ou um cálculo matemático

29 de maio de 2012 § 3 Comentários

A borboleta pousou no parapeito da janela e permaneceu ali, exposta ao sol, quase como se, concentrada do jeito que estava, fizesse uma oração, ou um cálculo matemático.

“Senhor Deus das borboletas” – ou seria das mariposas? Ou seria o mesmo Deus de sempre, aquele senhor simpático de barba branca que corre por entre as constelações vestindo seus chinelos de dedo? – , ela diria. Mas é claro como água intocada por humanos que Pietra não entenderia, mesmo que falasse a língua dos homens e a língua dos anjos porque, bom… ela não sabia em que língua falavam as borboletas/mariposas. E antes que pudesse tentar algo em inglês ou espanhol, a coisinha voadora finalizou a prece ou o cálculo, ou sabe-se lá o quê, e foi embora. Provavelmente era uma mariposa. Borboletas nunca iriam sem antes se despedir.

Eriberto volveu o olhar cor de oceano nada pacífico em direção a Pietra, ele tinha cheiro de cigarros e creme de barbear. E de batatas. Em algum lugar, lá no fundo… batatas. Ela estendeu a mão e deixou que os dedos dele pousassem, leves e concentrados, como a mariposa que um dia fora borboleta, na palma alva e molhada, dançando por sobre as linhas que se ramificavam na pele. O mundo acaba hoje e eu estarei dançando… Talvez ela devesse dizer. Aquilo, duas palavras, oito letras. Talvez ela devesse se aproximar e aspirar, e sentir no rosto pálido a barba mal-aparada. Ele ficava tão bonito de barba. E sem barba. E de olhos abertos, e de olhos fechados, e sorrindo seu sorriso torto e sorrindo seu sorriso reto, e mudo e falante, e quieto, calado e gritando e cantando e sério. Ele era tão tímido que ela quase não acreditava. Tímido e tagarela, como pode? Não sabia como se sentir diante dele, diante de toda aquela complexidade tão simples. Diante de todo o paradoxo que ele era.

“Mas era uma mariposa ou uma borboleta?”

Ele riu. Baforou no ar: “Ma. Ri. Po. Sa. Mariposa. Mari, pousa.” Sim, sim, marido e esposa, ele já tinha desmembrado a palavra antes. Eriberto estava sempre se esquecendo das coisas. Talvez por isso ainda não se cansara dela.

“Mariposa, em espanhol, quer dizer borboleta”, ele disse, com seu sotaque carregado. Mas que contraditório. Então ela era os dois, de qualquer maneira. Borboleta, mariposa… aqui um bicho, lá nos campos argentinos outro. “La lengua de las mariposas…”, sussurrou.

La lengua de las mariposas. “Dejáme ver seu futuro”, ele disse. Pietra nunca entedia o que ele queria dizer, aquela mistura louca de línguas, aquele movimento louco da língua, o acento espanhol fortíssimo e o português ainda em construção confuso. Olhava para os dedos brancos e suados. Pietra ficava nervosa quando ele chegava perto, talvez fosse o cheiro de batata. Arranhou-a de leve, tão delicado ele, sem nem querer ser. Uma delicadeza máscula, uma força desajeitada e ao mesmo tempo cuidadosa, como se soubesse que toda a sua experiência e toda a sua maturidade poderiam quebrá-la em duas se ele se desatentasse. Ela recolheu a mão. Não. Não deixo. “Deixa que eu vejo o seu”.

“Pero es lo mismo, Pietra. Es lo mismo.”

Permaneceu estática. Por que ela só entendia metade do que ele falava? (Porque a dúvida é o preço da pureza e é inútil ter certeza e eu vejo as placas dizendo não corra, não morra, não fume… eu vejo as placas cortando o horizonte, elas parecem facas de dois gumes) Porque seu português era indecente e seu espanhol muito trabalhoso. Ou talvez ela preferisse assim, fazer-se de desentendida pra não ter que concordar. Es lo mismo.

“Me diz alguma coisa em espanhol? Qualquer coisa. Mas uma coisa bonita.”

Eriberto sorriu, dessa vez tortamente. Era um sorriso de Michael Fassbender, todo largo e infinito, um ar sarcástico e peralta. Ela se derreteu, mas só um pouquinho. Ele lambeu os lábios, meio ressecados por causa do frio. “Añoranza.

Añoranza. Recitou a palavra, deliciando o som do ‘nho’, mastigando bem a pronúncia do ‘ssa’. ‘Sssssa’. O que é?

