das utopias

11 de agosto de 2012 § 4 Comentários

Pietra revirou os olhos – eles nunca pareceram tão grandes e castanhos.

Lorenzo a classificava como uma daquelas pessoas que não têm a boca circundada pelos lábios, e guardam secretamente o buraco negro da alma disfarçado de olhar, transbordando em ebriedade pelos cílios selvagens, escorrendo delicadamente pela face. Se tivesse que a beijar, seria nos olhos. “Se tivesse que a beijar”, repetiu para si mesmo, e a ideia soou desconfortável, mas convidativa. Havia uma razão para querê-la tanto, embora ainda não estivesse certo de qual era.

Estavam tão perto um do outro que ele podia ouvir Pietra respirando. O som quase inaudível ia e vinha acelerado, num ritmo de poema que Lorenzo gostaria de poder recitar. Seu braço estava ao redor dos ombros estreitos dela, e ele sabia que seus dedos frios a estavam incomodando, mesmo que ela não admitisse. A verdade era crua como a noite que pairava sobre suas cabeças: tudo o que os dois tinham era a frieza do corpo alheio. Numa quinta-feira silenciosa e insensata como aquela, alguns anos atrás, ela disse que nunca mais se apaixonaria. ‘Ainda bem que nós não nos gostamos’, ele concordou. Ainda bem.

– O que eu mais gosto nas estrelas é o som.

O que Lorenzo mais gostava em Pietra era o nome. E a forma como ela soava absurda. Por mais que soubesse o que viria a seguir, não se conteve e lhe deu a brecha: – Que som?

– O som silencioso. Você sabe. Essa coisa pacífica que não pode ser descrita nem entendida. Tão distantes e pequenas, elas ainda brilham.  Tão distantes e pequenas, elas ainda servem de inspiração e conforto pra gente que não tem luz própria. Gente como eu.

O que ele mais gostava nas estrelas era o mistério. Por amar tanto tudo o que tinha a ver com elas, sabia que não poderia ler nem sequer um livro repleto de teorias e explicações – isso estragaria tudo. Gostava de acreditar que elas eram apenas buracos cravados com unha no tecido escuro do céu. Buracos que revelavam indiscretamente um pouco do que havia lá fora.

– Senti falta disso.

– Do quê? – ela se virou, e ele mal podia enxergar seu rosto pálido no ébano noturno.

Tudo o que Pietra sentiu depois disso foi o gosto dos lábios sujos de amora.

“Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos se não fora
A mágica presença das estrelas!”

no fim da página 448

23 de julho de 2012 § 9 Comentários

“No começo, Liesel não conseguiu dizer nada. Talvez fosse a súbita turbulência do amor que sentiu por ele. Ou será que sempre o tinha amado? Era provável. Impedida como estava de falar, desejou que ele a beijasse. Quis que ele arrastasse sua mão e a puxasse para si. Não importava onde a beijasse. Na boca, no pescoço, na face. Sua pele estava vazia para o beijo, esperando.”

– A Menina Que Roubava Livros

edredons e dissabores

4 de julho de 2012 § 1 comentário

A tarde era branca – branca como o vazio.

Se era negra a ausência de cor, a ausência da voz era alva. E a palidez habitual dos dias aos poucos se metamorfoseava na brancura da pele dela, um deserto glacial envolto no manto estelar, a epiderme clara salpicada de luz, o caminhos das lágrimas pontilhado na bochecha esquerda. Vislumbrava seu rosto como se observasse uma espécie de santo; gostava de manter cada detalhe polido e intacto, o corpo esguio petrificado pelo tempo, o olhar felino imortalizado. Da última vez que a vira estava deitada na cama, as pernas magras e depiladas cobertas pelos lençóis amarelados até os joelhos. Balbuciava alguma coisa debilmente, mas, sem coragem, lucidez ou azar o bastante para formar frases com nexo, cerrou os lábios rachados e arroxeados (não sabia se pelo vinho ou se pelas amoras), e calou-se num adormecer tranquilo.

