isso aqui não tem a pretensão de ser um texto

26 de julho de 2012 § 12 Comentários

Alice estava sentada num dos bancos da praça – aquele que ficava sob um grande pé de amora e, por isso, fora eleito seu preferido-, desenhando pássaros (que não se pareciam em nada com pássaros) em seu caderno de Matemática.

Era quinta-feira, Alice tinha certeza. Mesmo já fazendo muito, muito tempo, quando ela fechava os olhos ainda podia sentir o cheiro do dia quente. Não sabia exatamente como era o cheiro de um dia quente, mas podia reconhecê-lo quando sentia. O céu azul como nunca havia visto antes; não conseguia pensar em nada que fosse tão azul quanto aquele céu. Nem mesmo os olhos de Diana, que eram a coisa mais azul que já vira sua vida toda, eram azuis como aquilo. Então só podia ter sido uma quinta-feira. Quinta-feiras eram sempre especiais, sempre havia algo por trás daquele céu sem nuvens numa quinta… E naquela quinta havia ainda mais.

– O que é isso? – Perguntou Lipe, apontando os grandes olhos castanhos para os rabiscos de Alice. Ele dançava por entre as raízes da árvore, as mãos pequenas envergando os galhos, os pés esmagando as amoras que estavam no chão – um rio roxo correndo por debaixo de seus sapatos velhos.

– São pássaros, não tá vendo? – Alice se ofendeu. Como alguém podia não perceber que eram pássaros?

Lipe se aproximou, franzindo as sobrancelhas escuras. Pássaros? – Não parece.

Alice enrugou seu pequeno nariz. É claro que pareciam pássaros. Eram pássaros. E qualquer um perceberia isso. Lipe notou que ela não gostara da crítica. Sempre tão sensível, pensou. Se ofende com qualquer comentariozinho…

– São mais bonitos. Mais bonitos do que qualquer outro passarinho que eu já tenha visto.

Ela sorriu. Às vezes parecia muito mais criança que Lipe, mesmo sendo tão mais velha. Principalmente quando sorria daquele jeito, e seu rosto todo se iluminava. Os olhos pretos adquiriam um brilho diferente, pareciam duas jabuticabas maduras. Então ninguém adivinharia que ela estava para completar dezessete anos. Não mesmo. Era menina demais, criança demais.

– Quantos anos você tem, Alice? – Lipe perguntou num tom curioso. Estava sempre perguntando coisas a ela, e ela lhe respondendo, quase sempre com outras perguntas.

– Você não sabe? Já me perguntou tantas vezes!

– Você pode ter ficado mais velha de uma pergunta pra outra, não pode? – Ele colheu algumas amoras e as colocou sobre o banco onde Alice se acomodava.

Alice riu. Sua risada era engraçada, e fazia com que Lipe risse também, mesmo sem saber exatamente por quê.

– É, acho que sim. Dezessete.

Colocou as amoras na boca, todas de uma vez. Um líquido de cor púrpura escorreu por seu queixo e ela limpou o rosto na camiseta branca do uniforme. Diana provavelmente brigaria com ela por causa daquilo. Quem se importa? Diana estava sempre brigando por algum motivo, mesmo. Que fosse por um bom motivo, então. E não conseguia pensar em nada que fosse tão bom quanto amoras.

-Dezesseis. – Lipe a corrigiu. Ela ainda não tinha dezessete; teria dali a duas semanas, mas, até lá, Lipe queria ouvi-la dizer que ainda tinha dezesseis.

Alice revirou os olhos. Dezesseis é quase como dezessete.

Na verdade, não era. Alice não falava como quem tinha sua idade. Às vezes parecia ter onze anos, como Lipe. Ele pensou em dizer isso a ela, mas achou que fosse ofendê-la. Qualquer coisa a deixava ofendida. Alice era tão delicada, ele tinha medo de deixá-la triste.

– Trouxe uma coisa pra você – Ela disse. Largou o caderno de matemática no banco e tirou um embrulho laranja de dentro da bolsa.

 

ps1: leiam o título de novo, por via das dúvidas.

ps2: acabou desse jeito porque era um começo, mas o resto é dispensável.

