30 de novembro de 2015 § 2 Comentários

da janela do ônibus, Valentina observava os corpos diminuírem de tamanho, tornando-se cada vez mais dispersos, menos nítidos, mais impessoais. como se a cidade fosse uma maquete feita de avenidas de isopor e árvores de papel crepom, e os habitantes não passassem de bonequinhos de plásticos – todos pálidos, nus e sem distinção. apontou para a multidão que acenava da plataforma e fingiu interagir com os transeuntes. o senhor grisalho, que usava um guarda-chuva roxo como bengala e tinha um casaco de lã amarrado em torno do pescoço seria seu avô. setenta e quatro anos de pura saúde e forças nas juntas; articulações rijas capazes de dar conta de qualquer impacto. ele tirou os óculos e os depositou no topo da cabeça. “estão embaçados, a me incomodar. mais fácil enxergar sem!”. sorriu. na boca, a dentadura deslizava conforme as palavras eram expelidas, com calma. Valentina sabia que os óculos estavam perfeitos – ele só queria ter uma desculpa para passar a mão pelo rosto e enxugar as lágrimas que haviam se acumulado ali. ver a neta partir era sempre difícil, não importava quantas vezes presenciasse a mesma cena – e foram muitas vezes; às vezes, na mesma semana. ao lado do avô, o pai desenhava um coração com os dedos, no ar. tirou uma foto 3×4 que guardava na carteira, junto da moeda japonesa que achara na rua e do terço herdado da mãe – eram seus amuletos da sorte. acariciou o rosto da imagem, e depois encostou-a na janela molhada de sereno. apesar da distância, que só crescia conforme o ônibus lentamente se deslocava, foi capaz de traçar um esboço das principais mudanças ocorridas nos últimos anos. o pai da foto era tão diferente do pai do aceno, na rodoviária – nem parecia a mesma pessoa. o cabelo ficara grisalho, a pele escurecera consideravelmente. as manchinhas de sol que decoravam seu rosto na fotografia não existiam mais, e o sorriso tinha ficado mais tímido. ou talvez fosse a tristeza da ocasião a responsável pela ausência do sorriso. os olhos de Valentina foram percorrendo a plataforma, cada rosto desconhecido que, de repente, se tornava familiar e querido. uma tia, uma prima, o irmão mais novo, a amiga do colégio. todo mundo estava ali pra se despedir, todo mundo queria dar um último adeus, uma última olhada. guardar um pedacinho daquele momento consigo, que era pra ter do que se lembrar quando ela já estivesse longe há muito tempo. tanta gente estranha, mas era tudo que ela tinha.

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