que essa palavra queria dizer. Por que nós estamos sempre complicando as coisas? Eu queria que você entendesse sem eu ter de explicar, sabe? Queria que percebesse nos olhares vagos, nas palavras mudas, nas músicas tristes e no caminhar pacato. Mas você não entende. É pedir demais, é sonhar utopias. Não vai acontecer. Então eu espero.

da cicatriz, da necessidade, de preposições e da menina que não sabia amar

1 de março de 2012 § Deixe um comentário

Era uma necessidade absurda, ainda que anônima.  Lorena gostava mais das coisas quando ainda não tinham nome e podia batizá-las como bem entendesse – só que nesses últimos dias não tinha entendido nada. Mantinha o olhar ligeiramente verde fixo nas próprias mãos, e umedecia e emudecia os lábios com a língua rosada, aquela boca que era pequena demais para o tamanho das palavras que queriam sair dali de dentro. Flávio tomou um gole de café, e Lorena fez o mesmo porque pensou que seria mais sofisticado de sua parte se fizesse. Detestava café, não suportava nem o cheiro – mas era uma questão de honra. Levou a xícara até os dentes, fazendo-os tilintar. O vapor quente subiu-lhe à cara, torceu o nariz sardento, contou mentalmente até três e jogou tudo goela abaixo. ah! O sabor da vitória, deliciava-o com tamanha intensidade que quase não sentia o desgosto de provar o gosto amargo do café – pedira sem açúcar, já que tinha acordado determinada a ser corajosa. Olhou fundo nos olhos de Flávio e sorriu, satisfeita. Os olhos foram descendo, escorrendo pelo rosto enrijecido e estranhamente tranquilo, roçaram a barba mal-feita, deslizaram pelos lábios contraídos, até que chegaram ao pescoço.

Foi quando ela percebeu que ele tinha uma cicatriz. Ficava ali, escondidinha, tão pequena e tão bem disfarçada que quase passou despercebida, mas Lorena foi mais rápida e avistou-a antes que ele mudasse de posição e ela a perdesse de vista. E foi por aquela cicatriz que ela se apaixonou.

Tudo a respeito de Flávio era desumano demais. O sorriso, o olhar, o falar, o gesticular, seu ar paradoxal era inteiro divino, e Lorena aprendera a detestar aquilo. Estar sentada na mesma mesa que ele era como estar cercada por um júri, e sentia-se avaliada todo o tempo, como se até mesmo o arquear de suas sobrancelhas grossas não estivesse à altura do companheiro. Mas aquilo era carnal. Aquele ferimento era a prova, um sinal de que era gente como ela, que cometida erros, que se arrependia, que desejava. E a palavra fez com que ela estremecesse. Foi aquela lua pendurada na pele do pescoço, quase como um pingente, que a fez sentir absurda. Absurda como a necessidade que tinha, absurda como era quando pequena e via nas coisas uma complexidade inexistente, do mesmo modo que olhava para os cálculos matemáticos e achava respostas simples e harmônicas, utilizando-se das próprias regras que eram as regras da vida. Mas não se tratava de cálculos, de complexidades, de vida. Se tratava de Flávio, de como Flávio a tratava, de como ele a olhava e não demonstrava um pingo de atenção, embora fosse todo ouvidos e todo olhos para ela. Se tratava daquela vontade louca que tinha, e nem sabia direito de quê.

