10 de julho de 2012 § 5 Comentários

Foi escorregando para o fundo da banheira até que toda a cabeça estivesse submersa, os cabelos tingidos de vermelho ficaram flutuando no meio da espuma que cheirava a morango enquanto ela apertava com os dedos enrugados os olhos fechados – mas mesmo no escuro ainda o enxergava claramente. Daniel. Ergueu-se abruptamente, as gotas de água respingando do cabelo como as gotas de Júpiter sobre as quais o cantor com sotaque caipira gritava no rádio – ‘agora que ela está de volta à atmosfera…’ Não estava. Sentia-se alheia a tudo aquilo, como se em algum momento lá atrás tivesse sido transportada para um outro planeta, uma outra galáxia, talvez, e desde então assistisse aos acontecimentos alojada em uma estrela cadente, sem nunca interferir ou participar.

ou um cálculo matemático

29 de maio de 2012 § 3 Comentários

A borboleta pousou no parapeito da janela e permaneceu ali, exposta ao sol, quase como se, concentrada do jeito que estava, fizesse uma oração, ou um cálculo matemático.

“Senhor Deus das borboletas” – ou seria das mariposas? Ou seria o mesmo Deus de sempre, aquele senhor simpático de barba branca que corre por entre as constelações vestindo seus chinelos de dedo? – , ela diria. Mas é claro como água intocada por humanos que Pietra não entenderia, mesmo que falasse a língua dos homens e a língua dos anjos porque, bom… ela não sabia em que língua falavam as borboletas/mariposas. E antes que pudesse tentar algo em inglês ou espanhol, a coisinha voadora finalizou a prece ou o cálculo, ou sabe-se lá o quê, e foi embora. Provavelmente era uma mariposa. Borboletas nunca iriam sem antes se despedir.

Eriberto volveu o olhar cor de oceano nada pacífico em direção a Pietra, ele tinha cheiro de cigarros e creme de barbear. E de batatas. Em algum lugar, lá no fundo… batatas. Ela estendeu a mão e deixou que os dedos dele pousassem, leves e concentrados, como a mariposa que um dia fora borboleta, na palma alva e molhada, dançando por sobre as linhas que se ramificavam na pele. O mundo acaba hoje e eu estarei dançando… Talvez ela devesse dizer. Aquilo, duas palavras, oito letras. Talvez ela devesse se aproximar e aspirar, e sentir no rosto pálido a barba mal-aparada. Ele ficava tão bonito de barba. E sem barba. E de olhos abertos, e de olhos fechados, e sorrindo seu sorriso torto e sorrindo seu sorriso reto, e mudo e falante, e quieto, calado e gritando e cantando e sério. Ele era tão tímido que ela quase não acreditava. Tímido e tagarela, como pode? Não sabia como se sentir diante dele, diante de toda aquela complexidade tão simples. Diante de todo o paradoxo que ele era.

“Mas era uma mariposa ou uma borboleta?”

Ele riu. Baforou no ar: “Ma. Ri. Po. Sa. Mariposa. Mari, pousa.” Sim, sim, marido e esposa, ele já tinha desmembrado a palavra antes. Eriberto estava sempre se esquecendo das coisas. Talvez por isso ainda não se cansara dela.

“Mariposa, em espanhol, quer dizer borboleta”, ele disse, com seu sotaque carregado. Mas que contraditório. Então ela era os dois, de qualquer maneira. Borboleta, mariposa… aqui um bicho, lá nos campos argentinos outro. “La lengua de las mariposas…”, sussurrou.

La lengua de las mariposas. “Dejáme ver seu futuro”, ele disse. Pietra nunca entedia o que ele queria dizer, aquela mistura louca de línguas, aquele movimento louco da língua, o acento espanhol fortíssimo e o português ainda em construção confuso. Olhava para os dedos brancos e suados. Pietra ficava nervosa quando ele chegava perto, talvez fosse o cheiro de batata. Arranhou-a de leve, tão delicado ele, sem nem querer ser. Uma delicadeza máscula, uma força desajeitada e ao mesmo tempo cuidadosa, como se soubesse que toda a sua experiência e toda a sua maturidade poderiam quebrá-la em duas se ele se desatentasse. Ela recolheu a mão. Não. Não deixo. “Deixa que eu vejo o seu”.

“Pero es lo mismo, Pietra. Es lo mismo.”

