“eu sinto falta da Terra,

18 de março de 2012 § 2 Comentários

Clarice volveu os olhos castanhos em sua direção, fazendo com que Arnaldo instantaneamente mudasse o rumo dos seus, fingindo não notar o esbarrar acidental das almas conturbadas.

Tinha de ser cuidadoso. Estavam os dois naquela fase inicial do jogo, onde quem permanecer tempo demais com os olhos equatoriais perambulando sobre a face alheia perde – e só ele sabia como era absolutamente tentadora a ideia de perder, de se perder, se o prêmio fosse o gozo de permanecer ali, observando atentamente o corar das bochechas alvas dela. Quase tinha vontade de levantar bandeira branca, assumir em público o desejo ardente de se resignar, poder admirar sem pudor a forma como os dedos da menina castigavam a mecha de cabelo rebelde colocando-a metodicamente atrás da orelha, as sobrancelhas se unindo contra a insistência inconveniente dos fios marrons. Em vez disso, tilintou o talher no prato de porcelana, agrupou cuidadosamente os grãos de arroz e enfiou um punhado de ervilhas na boca, disfarçando um sorriso tímido que se dirigia involuntariamente à Clarice.

Era bonita. Não da forma convencional – não tinha curvas graciosas, nem no corpo nem no riso, era apenas um amontoado de brancura e vergonha, como se pecasse pelo simples fato de existir. Os cabelos bem cuidados lhe caiam sobre a face, lisos e castanhos, num tom mais claro que os olhos. Ah! os olhos. Podia pensar neles de novo, sem que sua mente se sentisse redundante? Não era escolha, demoraria a eternidade pensando apenas nos olhos, aqueles globos grandes e marrons, quentes como um dia mormacento de março. Gostava de assistir-lhes observá-lo reservadamente. Gostava de sua boca pequena, da maneira como os lábios finos permaneciam ligeiramente abertos, deixando os dentes brancos e separados à mostra. Gostava da pinta que enfeitava seu rosto redondo logo abaixo do olho esquerdo, das sobrancelhas arqueadas e negras, do nariz levemente adunco. Gostava de tudo a respeito dela, e sentia-se estranho porque aquilo tudo era novo, e vê-la e sentir seu coração bater depressa era surpreendente – não importava quantas vezes ele a visse durante o dia, cada reencontro era uma nova onda de nervosismo percorrendo seu corpo.

Era engraçado, porque eles nunca haviam de fato conversado. Fazia semanas que ele estava hospedado ali, na casa de sua madrinha, mãe de Clarice, e até então seus maiores e mais complexos diálogos se retinham em assuntos como o tempo. Ele mal podia esperar para perguntar-lhe sobre suas músicas preferidas – se tivesse sorte, talvez ela citasse algo de Elton John ou BeeGees. Mal podia conter-se ao imaginar as conversações, as confissões entusiasmadas, a amizade que cresceria entre os dois e, mais tarde, transformaria-se em algo maior. Mal podia esperar para tocar-lhe o corpo, os cabelos, para sentir-lhe o cheiro e o gosto, para poder olhá-la sem sentir receio de não ser correspondido. Mal podia esperar por tanta coisa, e tinha medo de que tanta coisa morresse como nascera – um conjunto de desejos e devaneios loucos e atormentados. Tantas semanas e ela se limitava a olhar, corar e sorrir. Depois desviava os olhos e continuava acenando a cabeça afirmativamente, enquanto a mãe dizia qualquer coisa sobre livros, peças de teatro a que nunca realmente assistira e estudos.

Ah, ele daria qualquer coisa por um momento a sós com ela, um único momento e lhe diria o que sentia e pensava desde que colocara os pés naquele sobrado, desde que a vira cambaleando ébria para dentro do quarto – a mãe aos gritos do lado de fora da casa, já era tarde e a filha estava por ai, com amigos mais velhos e desaprovados. Rosana, a madrinha e, com sorte, futura sogra, dirigiu-se à filha e lhe pediu que fosse até a cozinha buscar a sobremesa. Clarice assentiu, levantou-se, não sem espiar com o rabo do olho o rosto másculo de Arnaldo, e saiu.

Antes que fosse tarde ele se ergueu, pediu licença, retirou-se e correu até o cômodo onde Clarice se encontrava. Ela se virou na direção dele, já esperava que fosse seguida, talvez até torcesse por isso. Colocou as mãos ao redor da cintura dela – precisava ser astuto e pular algumas etapas. Clarice o encarou por alguns instantes. Arnaldo avançou um pouco, hesitou. E ela fez questão de preencher o espaço vazio, seu hálito alaranjado entorpecendo por um breve segundo os sentidos dele. Mais perto, mais perto, mais perto, até que não havia mais espaço para avançar. Arnaldo ficou ali, os lábios se movendo junto com os de Clarice, tão urgente como se tudo naquele momento devesse ser secreto – e como preferia que fosse, realmente, o segredo tornava o beijo mais precioso e necessário.

30 de dezembro de 2011 § Deixe um comentário

As palavras atingiram os ouvidos de Nicole como tiros.

Onde estava o sangue? Descia-lhe pelo rosto, um suicídio de lágrimas. O gosto salgado da dor, não devia ser amargo? Estava cansada demais para pensar, onde estavam seus remédios, onde estava o torpor? Porque continuava doendo, mesmo sem ferida nem corte? Doía. A luz invadia o quarto escuro pelas frestas da janela, exatamente como o sentimento intruso, abrindo caminho por entre seus lábios, os beijos, os gritos, os tiros… A sensação. Por que o melhor sentimento é também o mais destrutivo? Ela sentia vontade de vomitar. Colocar pra fora a sensação de perda, colocar pra fora as entranhas, que é pra ver se ele volta, pra recolocar no lugar. Era médico, não era? Volta. Conserta. Faz uma cirurgia pra tirar dela o coração baleado, que ela já disse que não é à prova de balas. A luz do sol invadia o quarto. Quer dizer que é dia, amanheceu. Sobreviveu. É diferente, ela sabia. Sobreviver não equivale a viver, o médico não era o mesmo que oxigênio. Mas qual dos dois preferia? A resposta abriria um buraco ainda maior, ela sabia. É que tudo era muito sem sentido e injusto. Ele vem, ele dá amor, ele apaga as pegadas antigas. É pra ter espaço para suas próprias. Colocou o telefone no gancho. Enrolada nas cobertas, sentia um calor torturante, do tipo que parece queimar o corpo. E o que restaria, as cinzas? A dor ficaria ali, ela sabia. Se ficaria, pra que se queimar, pra que se desfazer? Doeria do mesmo jeito. Deixou-se cair na cama, o som perturbador dos batimentos cardíacos. Quais foram as palavras? Ele disse que não era culpa dela, não era culpa de ninguém. Então quem pagaria pelas cicatrizes? Que nome ela devia gritar? O nome dele. Mas ela nem sabia mais quem era ele. Deitada ali, sentindo pesar sobre seus ombros o cansaço. Ela ficará melhor depois, não ficará, doutor? Ele disse que sim. Que passa, que esquece. Que o tempo apaga. Apaga. Apaga. Por que não apaga logo, por que não passa um vento forte e ensurdecedor por sobre as declarações torturantes dele? Passa, passa depressa. Ela só queria poder voltar para os braços fortes dele. Mas não era culpa dela, não era culpa de ninguém.

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