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o horror do amor e violetas

5 de junho de 2012 § Deixe um comentário

Ela daria à Maria Alice a doçura daquele olhar vasto e manso.

Só não sabia como.

O quarto cheirava à velório. E ela nem sabia se devia ou não usar crase. Quanto tempo estática observando a formiga dançar trôpega ao redor do caule da flor? Talvez tenham sido dezenas de milhares de anos. E ela ainda o amava.

Tinha que anotar aquilo, se não se esqueceria mais tarde. Não, não a parte do amor, só a doçura do olhar vasto e manso. Foi isso? Foi isso o que o vento assobiou no seu ouvido? O cheiro de velório trazia consigo a dor de cabeça. Doce feito a doçura do olhar, feito bala de coco ou qualquer outra coisa doce. Ela sentia o gosto na boca, quase como se pudesse mordiscar o ar. E lá fora a moça do olhar segredado cortava a grama, tão tranquila e tão serena que era quase como se o mundo fosse apenas o pano de fundo – ela era a protagonista da vida, por que os carros não param e observam?

O poema estava jogado em cima da mesa, encoberto pelos livros e pelos cálculos. Ela tinha que escrever a história, ou a história trataria de se escrever sozinha, passando como um trator por cima dela. Você sabe o que acontece quando a gente ignora uma coisa dessas. Seja lá o que aconteça.

E a moça cortando a grama.

Se seu pai não tivesse matado as aulas de Português aquilo estaria em melhores condições. Mas lá estava ela, tentando decifrar com que seus cabelos se pareciam. “Seus cabelos são macios como as….” Como as? Como as o quê do mar? As ondas? Sete letras, uma caligrafia terrível. Não eram como as ondas, definitivamente.

O que a respeito do mar haveria de ser macio? Talvez devesse ignorar essa parte, usaria só a analogia da maçã. O fruto do pecado, isso renderia tanta coisa. Mas ficaria para mais tarde, no momento estava ocupada com a formiga. Sobe e desce e nunca se vai, nunca se cansa. No que pensa enquanto percorre depressa os dedos brancos e gorduchos? Ela tinha uma vontade de escrever gorduchos com x… quase como se isso pudesse deixá-los mais gordos. Usaria a analogia da maçã;

Olhou pela janela e a moça do cortador de grama tinha ido embora, sem nem se despedir. O sol tingia as árvores de um ruivo natalino – quem disse que seus cabelos tinham cheiro de Natal? Largou a flor desmilinguida em cima da cama e foi atrás do poema, mas se distraiu com a fotografia da turma pregada na parede amarelada pelo tempo. Por onde ele andou enquanto ela o procurava?

Apartment

14 de abril de 2012 § 6 Comentários

, a música soava familiar, embora ela estivesse certa de que nunca a escutara antes. Era algo na forma como o vocalista gritava as palavras que ela a muito custo conseguia traduzir – “depois de deixar meu apartamento eu sinto esse frio dentro de mim“. Depois de deixar a cidade ela sentia o frio se aproximando, não como a brisa doce cheirando a kiwi pela qual tanto ansiava durante as tardes longas e mormacentas de verão, mas como o frio impessoal e barulhento, o frio nebuloso e solitário que era digno de um filme europeu de final infeliz. O tipo de frio que, ela sabia, arrepiava o coração, e não os pelos do braço.

Ficou aliviada por ter ligado o rádio quando saíram de casa ou teria que iniciar e, o que era muito pior, manter uma conversa por todo o percurso. Aquilo seria impossível, considerando as circunstâncias. Derramou o olhar gélido por sobre o vidro embaçado da janela e se obrigou a lembrar quais eram as circunstâncias. Em primeiro lugar, Roberto está noivo. Noivo. Soletrou a palavra duas ou três vezes, para que a memorizasse bem e não corresse o risco de se esquecer momentaneamente de seu significado. Em segundo lugar, Roberto era seu amigo. Não, não era apenas seu amigo. Era seu melhor amigo. Aquela palavra tão pequenininha e tão carregada de acepção mudava a história toda. Ela tinha dezenas de amigos, todos eles muito adultos, maduros, íntimos. Todos eles eram maiores de idade, todos eles saiam com ela para beber nos finais de semana, todos eles se reuniam na casa de alguém para torcer e xingar em dia de jogo de futebol. Mas o adjetivo nanico que precedia o companheiro de festas e estudos mudava tudo: Roberto era quem estava lá quando ela não conseguia pregar os olhos durante a noite por causa da chuva. Roberto era quem estava lá quando ela tirava uma nota terrivelmente baixa (ou não tão terrivelmente baixa assim) e não sabia como parar de chorar. Roberto era quem estava lá quando ela acidentalmente bebia demais, e todos os outros queridos íntimos já haviam abandonado o bar há horas. Roberto, o garoto de cabelos escuros caídos por sobre os ombros largos como duas cortinas feitas de noite. O garoto do sorriso desnudo. O garoto do primeiro beijo. O garoto.

