16 de agosto de 2012 § 8 Comentários

Fernando esfregou as costas da mão no nariz – havia sangue.

Muito sangue.

Devia ter ficado em casa. Não devia ter nem saído da cama. Por que bebeu tanto? Por que era tão esquentado? Por que pontos de interrogação soavam tão falsos? Tocou o interfone, os dedos vermelhos manchando os botões rijos que ele apertava insistentemente. ‘Que merda, por que não atende’, e se interrompeu antes de pontuar. Em algum cômodo mal-iluminado de um dos apartamentos daquele prédio achatado, Julia dormia. Ou talvez ainda estivesse acordada. Mas se estivesse, atenderia. Então, havia mais alguém – e era esse ‘mais’ atrevido e peludo que o atormentava. Claro. Um homem. Um homem de meia idade que ela encontrava secretamente, porque achava poético andar por ai acompanhada de um pai divorciado, já meio grisalho e que preferiria café à bebida alcoólica. Um marmanjo qualquer que tenha sorriso amarelo e goste de Chico Buarque. Babaca, do jeitinho que ela queria; a barriguinha proeminente e as costas largas, o sotaque imitando o de um ator espanhol mal-pago. Apertou os botões com força, mal enxergava os números que foram sendo apagados pelo tempo e pelos dedos e pelas doses. O sangue agora entrava indecente pelos lábios esbranquiçados.

– Pois não?

Não era voz de homem, era a voz de Julia. Meio desacordada, meio irritada, meio curiosa, e não havia tanto inteiro para haver tanta metade.

– Ju? Ju? Julia, me deixa entrar.

Não respondeu. Fernando ouviu o som do portão sendo destrancado, abriu-o depressa, fechou-o com brutalidade. Por algum motivo ele estava sempre com raiva, sempre com medo. Por algum motivo ele havia roubado uma bicicleta, e agora estava morrendo de vontade de roubar aquela voz sonolenta, de grudar sua boca ensanguentada na dela.

Foi subindo os degraus, eram tantos e ele nunca aprendera a contar. Não realmente, pelo menos. ‘Quem garante?’, ele dizia. Não queria dizer nada, embora as sobrancelhas se franzissem como se estivesse diante da questão fundamental da vida. ‘Você quer respostas, mas nem sabe qual a pergunta’, ele a ouviu gritar noutro dia. Julia gritava muita coisa, mas ele só prestava atenção naquilo que pudesse deixá-lo entretido mais tarde, quando não poderia tê-la. Talvez a coisa mais bonita que já a ouvira dizer fosse ‘plaquetas’.

– Ai. Meu. Deus.

Subiu o olhar vago – mas não muito, ela era pequena. Alcançou a expressão assustada, os dedos brancos e finos tapando a boca, quase como se com eles impedisse as palavras erradas de escapar.

– …Oi.

– Tem sangue saindo do seu nariz. E da sua boca.

Ele assentiu.

– É. Eu senti o gosto.

Julia se aproximou, colocando os braços magros por debaixo das axilas dele. Estava suado. Fedia bebida. Carregou-o para dentro do apartamento, que não cheirava a homem nem a cigarro, para o alívio de Fernando. Pela primeira vez naquele dia um sorriso largo apareceu, e os dentes ligeiramente tortos eram rubros como os cabelos dela.

– Você vai tomar um banho. E vai me explicar isso tudo. Onde dói?

Ele se sentou no sofá. Não queria sujar a mobília, nem empestar a casa com seu cheiro – mas a gente passa a vida querendo coisas, e metade delas nunca deixa de ser desejo. – A cabeça. E os joelhos.

Estavam ralados. Ele havia caído.

– Como aconteceu, dessa vez?

Ia contar do roubo, mas era complicado. Era complicado justamente por ser simples demais. ‘Sou um idiota, um bandido, um ladrão. Eu roubei. Eu caí. E depois me envolvi numa briga.’ Não tinha total controle sobre a língua, ou sobre sua própria língua, ou sobre qualquer coisa. Não queria explicar, não queria enfrentar aquele olhar azul que era doce como o céu primaveril, mas num piscar das pálpebras rodeadas de longos cílios se tornava impiedoso e atormentado. Ficou quieto. Chegou mais perto. Ela tinha cheiro de banho e de perdão – tinha cheiro de Julia.