Permaneceu estática. Por que ela só entendia metade do que ele falava? (Porque a dúvida é o preço da pureza e é inútil ter certeza e eu vejo as placas dizendo não corra, não morra, não fume… eu vejo as placas cortando o horizonte, elas parecem facas de dois gumes) Porque seu português era indecente e seu espanhol muito trabalhoso. Ou talvez ela preferisse assim, fazer-se de desentendida pra não ter que concordar. Es lo mismo.

“Me diz alguma coisa em espanhol? Qualquer coisa. Mas uma coisa bonita.”

Eriberto sorriu, dessa vez tortamente. Era um sorriso de Michael Fassbender, todo largo e infinito, um ar sarcástico e peralta. Ela se derreteu, mas só um pouquinho. Ele lambeu os lábios, meio ressecados por causa do frio. “Añoranza.

Añoranza. Recitou a palavra, deliciando o som do ‘nho’, mastigando bem a pronúncia do ‘ssa’. ‘Sssssa’. O que é?

Ele se aproximou. Estava apoiado sobre uma das mãos, as veias do braço direito coberto de sardas agora mais aparentes, as pintinhas claras formando um caminho secreto para debaixo de suas roupas. O cheiro do cigarro cada vez mais alto, o cheiro do creme de barbear, o cheiro de Eriberto (añoranza). Devagarzinho, encostou o nariz de estatueta grega na bochecha corada dela, que instantaneamente se incendiou. Pousou (porque a vida era mesmo feita de pousos) silenciosamente os lábios finos na borda da orelha. “Ssssaudade, Pietra. Significa (o ‘g’ desaparecendo no meio do ‘n’ guloso) saudade”.

 

ps1: qual é a palavra mais bonita do idioma espanhol?

ps2: eu sei gostar de Pietra. E de Eriberto.

ps3: não importa o que vocês digam, eu finalmente o transformei num texto.

ps4: certo, eu já tinha feito isso.

ps5: fim.

with drops of jupiter in her hair

22 de maio de 2012 § 3 Comentários

– Quando você volta?

– Dentro de alguns dias…

– Quantos?

– Como?

– Quantos dias?

– Alguns.

– O que é alguns pra você?

– Alguns é alguns pra todo mundo.

– Eu sinto sua falta.

– Eu sinto saudade. Mas aqui é tão bonito…

– Tem vontade de ficar?

– Pra sempre?

– É.

– Um pouco. Mas é só vontade.

– Então você volta?

– Claro. É só vontade, mesmo.

– Como é Júpiter?

– Frio. Meus dedos estão arroxeados agora.

– Seus dedos estão sempre arroxeados.

– É, acho que é da natureza deles.

– Como está o céu?

– Agora?

– Uhum.

– Escuro. E cheio de estrelas.

– Eu tenho uma ótima teoria.

– Sobre estrelas?

– É.

– Ótimas teorias costumam estar erradas…

– Mas ainda são ótimas teorias.

– Você quer me contar?

– Quero. Um dia. Quando você voltar;

– Tudo bem. Eu gosto das suas teorias. E gosto de gostar de estrelas sem sabê-las.

– Por que eu só entendo metade do que você fala?

– Porque a dúvida é o preço da pureza, coelho.

– Foi o que eu disse. Como são os anéis?

– Grandes. E molhados. Eu levaria alguns pra você, mas são tão pesados…

– E as pesso… Desculpe. Esqueci que eles não gostam de ser chamados de…você sabe.

– Ah, tudo bem. Não tem ninguém por perto. Eles são simpáticos. E não são pesados. E falam feito loucos. Você ia gostar.

– É. Aposto que sim. Eu tenho que desligar. Eu te amo.

– Eu também tenho que ir. Ligações interplanetárias são caras. Mzuzu Chingadure.

– Saúde.

– Não. Mzuzu Chingadure é ‘eu te amo’ em jupiteriano.

– Você tem estudado?

– Só o que é importante.

– Tão bonita. Muzuzu Chingaduri, Pam.

– Sua pronúncia é horrível (ela ri). Eu gosto. Adeus.

– Adeus. E não se apaixone por uma estrela cadente.

– Eu não poderia. Já me apaixonei pelo que pedi a ela.