Já era a terceira ou quarta vez que se encontravam no mesmo bar, ela com suas saias justas, ele com seu riso largo. Quando pensava em vê-lo o coração batia depressa, como se adiantar-se fizesse o tempo passar mais rápido e levá-la logo para ele, ele, que nem sequer a tocara até então. Ele, com aquelas sobrancelhas unidas, aquele rosto fechado, aquela cicatriz que agora Lorena não perdia de vista. Ele, que visitava seus sonhos todas as noites, que inundava seus pensamentos com hipérboles, que era tudo que ela queria agora. Ele, Flávio, escritor, vinte e tantos anos, talvez beirasse aos trinta, divorciado, sem filhos, pelo menos até onde sabia. Ele, com as mãos calcadas estendidas atrás da cabeça raspada, o olhar meio perdido em algum lugar entre seu sorriso escurecido pelas doses de coca-cola e o fecho da blusa decotada. Não havia suor. Lorena sentia-se úmida, o sangue transbordando do corpo, mas não havia provas, não havia lágrimas, não havia transpiração. Queria a liberdade de derramar para fora de si a imensidade daquele sentimento, aquela liberdade que lhe era sua por direito, mas que fugira para algum campo do sul e nunca mais voltara, deixando-a ali, fechada, os lábios pintados se abrindo e cerrando, tanta coisa pra dizer e ao mesmo tempo sentia que precisava permanecer calada. Não falaria nada até que Flávio quebrasse o gelo com sua voz de trovão, sua perspectiva torta, seus ideias hipócritas, mas ainda assim (ou por isso mesmo) revolucionários.

Viu-se tomando mais um gole de café, e não era nem por ser desafiada nem porque sentia vontade, só queria algo que lhe ocupasse a mente enquanto o olhar vagava pelo corpo forte de Flávio. Vontade. Ele se levantou, ajeitou-se na cadeira de plástico e tomou mais café – Lorena pensou que talvez dessa vez só bebesse porque ela bebia, e então deduziu que se o amasse ele talvez precisasse amá-la de volta, senão perderia o jogo. Soava meio arriscado, mas era o dia de ser corajosa, refrescou ela mesma sua memória, e sorriu como que se a resposta da questão quinze de Matemática estivesse logo no enunciado da próxima. Parou por alguns instantes, tocou de leve a mão dele, imaginando que Flávio a faria escapar dali, fazendo o encontro dos dedos parecer acidente, o encontro das almas parecer acaso, o encontro dos corpos parecer aventura. Mas não. Ele apenas se deixou ficar, sentindo com a ponta do dedão o comprimento exagerado das unhas dela, que ele já disse que preferia curtas. Olhou bem para o rosto da moça, para o corpo que nem era mesmo um corpo de Lorena, aquele frasco onde ela gostava de guardar o espírito, e pensou no quão absurdo lhe parecia necessitar tanto de algo, necessitar tanto dela.

E foi ao som das cigarras barulhentas e despertas que ele se sentou na varanda e ficou ali, penteando os cabelos longos dela

23 de fevereiro de 2012 § Deixe um comentário

E nunca na vida se sentira tão pleno.

Não que soubesse o que estar pleno significava – essa era uma das palavras que ele ouvia Soraya dizer e depois repetia, de si para si, deliciando o movimento que ela fazia com os lábios nas figuras tortas e coloridas que trazia na memória. Pleno.

Riu um riso abafado, bobo que ele nem acreditava que com seus vinte e poucos anos conseguia ser tão criança. Nem quando ainda tinha idade pra ser ingênuo o fora tanto.  Mas não se importava. Aliás, desde que Soraya aparecera toda sorrisos com seus olhos cor de mar ele não ligava para o que diziam, para o que deixava de ser dito, para todas as banalidades daquilo que lhe apresentaram como vida. Soraya era outra palavra que ele repetia devagar no silêncio do quarto, imaginando se o dançar dos lábios grossos dela era tão gostoso de se acompanhar quanto era de ser observado.

Ficou ali, quietinho, os olhos escuros para dentro das pálpebras que se abriam e fechavam depressa, enquanto a luz do sol invadia o cômodo pelas frestas largas da janela de madeira branca. Pensou nos cabelos negros que ela tinha, e que lhe desciam até quase a cintura. Pensou em como ficavam bonitos trançados, e em como gostaria de trançá-los, ele mesmo, um dia.