– Eu vou cuidar disso. Espera ai.

Ele segurou a barra de sua saia, antes que se virasse e fosse embora. Seus dedos ficaram parados ali, hesitantes mas insistentes. Julia ficou de joelhos, no chão. Passou as mãos pelos cabelos dele, depois contornou com as unhas a barba mal-feita. Aquela história era cheia de meios e maus, e ele sabia que não conhecia o propósito, nem o fim. Pouco a pouco, seus rostos foram se aproximando, e o coração batendo mais rápido, e a culpa se desvanecendo, e as interrogações dando espaço para as reticências de um penúltimo capítulo. Pouco a pouco, o som de sua respiração foi entrando no ritmo conturbado da dela, e ele já não sabia dizer quem era quem. O sangue ainda escorria pelo rosto – era uma visão desprezível e nojenta. Julia podia dar o nome que quisesse – mas ainda seria amor.

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das utopias

11 de agosto de 2012 § 4 Comentários

Pietra revirou os olhos – eles nunca pareceram tão grandes e castanhos.

Lorenzo a classificava como uma daquelas pessoas que não têm a boca circundada pelos lábios, e guardam secretamente o buraco negro da alma disfarçado de olhar, transbordando em ebriedade pelos cílios selvagens, escorrendo delicadamente pela face. Se tivesse que a beijar, seria nos olhos. “Se tivesse que a beijar”, repetiu para si mesmo, e a ideia soou desconfortável, mas convidativa. Havia uma razão para querê-la tanto, embora ainda não estivesse certo de qual era.

Estavam tão perto um do outro que ele podia ouvir Pietra respirando. O som quase inaudível ia e vinha acelerado, num ritmo de poema que Lorenzo gostaria de poder recitar. Seu braço estava ao redor dos ombros estreitos dela, e ele sabia que seus dedos frios a estavam incomodando, mesmo que ela não admitisse. A verdade era crua como a noite que pairava sobre suas cabeças: tudo o que os dois tinham era a frieza do corpo alheio. Numa quinta-feira silenciosa e insensata como aquela, alguns anos atrás, ela disse que nunca mais se apaixonaria. ‘Ainda bem que nós não nos gostamos’, ele concordou. Ainda bem.

– O que eu mais gosto nas estrelas é o som.

O que Lorenzo mais gostava em Pietra era o nome. E a forma como ela soava absurda. Por mais que soubesse o que viria a seguir, não se conteve e lhe deu a brecha: – Que som?

– O som silencioso. Você sabe. Essa coisa pacífica que não pode ser descrita nem entendida. Tão distantes e pequenas, elas ainda brilham.  Tão distantes e pequenas, elas ainda servem de inspiração e conforto pra gente que não tem luz própria. Gente como eu.

O que ele mais gostava nas estrelas era o mistério. Por amar tanto tudo o que tinha a ver com elas, sabia que não poderia ler nem sequer um livro repleto de teorias e explicações – isso estragaria tudo. Gostava de acreditar que elas eram apenas buracos cravados com unha no tecido escuro do céu. Buracos que revelavam indiscretamente um pouco do que havia lá fora.

– Senti falta disso.

– Do quê? – ela se virou, e ele mal podia enxergar seu rosto pálido no ébano noturno.

Tudo o que Pietra sentiu depois disso foi o gosto dos lábios sujos de amora.

“Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos se não fora
A mágica presença das estrelas!”

ladies wanna kiss you

3 de agosto de 2012 § 5 Comentários

Mas às vezes amá-la era muito difícil. Principalmente quando acentuava as palavras do jeito errado, mordiscando o lábio inferior e revirando os olhos quentes e castanhos. Só que no meio de tanta dificuldade havia um córrego leve e simples, tão tranquilo quanto o céu poderia ser. Franziu as sobrancelhas e as linhas de expressão foram cravando suas unhas na face antes lisa, os sulcos se abrindo na pele como flores brotando da terra. Era aquele detalhe singelo e rude que o fazia recordar os motivos implícitos pelos quais continuava ali, assistindo às mãos brancas e frias se movendo rapidamente enquanto ela tagarelava.

 

ps: eu não assinei nenhum contrato dizendo que tinha que escrever bem.

ou um cálculo matemático

29 de maio de 2012 § 3 Comentários

A borboleta pousou no parapeito da janela e permaneceu ali, exposta ao sol, quase como se, concentrada do jeito que estava, fizesse uma oração, ou um cálculo matemático.

“Senhor Deus das borboletas” – ou seria das mariposas? Ou seria o mesmo Deus de sempre, aquele senhor simpático de barba branca que corre por entre as constelações vestindo seus chinelos de dedo? – , ela diria. Mas é claro como água intocada por humanos que Pietra não entenderia, mesmo que falasse a língua dos homens e a língua dos anjos porque, bom… ela não sabia em que língua falavam as borboletas/mariposas. E antes que pudesse tentar algo em inglês ou espanhol, a coisinha voadora finalizou a prece ou o cálculo, ou sabe-se lá o quê, e foi embora. Provavelmente era uma mariposa. Borboletas nunca iriam sem antes se despedir.

Eriberto volveu o olhar cor de oceano nada pacífico em direção a Pietra, ele tinha cheiro de cigarros e creme de barbear. E de batatas. Em algum lugar, lá no fundo… batatas. Ela estendeu a mão e deixou que os dedos dele pousassem, leves e concentrados, como a mariposa que um dia fora borboleta, na palma alva e molhada, dançando por sobre as linhas que se ramificavam na pele. O mundo acaba hoje e eu estarei dançando… Talvez ela devesse dizer. Aquilo, duas palavras, oito letras. Talvez ela devesse se aproximar e aspirar, e sentir no rosto pálido a barba mal-aparada. Ele ficava tão bonito de barba. E sem barba. E de olhos abertos, e de olhos fechados, e sorrindo seu sorriso torto e sorrindo seu sorriso reto, e mudo e falante, e quieto, calado e gritando e cantando e sério. Ele era tão tímido que ela quase não acreditava. Tímido e tagarela, como pode? Não sabia como se sentir diante dele, diante de toda aquela complexidade tão simples. Diante de todo o paradoxo que ele era.

“Mas era uma mariposa ou uma borboleta?”

Ele riu. Baforou no ar: “Ma. Ri. Po. Sa. Mariposa. Mari, pousa.” Sim, sim, marido e esposa, ele já tinha desmembrado a palavra antes. Eriberto estava sempre se esquecendo das coisas. Talvez por isso ainda não se cansara dela.

“Mariposa, em espanhol, quer dizer borboleta”, ele disse, com seu sotaque carregado. Mas que contraditório. Então ela era os dois, de qualquer maneira. Borboleta, mariposa… aqui um bicho, lá nos campos argentinos outro. “La lengua de las mariposas…”, sussurrou.

La lengua de las mariposas. “Dejáme ver seu futuro”, ele disse. Pietra nunca entedia o que ele queria dizer, aquela mistura louca de línguas, aquele movimento louco da língua, o acento espanhol fortíssimo e o português ainda em construção confuso. Olhava para os dedos brancos e suados. Pietra ficava nervosa quando ele chegava perto, talvez fosse o cheiro de batata. Arranhou-a de leve, tão delicado ele, sem nem querer ser. Uma delicadeza máscula, uma força desajeitada e ao mesmo tempo cuidadosa, como se soubesse que toda a sua experiência e toda a sua maturidade poderiam quebrá-la em duas se ele se desatentasse. Ela recolheu a mão. Não. Não deixo. “Deixa que eu vejo o seu”.

“Pero es lo mismo, Pietra. Es lo mismo.”