(a)os olhos do pai

22 de abril de 2012 § Deixe um comentário

Lá da janela do terceiro andar ela assistia, cabisbaixa, à bagagem sendo colocada no porta-malas do carro. Apertou os olhos e duas lágrimas que pendiam dali se libertaram, percorrendo todo o rosto pálido até chegar aos lábios e amargarem a boca.

– Oi, bonita.

Maria Luíza bateu à porta, que já estava aberta, e sem esperar resposta entrou no quarto com seus cabelos molhados presos num rabo de cavalo alto, a expressão satisfeita de quem finalmente se via livre de um fardo – Lembra que papai costumava te chamar desse jeito? ‘Bonita’.

Gabriela limpou com as mangas da blusa a face, e depois de respirar fundo e reunir coragem se voltou para a meia-irmã – Eu não quero ir, mas também não quero ficar. Entende?

Maria Luíza ficou quieta. Sentou-se na cama feita ao lado de Gabriela e passou as mãos frias pelas costas descobertas. “Ele nunca escondeu que você era a preferida. Mesmo sendo a única ilegítima.” Teceu a palavra pelos caminhos tortuosos dos lábios, pensando em dizê-la alto – Ilegítima. É tudo que você é. Ilegítima. Mas ficou quieta. Sabia que nunca haveria de gritar a verdade, não seria necessário. Gabriela sabia daquilo tão bem quanto todos os outros. Talvez por isso desejasse tanto ir – mas do que adiantaria? O sangue que lhe regava o corpo seria o mesmo, ela morando ao lado das irmãs ou longe delas. Podia fugir de todos eles, podia fugir da casa, podia fugir do olhar arrependido da mãe, mas nunca escaparia de si mesma. Nunca escaparia do passado. Nunca.

– Mamãe já acordou?

– Ela pediu que eu dissesse adeus em nome dela. Foi se deitar tarde ontem à noite, estava com uma dor de cabeça terrível…

Gabriela ficou de pé. Embora estivesse magoada, não estava surpresa. Talvez, no fundo, até se sentisse aliviada. Não saberia o que dizer na despedida, não teria pelo que agradecer, a não ser pela liberdade e pelo direito de partir.

Pegou os livros que estavam em cima do criado-mudo, fechou a janela e deu um beijo no rosto iluminado da irmã.

– Adeus, Malu.

Maria Luíza deu-lhe um beliscão leve na bochecha molhada – Adeus, maninha.

Gabriela saiu do quarto, desceu as escadas e entrou no carro. Não havia ninguém lá fora além dos empregados. Iria embora da mesma forma como chegara (à casa, ao mundo, à vida) – sozinha.

Maria Luíza olhou de relance para a menina excessivamente magra que entrava no carro. Apagou as luzes.

3 de março de 2012 § Deixe um comentário

A noite lá fora pedia socorro – não sabe que Luísa não está em condições de ajudar ninguém? Continuou debruçada sobre o beiral da janela, o cheiro doce da cidade invadindo o quarto com violência, quase como se se convidasse para dormir ali. Era uma sensação engraçada aquela, de observar a vida correndo enquanto ela permanecia estática com seus olhos escuros bem abertos. Tinha sido um dia cansativo e quente, e agora ela finalmente se sentia fresca, com a camisola esvoaçante e os cabelos recém-lavados. Era o tipo de liberdade que pedia a Deus todos os dias, a liberdade de se lavar – lavar os cabelos, o corpo, a alma… Arrancar da pele toda e qualquer cicatriz permanente. Os vaga-lumes rodopiavam em torno dos postes de luz acesos, os carros escorriam pelas avenidas como as gotas de chuva escorrem pelo vidro da janela em tardes de domingo – só que era segunda-feira, e ela não sabia que analogia fazer com aquilo que lhe era atirado à cara.

30 de dezembro de 2011 § Deixe um comentário

Ela ficou na ponta dos pés, os dedos brancos no piso frio e molhado. Frio e molhado. O beijo dele, frio e molhado. O mundo girando depressa, os olhos dele roubando suas palavras. Perto, mais perto, tão perto. Nem havia mais distância entre os dois. Ele sorriu. Afastou-se, o olhar quente, olhar tropical. Ele era todo de antíteses, todo de paradoxos. Todo de beijos, todo de olhares, todo de perguntas. Ela corou. Ele colocou os dedos sobre a boca dela, saiu correndo. Ela ficou ali, os pés no piso gelado, o rosto queimando.

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