Ele era a ilha, desabitada, hostil, secreta. Ela era a sereia, infantil, esbelta e curiosa, como só uma mulher saberia ser. Dava voltas e voltas e voltas ao redor da areia dourada, o sol ardente a iluminar-lhe os cabelos negros, ele estático, pedra, barro, homem. Voltas e voltas e voltas e voltas. Talvez estivesse ficando bêbado. Tomou doses demais de vida, de paixão, de maré. Helena estendida na cama, a sereia se cansou de nadar. Nadava agora em sua sonolência, entorpecida pelo sabor da ebriedade. Como era bom não estar, não ser (!). Apenas um corpo que jaz sobre as almofadas, apenas um estorvo para os que despertam, ela não seria nada.

Teria prosseguido e lhe dado um beijo – a despedida silenciosa e amarga, com gosto de álcool e sal. O beijo que lhe devolveria a vida, roubando para sempre a dele. Mas não prosseguiu. Não a beijou. Permaneceu estático, com os olhos aflitos a vagar cautelosamente pelo cenário mórbido. Dentre tantas palavras ele escolhera a mais bonita, justamente para contrastar com o corpo desprovido de graça que, desfalecido, atirara-se ao oceano turbulento de edredons e dissabores. Cinco letras, começando com ‘a’.

22 de abril de 2012 § 2 Comentários

“eu queria ser assim, como uma árvore” ela disse.

Paulo ficou parado, apenas encarando seus olhos escuros. escuros como a noite, pensou. uma noite sem estrelas, noite vazia, solitária. uma noite crua, como aquela.

“uma árvore? com tanta coisa pra você querer ser, você escolhe logo uma árvore?” ele passou os dedos pelas longas madeixas de cabelo, cabelos de índia. tinha uma música que falava de índia, não tinha? índia da pele morena, sua boca pequena eu quero beijar. beijou. a boca, as bochechas, os olhos. foi beijando o rosto inteiro, de repente parou. melhor assim, sem muito beijo, que eu prefiro ficar te contemplando toda bela e toda pura, toda minha, ele dizia a si mesmo enquanto a imaginava índia.

“o que há de errado em querer ser árvore?” ela perguntou, um sorriso malandro nos lábios pintados de púrpura.

“o que há de especial numa árvore?”

ela se ergueu um pouco, apoiando a cabeça sobre os cotovelos no travesseiro. cotovelos, palavra engraçada, pensou. e podia ficar ali o resto da noite, pensando na graça que via nos próprios cotovelos, nos cotovelos alheios e no nome que aquilo levava, mas tinha que explicar a Paulo a história das árvores. ai, Paulo, nunca entende nada…

“pensa numa árvore. pensou?” Paulo fez que sim com a cabeça, os cachinhos do cabelo louro balançando. “tá. agora pensa em como ela nasceu. de uma semente, né? uma semente pequenininha, assim” ela mediu a semente com os dedos, quase que unindo o indicador ao polegar. depois pôs os dedos na boca de Paulo, ele os beijou. semente, semente, se não mente fale a verdade… tinha tanta música na cabeça, mas o quarto ainda estava quieto.

“entende? uma semente pequena de repente cresce e olha, vira árvore. uma árvore gigante e forte, robusta… cheia de folhas, que caem, e então nascem de novo, e caem de novo, e então renascem. o que eu gosto nas árvores é isso, Paulo. elas apenas são, entende? elas não pensam no que queriam ser, não tentam entender como tudo acontece, como nascem, e então tem filhos e etcetera e tal. elas só… bom, elas só são. e eu não consigo ser e só ser, entende?”

Paulo tamborilou os dedos brancos na cabeça de Aline, minha índia. “entendo, entendo. pra que tantos ‘entende’, eu entendi, querida, entendi. mas não sei se concordo. como sabe que a árvore é assim, passiva, só é e só vive? e se dentro daquele tronco parrudo existir um mar de dúvidas, e você nem sequer sabe? e se aquela árvore gigantesca do nosso jardim estiver se perguntando porque não pode ser como a menina morena da boca pequena que eu quero beijar? tão simples, tão apenas vivendo e sendo o que é? vai ver cada ser tem essa mania, de tentar ser menos, tentar entender menos, não sei. acho que se fosse árvore ia querer ser outra coisa.”