Permaneceu estática. Por que ela só entendia metade do que ele falava? (Porque a dúvida é o preço da pureza e é inútil ter certeza e eu vejo as placas dizendo não corra, não morra, não fume… eu vejo as placas cortando o horizonte, elas parecem facas de dois gumes) Porque seu português era indecente e seu espanhol muito trabalhoso. Ou talvez ela preferisse assim, fazer-se de desentendida pra não ter que concordar. Es lo mismo.

“Me diz alguma coisa em espanhol? Qualquer coisa. Mas uma coisa bonita.”

Eriberto sorriu, dessa vez tortamente. Era um sorriso de Michael Fassbender, todo largo e infinito, um ar sarcástico e peralta. Ela se derreteu, mas só um pouquinho. Ele lambeu os lábios, meio ressecados por causa do frio. “Añoranza.

Añoranza. Recitou a palavra, deliciando o som do ‘nho’, mastigando bem a pronúncia do ‘ssa’. ‘Sssssa’. O que é?

Ele se aproximou. Estava apoiado sobre uma das mãos, as veias do braço direito coberto de sardas agora mais aparentes, as pintinhas claras formando um caminho secreto para debaixo de suas roupas. O cheiro do cigarro cada vez mais alto, o cheiro do creme de barbear, o cheiro de Eriberto (añoranza). Devagarzinho, encostou o nariz de estatueta grega na bochecha corada dela, que instantaneamente se incendiou. Pousou (porque a vida era mesmo feita de pousos) silenciosamente os lábios finos na borda da orelha. “Ssssaudade, Pietra. Significa (o ‘g’ desaparecendo no meio do ‘n’ guloso) saudade”.

 

ps1: qual é a palavra mais bonita do idioma espanhol?

ps2: eu sei gostar de Pietra. E de Eriberto.

ps3: não importa o que vocês digam, eu finalmente o transformei num texto.

ps4: certo, eu já tinha feito isso.

ps5: fim.

22 de abril de 2012 § 2 Comentários

“eu queria ser assim, como uma árvore” ela disse.

Paulo ficou parado, apenas encarando seus olhos escuros. escuros como a noite, pensou. uma noite sem estrelas, noite vazia, solitária. uma noite crua, como aquela.

“uma árvore? com tanta coisa pra você querer ser, você escolhe logo uma árvore?” ele passou os dedos pelas longas madeixas de cabelo, cabelos de índia. tinha uma música que falava de índia, não tinha? índia da pele morena, sua boca pequena eu quero beijar. beijou. a boca, as bochechas, os olhos. foi beijando o rosto inteiro, de repente parou. melhor assim, sem muito beijo, que eu prefiro ficar te contemplando toda bela e toda pura, toda minha, ele dizia a si mesmo enquanto a imaginava índia.

“o que há de errado em querer ser árvore?” ela perguntou, um sorriso malandro nos lábios pintados de púrpura.

“o que há de especial numa árvore?”

ela se ergueu um pouco, apoiando a cabeça sobre os cotovelos no travesseiro. cotovelos, palavra engraçada, pensou. e podia ficar ali o resto da noite, pensando na graça que via nos próprios cotovelos, nos cotovelos alheios e no nome que aquilo levava, mas tinha que explicar a Paulo a história das árvores. ai, Paulo, nunca entende nada…

“pensa numa árvore. pensou?” Paulo fez que sim com a cabeça, os cachinhos do cabelo louro balançando. “tá. agora pensa em como ela nasceu. de uma semente, né? uma semente pequenininha, assim” ela mediu a semente com os dedos, quase que unindo o indicador ao polegar. depois pôs os dedos na boca de Paulo, ele os beijou. semente, semente, se não mente fale a verdade… tinha tanta música na cabeça, mas o quarto ainda estava quieto.