O som vinha da vitrola, eram os Engenheiros. Como era o verso? “Eu quis pagar pra veeeer…” Correu os dedos pela barba densa, aquela que ele não fazia já tinha tempos. É que ela gostava dos barbudos, ele sabia. Soraya, Soraya, Soraya, a menina mulher dos olhos cor de pedra preciosa e das sobrancelhas arqueadas. Suspirou fundo, o peito largo e forte se erguendo, aquela barriguinha que ele disfarçava com as camisetas mais largas descendo e subindo ao ritmo acelerado e nostálgico da música. Pegou o livro de cima da cama, abriu numa página qualquer. As Meninas. O favorito da menina dele. Detestava livros, nem sabia porque tinha pego emprestado. Lembrou-se do sorriso de satisfação no rosto dela, os dentes brancos em contraste com a pele escura acendendo aquele fogo engraçado que ele só sentia quando ia a jogos de futebol, pra ver o time ganhar de cinco a zero. Ah, sim. Foi por causa disso.

 

“Afinal de contas, o que nos trouxe até aqui? Medo ou coragem? Talvez nenhum dos dois.”

da noite que de madura cai ao chão

19 de novembro de 2011 § Deixe um comentário

Érico descia as escadas, os pensamentos martelando mais alto a cada degrau.

Os olhos verdes, espere até que fiquem maduros. Os pensamentos gritando. Tinha algo na mão, mas não quero dizer o que era, não quero transformá-lo em vilão. Precisava ver sua face, a forma como o suor descia-lhe pelo rosto – suor e lágrimas. É que no fundo não queria fazer aquilo. Era errado. Mas às vezes, e veja, não estou dizendo que isso explica… Mas às vezes as pessoas precisam cometer erros. Às vezes, as pessoas têm bons motivos. Os fins justificam os meios, é como dizem. Não sei se concordo, no fundo nem Érico concordava. Só fazia aquilo porque agora faltava pouco, e não era homem de desistir. Não era homem – covardia transforma homem em rato, era como se via agora. Um rato de olhos verdes, olhos astutos e escorregadios. Iam se enchendo de dor, de ódio, de medo, de água. Desceu as escadas, os degraus o empurravam para o destino, para o grand finale. Segurava a peça chave nas mãos como se dela dependesse a vida – e, de certa forma, dependia -, como se seus dedos abrigassem um último suspiro. As pernas trêmulas – faça, faça. Seja breve, seja rápido. Veio até aqui, agora faça. Faça valer à pena, não seja um covarde. E desde quando desistir é covardia? Desistir é ato de coragem, desistir por si próprio, desistir de si, dos outros, da vida. É que não sabia. Havia tanta água, água demais, mas parecia que estava seco. Era uma sensação miserável, como se toda a dor do mundo resolvesse morar dentro dele. Como se a dor só pudesse ser silenciada com o último grito, com a última bala. Um toque. Toque de campainha, um toque no braço dela.

– Bom dia

-Bom dia, entre.

-Como tem passado?

-Bem, e você? Por que essa cara de assustado, que aconteceu?

Seus olhos verdes, prestes a cair da face, junto com a máscara, junto com a vergonha… Ela, vamos batizá-la de Miranda. Miranda, um rosto nem feio nem bonito, o cabelo desgrenhado, tinha acabado de tomar banho, ainda estava enrolada na toalha azul. Érico, acabe logo com isso. Ele transpirava, os ombros pareciam sustentar o mundo agora. A mão tremia, grand finale, grand finale.

Ele fechou os olhos, o som do grito. O som do tiro. Aquilo nas mãos, ele balançava, sem direção. Conseguiu. Terminou. Mas a dor ainda não tinha ficado quieta. Nem ia, ele sabia. Seria uma noite barulhenta. Agora chovia, dentro do quarto, dentro dele, dentro dos olhos verdes. Chovia água, mas tinha cor de sangue. A toalha se fazendo vermelha, como o céu se fazia ao despedir-se da tarde pacífica. O olhar dela anoitecia, – te amo, ele disse. Te amo.

Olhos verdes, que fizeram? Ficaram maduros.

Onde estou?

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