Qual era mesmo a circunstância? Alice esbarrou sem querer os olhos nele, tinha o queixo contraído, e nesses momentos era inevitável se lembrar do pai – só que ela nunca dizia o quanto os dois eram parecidos, porque sabia o quão irritado Beto ficaria. Afinal de contas, ninguém quer se parecer com um monstro. Mas era um monstro bonito, ah, era sim. Ela nunca mencionou o tropeço que tinha pelo ‘tio’ barbudo, aquela voz meio rouca e aquele jeito revolucionário, gostava de se sentar na varanda e ficar tocando violão, umas músicas em espanhol que faziam Alice inventar traduções alternativas, cada palavra um novo significado só dela. De certa forma ela sabia que um dia Roberto cresceria e ficaria a cara do pai, só não sabia que isso geraria mais que um tropeço – muito mais.

Roberto abaixou o volume do rádio, e Alice sentiu vontade de tirar os dedos dele dali e aumenta-lo de novo – ‘você não vai me obrigar a falar, vai? Por favor…’. Agora o carro estava parado, estacionado no encostamento. Havia árvores ao redor, estavam se aproximando da cidadezinha de habitantes alienados e fofoqueiros, todos uma gracinha, mas ainda não haviam chegado lá, Alice não suportaria um final de percurso repleto de conversa quando ela ainda discutia consigo mesma a respeito de que diabos estava fazendo ali.

– Você sabe que temos um combinado, não sabe?

Ela se obrigou a manter os olhos longe dos dele, e ainda assim era capaz de sentir a palavra se desvanecendo como se estivesse exposta às gotas de chuva que caiam lá fora. Noivo… noiv… no… O que era, mesmo?

– Como?

Os dedos de Roberto saltaram do botão para o rosto pálido dela, e aquele contato fez com que ela estremecesse. Depois de tirar delicadamente os fios de cabelos ressecados e distribuí-los metodicamente atrás das orelhas perfuradas, virou a face branca para ele. – Eu só estou te levando pra casa da sua mãe porque sei que a situação é delicada. Mas eu quero você de volta. E a tempo.

“Eu quero você de volta.” Queria mesmo? Com todos os defeitos, com todas as crises existências, com toda a feiura do rosto e a graça do corpo, com todo os adendos e com toda a paixão por Radiohead? Ah, se quisesse a teria, teria, sim. A Alice dos velhos tempos, dos tempos novos, do futuro e do felizes para sempre. Ficou deliciando a frase pelo momento em que foi possível, até que se sentiu obrigada a dar uma resposta, – A tempo…?

– O casamento.

– Ah.

Roberto franziu o cenho. Claro, o casamento. Do que ela achou que estivessem falando? Por favor, Alice, não torne as coisas mais complicadas do que já são. Como ele podia lhe pedir isso? Alice era a complicação em forma de gente pequena, sempre foi. Pedir para não complicar era como pedir para não ser – e nem ele nem ela queriam isso. Seja, Alice. Mas seja com calma, devagar, como tem que ser.

– Você vai.

Não era uma pergunta. Alice tinha vontade de chorar, só não entendia porquê; ela foi a primeira a saber do casamento, lembrava-se de estar em casa assistindo a Friends quando ele telefonou eufórico, mal conseguia falar, ‘Vou casar, Alice! Vou casar!’. E agora esse desespero súbito, essa necessidade de transformar em lágrima tudo o que ela não disse na ligação e tudo que ela não disse depois, não ia dizer agora e não chegaria a dizer nunca.