“entende? uma semente pequena de repente cresce e olha, vira árvore. uma árvore gigante e forte, robusta… cheia de folhas, que caem, e então nascem de novo, e caem de novo, e então renascem. o que eu gosto nas árvores é isso, Paulo. elas apenas são, entende? elas não pensam no que queriam ser, não tentam entender como tudo acontece, como nascem, e então tem filhos e etcetera e tal. elas só… bom, elas só são. e eu não consigo ser e só ser, entende?”

Paulo tamborilou os dedos brancos na cabeça de Aline, minha índia. “entendo, entendo. pra que tantos ‘entende’, eu entendi, querida, entendi. mas não sei se concordo. como sabe que a árvore é assim, passiva, só é e só vive? e se dentro daquele tronco parrudo existir um mar de dúvidas, e você nem sequer sabe? e se aquela árvore gigantesca do nosso jardim estiver se perguntando porque não pode ser como a menina morena da boca pequena que eu quero beijar? tão simples, tão apenas vivendo e sendo o que é? vai ver cada ser tem essa mania, de tentar ser menos, tentar entender menos, não sei. acho que se fosse árvore ia querer ser outra coisa.”

Aline mantinha os olhos nos próprios cotovelos. talvez tivesse razão, sobre isso de que nada apenas é, nem mesmo as árvores. não tinha como ter certeza, afinal de contas. “então que faço? se não posso nem querer ser árvore? que faço pra parar de tentar ser mais, que faço pra só existir?”

ele beijou seus braços escuros, a pinta, a pele de índia, que pele bonita ela tinha. o contraste com a dele fazia parecerem quase que opostos, o olho claro, o olho escuro, céu do dia, céu da noite. “por que só existir? fica aqui, dorme do meu lado, entende que te amo e é só isso. e deixa quieta essa sua angústia, deixa quieto esse seu espírito. só deixa, tá bem?”

deixou. dormiu nos braços dele, ele nos dela. os dias indo embora como as folhas das copas das árvores.

(então, tava falando de árvores com você ontem, não tava? e aí escrevi isso. eu sei, ficou ruim. mas, sei lá, queria contar dessa minha vontade de ser árvore sem deixar solto, então a menina queria ser árvore e eu a entendo… porque deve ser simples, realmente. ai, que vontade de ter nascido semente, dai não viveria essa loucura que é o não entender aqui dentro. complicado demais – ou a complicada sou eu? enfim… desculpem)

O primeiro foi seu pai, o segundo seu irmão, e o terceiro foi aquele a quem Tereza deu a mão

12 de março de 2012 § Deixe um comentário

Quando Tereza se deu conta lá estavam as mãos dele, segurando firme nas suas, seus lábios carnudos sussurrando promessas tentadoras ao pé de seu ouvido, o corpo quente tão próximo que ela quase se esquecia de que ele era um babaca e a única coisa que merecia dela era um tapa na cara, um chute nos países baixos e um eterno adeus. Olhou fundo nos olhos tropicais, e repetiu para si mesma que se ele não fosse tão barbudo as coisas seriam diferentes. Ah, me engana que eu gosto, Terezinha.

– Quer parar? – ela disse, se livrando do abraço quente e apertado dele.

– Não, não quero. E nem você quer. Agora, quer deixar de ser boba e me permitir amar você?

– Já chega, Davi. Você sabe que isso não é certo.

Davi – o bonitão de barba mal-feita e tatuagem no peito (o pivô da pior briga dos dois) – revirou os olhos escuros feito oceano quando não se tem o sol para iluminar a turbulência selvagem que há lá embaixo, e sorriu seu sorriso Colgate.

– E você sabe que eu nunca me importei em fazer o que é certo.

– Então talvez seja hora de começar. Já pensou o que sua mulher faria se nos visse assim?

– O que a Ingrid faria, você quer dizer.

Tereza ajeitou a blusa decotada, arrumou o cabelo desgrenhado por trás das orelhas salientes e continuou, num tom sério que lhe caia muito melhor do que aquele sorrisinho trouxa do qual ela andara abusando nos últimos meses:

– Não, eu quero dizer sua mulher, porque é isso que a Ingrid é.

