flores

2 de novembro de 2014 § Deixe um comentário

havia flores espalhadas pelo quarto; flores que exalavam cheiro de velório.

se esquecera do nome das flores. costumava sentir o mesmo cheiro enquanto caminhava com sua tia pelas ruas ainda não asfaltadas da cidade, quando era pequena e gostava de correr descalça. não mudara tanto assim, mesmo com a chegada dos anos e do asfalto. ainda preferia andar sem sapatos, sentindo o frio do piso de granito por debaixo dos pés, morenos no peito e ainda mais morenos na sola – o pó que ela não varria e as cinzas dos cigarros que ela compulsivamente consumia se acumulando por entre os dedos, por debaixo das unhas, por dentro da alma que hoje era toda azul.

havia flores espalhadas pelo quarto, e ela se mordia de vontade de conjugar o verbo no plural.

no rádio, era sua nova música preferida que tocava. ouviu pela primeira vez parada no semáforo, com o volume bem alto que era para não escutar o barulho da chuva lá fora. não foi só a aversão a calçados fechados que perdurou, resistindo ao tempo que a atropelara – ela ainda tinha medo dos raios e dos trovões e da voz grave de sua tia gritando seu nome e o nome das flores que tinham cheiro de velório. um cheiro que era doce e atraente a princípio, mas tornava-se enjoativo e repulsivo quando se prolongava. dava gastura, a tia diria. ou gritaria, em seu tom de voz tão grave, com seu jeito de olhar igualmente grave.

era dessas que se apaixonam por cheiros, e por canções que tinha dificuldade para traduzir. gostava de apontar para os prazeres da vida e torná-los seus preferidos. o mar preferido, o cheiro de protetor solar preferido, a árvore preferida e a pinta preferida. agora a canção se repetindo por semanas intermináveis, apegando-se à ouvinte, depositando seus versos por cima da cômoda vazia, deixando vestígios pelas paredes mal-pintadas que percorria, emaranhando-se e embaralhando-se pelo apartamento apertado – agora a canção era parte da casa, como a trilha sonora de um filme francês de final chato e triste. como o pano de fundo de um quadro complexo demais para ser entendido por qualquer um que tenha bom senso. como a abertura da novela das nove.

depois daquele dia só escutou a mesma música, sem cessar. no rádio do carro, no rádio do quarto, no rádio do seu micro escritório de trabalho, enquanto digitava palavras cujo significado desconhecia. agora, despida na frente do espelho, maquiava-se e sibilava, tentando imitar a forma como a cantora jogava as palavras para o alto, numa bagunça de rimas que se confundiam e se desconstruíam, para depois se construírem de novo. em seus passeios pelo dicionário acabou por entender um trecho, para o qual fez questão de apontar e gritar, meu novo trecho preferido. quando estava se afogando, era quando finalmente podia respirar.

afogava-se pouco a pouco no cheiro de velório.

de repente lhe ocorreu que nunca fora a um velório. aquele era o único contato que tivera com a morte – o cheiro das flores. sentou-se no chão, as pernas de índia cruzadas como pernas de índio. a pele escura em contraste com o tapete alvo e felpudo, quente. os cabelos longos lhe cobriam o rosto periodicamente, graças ao ventilador. queria cortar o cabelo. queria mudar-se para a praia. queria ter uma bicicleta.

ficou estática, brincando de estátua humana. se se mexesse, morria. não queria morrer, mas as flores já estavam ali, e a música que achava tão bonita dava ao momento um tom propício. se morresse, não seria uma morte tão feia, afinal. seria triste – como o fim de um filme francês. teria um final francês, mas que privilégio. quantos podem se dar esse luxo hoje em dia? morreria morena, com os cabelos ao vento, com o corpo nu. crua como se sentia, com cheiro de perfume barato e de velório, com as paredes meio brancas meio azuis, com os lábios machucados de tanto que os mordiscara noite passada. morreria sentada no chão, encarando o próprio reflexo. mas só se se mexesse. ainda existia a possibilidade da ausência do movimento, da vida.

o reflexo no espelho lhe dizia muitas coisas, mas era preciso estar bem quieta e atenta para entender, porque falava rápido e baixinho. quase como um sussurro, quase como o som do ventilador rodopiando ao redor do eixo, como a terra dando voltas em torno de si mesma, como a música se repetindo e se repetindo e se repetindo e se repetindo. o reflexo tinha olhos inchados e rímel borrado, e se parecia com alguém que ela jurava que conhecia. olhava com cuidado, porque reflexos costumam ser instáveis. olhava discretamente, porque tinha de ser educada. olhava com um olhar assustado, porque as flores estavam ali a observando, e ela não desejava a morte. o reflexo pronunciou um nome e ela soube ler, vagarosamente. ri…carrrrr…do. os lábios se fecharam subitamente. como uma porta que alguém esquece de encostar, e subitamente o vento sopra e ela se fecha. como um caixão ornamentado que armazena um corpo pálido e gélido, e subitamente alguém se despede e ele se fecha. como olhos que num instante estão despertos, dispersos, brincando de analisar o teto, e subitamente o sono chega – e se fecham. os lábios se fecharam e a palavra ficou suspensa no ar denso, navegando pelas ondas do cabelo dela, voando junto dos fios, no frio do quarto, no calor do tapete quente, galgando os degraus da pele morena e suja e cheia de pintinhas microscópicas, a constelação de capricórnio. ela se lembrou de um pedaço de livro que a mesma tia das flores e da voz grave lera uma vez para ela. falava dos olhos nus, da ausência de cílios postiços. não sabia o que porquê de lembrar, mas se lembrara. olhos nus, como nua ela estava. mas ricardo era uma palavra forte, que provocava reações adversas, sensações das mais diversas. era quase como uma dor física. era quase como arrancar uma camada de pele. e poderia se levantar e quebrar o espelho, para que o reflexo fosse embora e nunca mais voltasse. reflexo atrevido, desenterrando histórias que naquele mesmo quarto foram sepultadas. mas as flores estavam de olho. não se mexeria e continuaria viva, com o corpo se sentindo tão pesado e tão cansado – de repente o cheiro das flores tornou-se insuportável, fazia o ar pesar como se estivesse sustentando o mundo nos ombros estreitos. e pensou que o cheiro das flores era como o cheiro de ricardo – como o cheiro de morte. e pensou que as flores eram como ricardo. doces e atraentes a princípio, tornando-se enjoativas e repulsivas conforme se prolongavam.

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