O melhor esconderijo, a maior escuridão, já não servem de abrigo, já não dão proteção

16 de dezembro de 2011 § Deixe um comentário

Especialista que era em olhares de despedida, reconheceu o de Leandro no instante em que ele volveu seus grandes olhos castanhos em sua direção. Quanto tempo até que se vissem de novo? Imaginava as milhares circunstâncias – desde um encontro inesperado na fila do supermercado, anos mais tarde, a um trocar de alianças no altar de uma Igreja qualquer na Escócia. Mas havia aquela assombrosa possibilidade que se escondia debaixo de sua cama e saía para aterrorizá-la durante a noite, aquela cruel e enorme chance de nunca mais se verem de novo. E nunca mais, você sabe, é muito tempo. Tempo demais. Tempo que Aline não podia sequer se permitir pensar – porque doía. Doía se enterrar naquele olhar de terra e acreditar que talvez (e, por favor, apenas talvez) fosse a última vez. Doía sentir seu cheiro e se imaginar sem ele mais tarde, sem o perfume barato que se misturava com o aroma da camisa limpa. Por que ele tinha de ser tão… tão… ele?

Sorriu seu sorriso amarelo. Ainda assim, Aline tinha de admitir, era bonito. Mesmo com sorriso amarelo? Mesmo. Mesmo não, principalmente. É que tinha aquela mania horrível – que Aline aprendera a achar graciosa – de beber café nas horas vagas, e fumar. Só ela sabia como detestava aquilo. Quantas vezes ouvira a mãe reclamar? “Aquele seu namorado, quando vai parar de fumar?” Não é meu namorado, mãe. Infelizmente, ele é só (e isso agora parecia tão pouco) meu amigo. Mas ele era assim – consumidor de café e cigarros compulsivo. O que ia fazer? Nada. Ele a aceitava com todas as suas neuras e crises, e seu hábito de falar sozinha, em inglês. O que eram alguns maços perto disso? Sorriu de volta. Um sorriso quieto, triste. Ai, Leandro, assim não tem jeito. Como você me aparece todo bonito, todo lábios, todo olhares, e depois vai embora, levando meu coração embrulhado pra presente esmagado na sua mão?

O sorriso amarelo se esvaiu quase tão depressa quanto surgiu. Era hora de ir embora, hora de dizer até nunca mais, ou até um encontro acidental no supermercado, ou até nosso casamento na Escócia, querido. Pegou nas mãos dela, aqueles dedos finos e brancos, apertados bem apertadinhos no meio dos dedos morenos dele.

-Fica bem, tá, menina?

Ela se aconchegou no peito dele, os fios tingidos de vermelho na camiseta azul.

-Vou ficar. E você, vê se não some.

Como se adiantasse pedir. Ela sabia, era o olhar de despedida. Ele beijou-lhe a testa, os corações batendo juntos e acelerados, o calor de dentro contrastando com o frio da neve que caía do lado de fora. Tudo bem, Aline. É assim, a vida. Amigos vão e vêm, a gente segue, continua. Amigos.

Ele a desembaralhou dos braços fortes, enxugou-lhe o rosto, fique bem. Virou-se e foi embora, sem olhar pra trás nem nada, o passo apressado e largo de sempre. Sussurrou, para o vento, para os pássaros, para si próprio: ‘Te amo, Aline. Te amo’.

Ela ficou parada ali, degustando desesperadamente o olhar de adeus de Leandro, as lágrimas queimando o rosto gelado. Amigos.

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