Aline mantinha os olhos nos próprios cotovelos. talvez tivesse razão, sobre isso de que nada apenas é, nem mesmo as árvores. não tinha como ter certeza, afinal de contas. “então que faço? se não posso nem querer ser árvore? que faço pra parar de tentar ser mais, que faço pra só existir?”

ele beijou seus braços escuros, a pinta, a pele de índia, que pele bonita ela tinha. o contraste com a dele fazia parecerem quase que opostos, o olho claro, o olho escuro, céu do dia, céu da noite. “por que só existir? fica aqui, dorme do meu lado, entende que te amo e é só isso. e deixa quieta essa sua angústia, deixa quieto esse seu espírito. só deixa, tá bem?”

deixou. dormiu nos braços dele, ele nos dela. os dias indo embora como as folhas das copas das árvores.

(então, tava falando de árvores com você ontem, não tava? e aí escrevi isso. eu sei, ficou ruim. mas, sei lá, queria contar dessa minha vontade de ser árvore sem deixar solto, então a menina queria ser árvore e eu a entendo… porque deve ser simples, realmente. ai, que vontade de ter nascido semente, dai não viveria essa loucura que é o não entender aqui dentro. complicado demais – ou a complicada sou eu? enfim… desculpem)

(a)os olhos do pai

22 de abril de 2012 § Deixe um comentário

Lá da janela do terceiro andar ela assistia, cabisbaixa, à bagagem sendo colocada no porta-malas do carro. Apertou os olhos e duas lágrimas que pendiam dali se libertaram, percorrendo todo o rosto pálido até chegar aos lábios e amargarem a boca.

– Oi, bonita.

Maria Luíza bateu à porta, que já estava aberta, e sem esperar resposta entrou no quarto com seus cabelos molhados presos num rabo de cavalo alto, a expressão satisfeita de quem finalmente se via livre de um fardo – Lembra que papai costumava te chamar desse jeito? ‘Bonita’.

Gabriela limpou com as mangas da blusa a face, e depois de respirar fundo e reunir coragem se voltou para a meia-irmã – Eu não quero ir, mas também não quero ficar. Entende?

Maria Luíza ficou quieta. Sentou-se na cama feita ao lado de Gabriela e passou as mãos frias pelas costas descobertas. “Ele nunca escondeu que você era a preferida. Mesmo sendo a única ilegítima.” Teceu a palavra pelos caminhos tortuosos dos lábios, pensando em dizê-la alto – Ilegítima. É tudo que você é. Ilegítima. Mas ficou quieta. Sabia que nunca haveria de gritar a verdade, não seria necessário. Gabriela sabia daquilo tão bem quanto todos os outros. Talvez por isso desejasse tanto ir – mas do que adiantaria? O sangue que lhe regava o corpo seria o mesmo, ela morando ao lado das irmãs ou longe delas. Podia fugir de todos eles, podia fugir da casa, podia fugir do olhar arrependido da mãe, mas nunca escaparia de si mesma. Nunca escaparia do passado. Nunca.

– Mamãe já acordou?

– Ela pediu que eu dissesse adeus em nome dela. Foi se deitar tarde ontem à noite, estava com uma dor de cabeça terrível…

Gabriela ficou de pé. Embora estivesse magoada, não estava surpresa. Talvez, no fundo, até se sentisse aliviada. Não saberia o que dizer na despedida, não teria pelo que agradecer, a não ser pela liberdade e pelo direito de partir.

Pegou os livros que estavam em cima do criado-mudo, fechou a janela e deu um beijo no rosto iluminado da irmã.

– Adeus, Malu.

Maria Luíza deu-lhe um beliscão leve na bochecha molhada – Adeus, maninha.

Gabriela saiu do quarto, desceu as escadas e entrou no carro. Não havia ninguém lá fora além dos empregados. Iria embora da mesma forma como chegara (à casa, ao mundo, à vida) – sozinha.