– Nós estamos nos separando…

– Mas ainda não estão separados. E isso muda tudo.

– Ah, por favor – Davi passou a mão pela barba densa, a voz num tom debochado que fazia Tereza querer gritar e chorar, ao mesmo tempo – não venha bancar a Madre Tereza pra cima de mim. Há meio minuto você não dava a minima para o fato de, tecnicamente, eu ser casado. Não finja ser a religiosa que você não é, Têre. Não fica convincente.

A feição de Tereza se contorceu toda, sentia tanta raiva que era capaz de dar as costas para Davi naquele instante e ir embora, sem dizer-lhe uma única palavra – mas é claro que ela não o fez. Por causa da barba, do sorriso, de todo o ele que estava ali diante dela, implorando com um olhar suplicante para que não o levasse tão a sério e ficasse.

– Não é uma questão de religião, idiota – ela falou, entre dentes – é uma questão de ética. E você devia saber disso. Não é o sabichão, senhor que cursa a faculdade de Filosofia?

– Somos todos uns hipócritas, não somos?

Ah, o jeito cínico de Davi a tirava do sério.

– Você é. Não iguale a humanidade a você, Davi. Nem todo mundo é tão sem moral.

– Quer saber? Se você me acha tão detestável, por que não vai embora? Por que você não se vira, e sai? Eu não vou te impedir, você sabe disso. Eu posso ser um hipócrita, um babaca, um idiota, como você mesma diz. Mas eu não vou te forçar a nada que você não queira. Eu nunca fiz isso, e nem vou fazer.

Simples assim. Se vire e vá. Corra, Tereza, Terezinha, Terezoca, corra corra e corra. Você é livre, por que não abre suas asas de papel crepom e voa com destino ao… Paraíso? Não precisaria se mover muito para chegar lá, os olhos dele eram a versão mais autêntica do Paraíso que ela conhecia. “Diacho”.

Davi chegou mais perto, o cheiro do perfume barato misturado com o do vinho que seu hálito exalava entorpecendo os sentidos e as vontades de Tereza – Você sabe, Terezinha, que eu te amo. Então não se preocupe, tá bem? Eu te amo.

da cicatriz, da necessidade, de preposições e da menina que não sabia amar

1 de março de 2012 § Deixe um comentário

Era uma necessidade absurda, ainda que anônima.  Lorena gostava mais das coisas quando ainda não tinham nome e podia batizá-las como bem entendesse – só que nesses últimos dias não tinha entendido nada. Mantinha o olhar ligeiramente verde fixo nas próprias mãos, e umedecia e emudecia os lábios com a língua rosada, aquela boca que era pequena demais para o tamanho das palavras que queriam sair dali de dentro. Flávio tomou um gole de café, e Lorena fez o mesmo porque pensou que seria mais sofisticado de sua parte se fizesse. Detestava café, não suportava nem o cheiro – mas era uma questão de honra. Levou a xícara até os dentes, fazendo-os tilintar. O vapor quente subiu-lhe à cara, torceu o nariz sardento, contou mentalmente até três e jogou tudo goela abaixo. ah! O sabor da vitória, deliciava-o com tamanha intensidade que quase não sentia o desgosto de provar o gosto amargo do café – pedira sem açúcar, já que tinha acordado determinada a ser corajosa. Olhou fundo nos olhos de Flávio e sorriu, satisfeita. Os olhos foram descendo, escorrendo pelo rosto enrijecido e estranhamente tranquilo, roçaram a barba mal-feita, deslizaram pelos lábios contraídos, até que chegaram ao pescoço.

Foi quando ela percebeu que ele tinha uma cicatriz. Ficava ali, escondidinha, tão pequena e tão bem disfarçada que quase passou despercebida, mas Lorena foi mais rápida e avistou-a antes que ele mudasse de posição e ela a perdesse de vista. E foi por aquela cicatriz que ela se apaixonou.