– Claro. Claro que sim. É só que… Você sabe, mamãe tá muito doente. Eu preciso ficar com ela, ela está tão velhinha, coitada. Eu tenho que ir, sabe. Mas eu volto, quando ela estiver melhor. Eu… não perderia isso, por nada. E é claro que mamãe vai melhorar logo.

Roberto sorriu porque sabia que era mentira, toda aquela história de não perder o casamento por nada.  E ele achava graça em assistir-lhe enquanto fingia – ela ficava rosa e agitada, as palavras vinham num fluxo exagerado, uma ideia atropelando a outra.

– Mas é claro. Eu vou te buscar, e te levar à força, se você não for com seus próprios pés.

Eles riram, e soavam tão bonitos rindo juntos. Alice tinha um ótimo dedo para melhores, e aquele era melhor em especial, era Beto. Seria um marido incrível, e um pai incrível, porque era um ser incrível. Então ela o beijou.

ps: Vermelhinha 1, por que eu sempre subestimo seus conselhos musicais? Fui ouvir essa banda agora e só depois de semanas passadas desde sua indicação me dei conta do quanto ela é incrível. Obrigada, hehe, vou roubá-la pra mim.

de amora ao amor

30 de dezembro de 2011 § Deixe um comentário

Ele ergueu um dos braços – o que tinha uma tatuagem de Ícaro que Alice adorava contornar com as unhas – e colheu uma amora, ainda verde. Alice abriu a boca, mordiscou o fruto. Franziu o cenho.

– Azeda? – Ele perguntou, os dedos penteando o cabelo escuro e liso, que lhe caia sobre a face.

Ela fez que sim com a cabeça – Perfeita.

Ele riu. Ele é Eriberto. O da tatuagem. Ícaro porque tinha essa fascinação por mitologia, em especial a grega. Era professor de História.

– É que ainda não está madura.

Alice lambeu os lábios. – Sabe que não concordo?

Eriberto uniu as sobrancelhas grossas, tirou uma mecha de cabelo dos olhos dela.

– Como assim? Não concorda que frutos fiquem maduros? – Ele riu – Não é algo com que se possa ou não concordar. Apenas é.

Ela se levantou, piscou os olhos depressa, como fazia enquanto defendia suas teorias e ideias, a maioria absurda.

– Não. Não concordo com isso, da fruta ficar mais doce e dar a ela o nome de madura. Por quê? E por que não é assim com a gente, com as pessoas? Ficam maduras e azedam, o sabor doce existe só quando se é jovem.

Ele pensou um pouco. Não sabia se concordava. Conhecia tanta juventude azeda, tanta juventude amarga. Tanto faz, não ia discutir com Alice. Não adiantava. Alice era boa nisso de brigar com pessoas, de ir até o fim por seus ideais, de lutar pelo que achava certo. Ou até pelo que achava errado, apenas gostava da sensação de ganhar. Abanou a cabeça num sinal afirmativo. Pegou mais amoras, as mais verdes, que eram as preferidas dela.

Ela as comeu rápido, parecia uma pequena e delicada máquina de comer frutinhas vermelhas. Sujou seus dedos com o suco da fruta.

– Veja, Beto, estou sangrando. – Ela fez uma expressão de dor, mostrou o pulso pra ele, o sulco vermelho escorrendo pelo braço.

Ele sorriu, os dentes meio amarelados, por causa do café. Ainda assim, era um sorriso bonito. Fez com que ela sorrisse também, embora estivesse dentro da personagem. Adorava estar dentro de personagens, era atriz. Por nada deixava de interpretar. Mas aquele sorriso… Ah, era o sorriso preferido dela, em todo o mundo.

Ele se aproximou, segurou seu braço com firmeza, mas sem fazer força. – Gosta de vampiros, não gosta? Pois vou ser seu vampiro, vamos brincar assim. – Ele lançou-lhe um olhar malicioso.

Eriberto beijou seus dedos, seu braço, o líquido vermelho vibrante.

Alice ficou ali, pele com pele, debaixo da árvore de amoras.

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