Maria Luíza olhou de relance para a menina excessivamente magra que entrava no carro. Apagou as luzes.

Apartment

14 de abril de 2012 § 6 Comentários

, a música soava familiar, embora ela estivesse certa de que nunca a escutara antes. Era algo na forma como o vocalista gritava as palavras que ela a muito custo conseguia traduzir – “depois de deixar meu apartamento eu sinto esse frio dentro de mim“. Depois de deixar a cidade ela sentia o frio se aproximando, não como a brisa doce cheirando a kiwi pela qual tanto ansiava durante as tardes longas e mormacentas de verão, mas como o frio impessoal e barulhento, o frio nebuloso e solitário que era digno de um filme europeu de final infeliz. O tipo de frio que, ela sabia, arrepiava o coração, e não os pelos do braço.

Ficou aliviada por ter ligado o rádio quando saíram de casa ou teria que iniciar e, o que era muito pior, manter uma conversa por todo o percurso. Aquilo seria impossível, considerando as circunstâncias. Derramou o olhar gélido por sobre o vidro embaçado da janela e se obrigou a lembrar quais eram as circunstâncias. Em primeiro lugar, Roberto está noivo. Noivo. Soletrou a palavra duas ou três vezes, para que a memorizasse bem e não corresse o risco de se esquecer momentaneamente de seu significado. Em segundo lugar, Roberto era seu amigo. Não, não era apenas seu amigo. Era seu melhor amigo. Aquela palavra tão pequenininha e tão carregada de acepção mudava a história toda. Ela tinha dezenas de amigos, todos eles muito adultos, maduros, íntimos. Todos eles eram maiores de idade, todos eles saiam com ela para beber nos finais de semana, todos eles se reuniam na casa de alguém para torcer e xingar em dia de jogo de futebol. Mas o adjetivo nanico que precedia o companheiro de festas e estudos mudava tudo: Roberto era quem estava lá quando ela não conseguia pregar os olhos durante a noite por causa da chuva. Roberto era quem estava lá quando ela tirava uma nota terrivelmente baixa (ou não tão terrivelmente baixa assim) e não sabia como parar de chorar. Roberto era quem estava lá quando ela acidentalmente bebia demais, e todos os outros queridos íntimos já haviam abandonado o bar há horas. Roberto, o garoto de cabelos escuros caídos por sobre os ombros largos como duas cortinas feitas de noite. O garoto do sorriso desnudo. O garoto do primeiro beijo. O garoto.

Qual era mesmo a circunstância? Alice esbarrou sem querer os olhos nele, tinha o queixo contraído, e nesses momentos era inevitável se lembrar do pai – só que ela nunca dizia o quanto os dois eram parecidos, porque sabia o quão irritado Beto ficaria. Afinal de contas, ninguém quer se parecer com um monstro. Mas era um monstro bonito, ah, era sim. Ela nunca mencionou o tropeço que tinha pelo ‘tio’ barbudo, aquela voz meio rouca e aquele jeito revolucionário, gostava de se sentar na varanda e ficar tocando violão, umas músicas em espanhol que faziam Alice inventar traduções alternativas, cada palavra um novo significado só dela. De certa forma ela sabia que um dia Roberto cresceria e ficaria a cara do pai, só não sabia que isso geraria mais que um tropeço – muito mais.

Roberto abaixou o volume do rádio, e Alice sentiu vontade de tirar os dedos dele dali e aumenta-lo de novo – ‘você não vai me obrigar a falar, vai? Por favor…’. Agora o carro estava parado, estacionado no encostamento. Havia árvores ao redor, estavam se aproximando da cidadezinha de habitantes alienados e fofoqueiros, todos uma gracinha, mas ainda não haviam chegado lá, Alice não suportaria um final de percurso repleto de conversa quando ela ainda discutia consigo mesma a respeito de que diabos estava fazendo ali.

– Você sabe que temos um combinado, não sabe?

Ela se obrigou a manter os olhos longe dos dele, e ainda assim era capaz de sentir a palavra se desvanecendo como se estivesse exposta às gotas de chuva que caiam lá fora. Noivo… noiv… no… O que era, mesmo?