Tudo a respeito de Flávio era desumano demais. O sorriso, o olhar, o falar, o gesticular, seu ar paradoxal era inteiro divino, e Lorena aprendera a detestar aquilo. Estar sentada na mesma mesa que ele era como estar cercada por um júri, e sentia-se avaliada todo o tempo, como se até mesmo o arquear de suas sobrancelhas grossas não estivesse à altura do companheiro. Mas aquilo era carnal. Aquele ferimento era a prova, um sinal de que era gente como ela, que cometida erros, que se arrependia, que desejava. E a palavra fez com que ela estremecesse. Foi aquela lua pendurada na pele do pescoço, quase como um pingente, que a fez sentir absurda. Absurda como a necessidade que tinha, absurda como era quando pequena e via nas coisas uma complexidade inexistente, do mesmo modo que olhava para os cálculos matemáticos e achava respostas simples e harmônicas, utilizando-se das próprias regras que eram as regras da vida. Mas não se tratava de cálculos, de complexidades, de vida. Se tratava de Flávio, de como Flávio a tratava, de como ele a olhava e não demonstrava um pingo de atenção, embora fosse todo ouvidos e todo olhos para ela. Se tratava daquela vontade louca que tinha, e nem sabia direito de quê.

Já era a terceira ou quarta vez que se encontravam no mesmo bar, ela com suas saias justas, ele com seu riso largo. Quando pensava em vê-lo o coração batia depressa, como se adiantar-se fizesse o tempo passar mais rápido e levá-la logo para ele, ele, que nem sequer a tocara até então. Ele, com aquelas sobrancelhas unidas, aquele rosto fechado, aquela cicatriz que agora Lorena não perdia de vista. Ele, que visitava seus sonhos todas as noites, que inundava seus pensamentos com hipérboles, que era tudo que ela queria agora. Ele, Flávio, escritor, vinte e tantos anos, talvez beirasse aos trinta, divorciado, sem filhos, pelo menos até onde sabia. Ele, com as mãos calcadas estendidas atrás da cabeça raspada, o olhar meio perdido em algum lugar entre seu sorriso escurecido pelas doses de coca-cola e o fecho da blusa decotada. Não havia suor. Lorena sentia-se úmida, o sangue transbordando do corpo, mas não havia provas, não havia lágrimas, não havia transpiração. Queria a liberdade de derramar para fora de si a imensidade daquele sentimento, aquela liberdade que lhe era sua por direito, mas que fugira para algum campo do sul e nunca mais voltara, deixando-a ali, fechada, os lábios pintados se abrindo e cerrando, tanta coisa pra dizer e ao mesmo tempo sentia que precisava permanecer calada. Não falaria nada até que Flávio quebrasse o gelo com sua voz de trovão, sua perspectiva torta, seus ideias hipócritas, mas ainda assim (ou por isso mesmo) revolucionários.

Viu-se tomando mais um gole de café, e não era nem por ser desafiada nem porque sentia vontade, só queria algo que lhe ocupasse a mente enquanto o olhar vagava pelo corpo forte de Flávio. Vontade. Ele se levantou, ajeitou-se na cadeira de plástico e tomou mais café – Lorena pensou que talvez dessa vez só bebesse porque ela bebia, e então deduziu que se o amasse ele talvez precisasse amá-la de volta, senão perderia o jogo. Soava meio arriscado, mas era o dia de ser corajosa, refrescou ela mesma sua memória, e sorriu como que se a resposta da questão quinze de Matemática estivesse logo no enunciado da próxima. Parou por alguns instantes, tocou de leve a mão dele, imaginando que Flávio a faria escapar dali, fazendo o encontro dos dedos parecer acidente, o encontro das almas parecer acaso, o encontro dos corpos parecer aventura. Mas não. Ele apenas se deixou ficar, sentindo com a ponta do dedão o comprimento exagerado das unhas dela, que ele já disse que preferia curtas. Olhou bem para o rosto da moça, para o corpo que nem era mesmo um corpo de Lorena, aquele frasco onde ela gostava de guardar o espírito, e pensou no quão absurdo lhe parecia necessitar tanto de algo, necessitar tanto dela.

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