– Como?

Os dedos de Roberto saltaram do botão para o rosto pálido dela, e aquele contato fez com que ela estremecesse. Depois de tirar delicadamente os fios de cabelos ressecados e distribuí-los metodicamente atrás das orelhas perfuradas, virou a face branca para ele. – Eu só estou te levando pra casa da sua mãe porque sei que a situação é delicada. Mas eu quero você de volta. E a tempo.

“Eu quero você de volta.” Queria mesmo? Com todos os defeitos, com todas as crises existências, com toda a feiura do rosto e a graça do corpo, com todo os adendos e com toda a paixão por Radiohead? Ah, se quisesse a teria, teria, sim. A Alice dos velhos tempos, dos tempos novos, do futuro e do felizes para sempre. Ficou deliciando a frase pelo momento em que foi possível, até que se sentiu obrigada a dar uma resposta, – A tempo…?

– O casamento.

– Ah.

Roberto franziu o cenho. Claro, o casamento. Do que ela achou que estivessem falando? Por favor, Alice, não torne as coisas mais complicadas do que já são. Como ele podia lhe pedir isso? Alice era a complicação em forma de gente pequena, sempre foi. Pedir para não complicar era como pedir para não ser – e nem ele nem ela queriam isso. Seja, Alice. Mas seja com calma, devagar, como tem que ser.

– Você vai.

Não era uma pergunta. Alice tinha vontade de chorar, só não entendia porquê; ela foi a primeira a saber do casamento, lembrava-se de estar em casa assistindo a Friends quando ele telefonou eufórico, mal conseguia falar, ‘Vou casar, Alice! Vou casar!’. E agora esse desespero súbito, essa necessidade de transformar em lágrima tudo o que ela não disse na ligação e tudo que ela não disse depois, não ia dizer agora e não chegaria a dizer nunca.

– Claro. Claro que sim. É só que… Você sabe, mamãe tá muito doente. Eu preciso ficar com ela, ela está tão velhinha, coitada. Eu tenho que ir, sabe. Mas eu volto, quando ela estiver melhor. Eu… não perderia isso, por nada. E é claro que mamãe vai melhorar logo.

Roberto sorriu porque sabia que era mentira, toda aquela história de não perder o casamento por nada.  E ele achava graça em assistir-lhe enquanto fingia – ela ficava rosa e agitada, as palavras vinham num fluxo exagerado, uma ideia atropelando a outra.

– Mas é claro. Eu vou te buscar, e te levar à força, se você não for com seus próprios pés.

Eles riram, e soavam tão bonitos rindo juntos. Alice tinha um ótimo dedo para melhores, e aquele era melhor em especial, era Beto. Seria um marido incrível, e um pai incrível, porque era um ser incrível. Então ela o beijou.

ps: Vermelhinha 1, por que eu sempre subestimo seus conselhos musicais? Fui ouvir essa banda agora e só depois de semanas passadas desde sua indicação me dei conta do quanto ela é incrível. Obrigada, hehe, vou roubá-la pra mim.

“eu sinto falta da Terra,

18 de março de 2012 § 2 Comentários

Clarice volveu os olhos castanhos em sua direção, fazendo com que Arnaldo instantaneamente mudasse o rumo dos seus, fingindo não notar o esbarrar acidental das almas conturbadas.

Tinha de ser cuidadoso. Estavam os dois naquela fase inicial do jogo, onde quem permanecer tempo demais com os olhos equatoriais perambulando sobre a face alheia perde – e só ele sabia como era absolutamente tentadora a ideia de perder, de se perder, se o prêmio fosse o gozo de permanecer ali, observando atentamente o corar das bochechas alvas dela. Quase tinha vontade de levantar bandeira branca, assumir em público o desejo ardente de se resignar, poder admirar sem pudor a forma como os dedos da menina castigavam a mecha de cabelo rebelde colocando-a metodicamente atrás da orelha, as sobrancelhas se unindo contra a insistência inconveniente dos fios marrons. Em vez disso, tilintou o talher no prato de porcelana, agrupou cuidadosamente os grãos de arroz e enfiou um punhado de ervilhas na boca, disfarçando um sorriso tímido que se dirigia involuntariamente à Clarice.

Era bonita. Não da forma convencional – não tinha curvas graciosas, nem no corpo nem no riso, era apenas um amontoado de brancura e vergonha, como se pecasse pelo simples fato de existir. Os cabelos bem cuidados lhe caiam sobre a face, lisos e castanhos, num tom mais claro que os olhos. Ah! os olhos. Podia pensar neles de novo, sem que sua mente se sentisse redundante? Não era escolha, demoraria a eternidade pensando apenas nos olhos, aqueles globos grandes e marrons, quentes como um dia mormacento de março. Gostava de assistir-lhes observá-lo reservadamente. Gostava de sua boca pequena, da maneira como os lábios finos permaneciam ligeiramente abertos, deixando os dentes brancos e separados à mostra. Gostava da pinta que enfeitava seu rosto redondo logo abaixo do olho esquerdo, das sobrancelhas arqueadas e negras, do nariz levemente adunco. Gostava de tudo a respeito dela, e sentia-se estranho porque aquilo tudo era novo, e vê-la e sentir seu coração bater depressa era surpreendente – não importava quantas vezes ele a visse durante o dia, cada reencontro era uma nova onda de nervosismo percorrendo seu corpo.

Era engraçado, porque eles nunca haviam de fato conversado. Fazia semanas que ele estava hospedado ali, na casa de sua madrinha, mãe de Clarice, e até então seus maiores e mais complexos diálogos se retinham em assuntos como o tempo. Ele mal podia esperar para perguntar-lhe sobre suas músicas preferidas – se tivesse sorte, talvez ela citasse algo de Elton John ou BeeGees. Mal podia conter-se ao imaginar as conversações, as confissões entusiasmadas, a amizade que cresceria entre os dois e, mais tarde, transformaria-se em algo maior. Mal podia esperar para tocar-lhe o corpo, os cabelos, para sentir-lhe o cheiro e o gosto, para poder olhá-la sem sentir receio de não ser correspondido. Mal podia esperar por tanta coisa, e tinha medo de que tanta coisa morresse como nascera – um conjunto de desejos e devaneios loucos e atormentados. Tantas semanas e ela se limitava a olhar, corar e sorrir. Depois desviava os olhos e continuava acenando a cabeça afirmativamente, enquanto a mãe dizia qualquer coisa sobre livros, peças de teatro a que nunca realmente assistira e estudos.

Ah, ele daria qualquer coisa por um momento a sós com ela, um único momento e lhe diria o que sentia e pensava desde que colocara os pés naquele sobrado, desde que a vira cambaleando ébria para dentro do quarto – a mãe aos gritos do lado de fora da casa, já era tarde e a filha estava por ai, com amigos mais velhos e desaprovados. Rosana, a madrinha e, com sorte, futura sogra, dirigiu-se à filha e lhe pediu que fosse até a cozinha buscar a sobremesa. Clarice assentiu, levantou-se, não sem espiar com o rabo do olho o rosto másculo de Arnaldo, e saiu.

Antes que fosse tarde ele se ergueu, pediu licença, retirou-se e correu até o cômodo onde Clarice se encontrava. Ela se virou na direção dele, já esperava que fosse seguida, talvez até torcesse por isso. Colocou as mãos ao redor da cintura dela – precisava ser astuto e pular algumas etapas. Clarice o encarou por alguns instantes. Arnaldo avançou um pouco, hesitou. E ela fez questão de preencher o espaço vazio, seu hálito alaranjado entorpecendo por um breve segundo os sentidos dele. Mais perto, mais perto, mais perto, até que não havia mais espaço para avançar. Arnaldo ficou ali, os lábios se movendo junto com os de Clarice, tão urgente como se tudo naquele momento devesse ser secreto – e como preferia que fosse, realmente, o segredo tornava o beijo mais precioso e necessário.

Onde estou?

Você está navegando em publicações marcadas com beijo em o segundo sol.