Ele se aproximou. Estava apoiado sobre uma das mãos, as veias do braço direito coberto de sardas agora mais aparentes, as pintinhas claras formando um caminho secreto para debaixo de suas roupas. O cheiro do cigarro cada vez mais alto, o cheiro do creme de barbear, o cheiro de Eriberto (añoranza). Devagarzinho, encostou o nariz de estatueta grega na bochecha corada dela, que instantaneamente se incendiou. Pousou (porque a vida era mesmo feita de pousos) silenciosamente os lábios finos na borda da orelha. “Ssssaudade, Pietra. Significa (o ‘g’ desaparecendo no meio do ‘n’ guloso) saudade”.

 

ps1: qual é a palavra mais bonita do idioma espanhol?

ps2: eu sei gostar de Pietra. E de Eriberto.

ps3: não importa o que vocês digam, eu finalmente o transformei num texto.

ps4: certo, eu já tinha feito isso.

ps5: fim.

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E foi ao som das cigarras barulhentas e despertas que ele se sentou na varanda e ficou ali, penteando os cabelos longos dela

23 de fevereiro de 2012 § Deixe um comentário

E nunca na vida se sentira tão pleno.

Não que soubesse o que estar pleno significava – essa era uma das palavras que ele ouvia Soraya dizer e depois repetia, de si para si, deliciando o movimento que ela fazia com os lábios nas figuras tortas e coloridas que trazia na memória. Pleno.

Riu um riso abafado, bobo que ele nem acreditava que com seus vinte e poucos anos conseguia ser tão criança. Nem quando ainda tinha idade pra ser ingênuo o fora tanto.  Mas não se importava. Aliás, desde que Soraya aparecera toda sorrisos com seus olhos cor de mar ele não ligava para o que diziam, para o que deixava de ser dito, para todas as banalidades daquilo que lhe apresentaram como vida. Soraya era outra palavra que ele repetia devagar no silêncio do quarto, imaginando se o dançar dos lábios grossos dela era tão gostoso de se acompanhar quanto era de ser observado.

Ficou ali, quietinho, os olhos escuros para dentro das pálpebras que se abriam e fechavam depressa, enquanto a luz do sol invadia o cômodo pelas frestas largas da janela de madeira branca. Pensou nos cabelos negros que ela tinha, e que lhe desciam até quase a cintura. Pensou em como ficavam bonitos trançados, e em como gostaria de trançá-los, ele mesmo, um dia.

O som vinha da vitrola, eram os Engenheiros. Como era o verso? “Eu quis pagar pra veeeer…” Correu os dedos pela barba densa, aquela que ele não fazia já tinha tempos. É que ela gostava dos barbudos, ele sabia. Soraya, Soraya, Soraya, a menina mulher dos olhos cor de pedra preciosa e das sobrancelhas arqueadas. Suspirou fundo, o peito largo e forte se erguendo, aquela barriguinha que ele disfarçava com as camisetas mais largas descendo e subindo ao ritmo acelerado e nostálgico da música. Pegou o livro de cima da cama, abriu numa página qualquer. As Meninas. O favorito da menina dele. Detestava livros, nem sabia porque tinha pego emprestado. Lembrou-se do sorriso de satisfação no rosto dela, os dentes brancos em contraste com a pele escura acendendo aquele fogo engraçado que ele só sentia quando ia a jogos de futebol, pra ver o time ganhar de cinco a zero. Ah, sim. Foi por causa disso.

 

“Afinal de contas, o que nos trouxe até aqui? Medo ou coragem? Talvez nenhum dos dois.”

de amora ao amor

30 de dezembro de 2011 § Deixe um comentário

Ele ergueu um dos braços – o que tinha uma tatuagem de Ícaro que Alice adorava contornar com as unhas – e colheu uma amora, ainda verde. Alice abriu a boca, mordiscou o fruto. Franziu o cenho.

– Azeda? – Ele perguntou, os dedos penteando o cabelo escuro e liso, que lhe caia sobre a face.

Ela fez que sim com a cabeça – Perfeita.

Ele riu. Ele é Eriberto. O da tatuagem. Ícaro porque tinha essa fascinação por mitologia, em especial a grega. Era professor de História.

– É que ainda não está madura.

Alice lambeu os lábios. – Sabe que não concordo?

Eriberto uniu as sobrancelhas grossas, tirou uma mecha de cabelo dos olhos dela.

– Como assim? Não concorda que frutos fiquem maduros? – Ele riu – Não é algo com que se possa ou não concordar. Apenas é.

Ela se levantou, piscou os olhos depressa, como fazia enquanto defendia suas teorias e ideias, a maioria absurda.

– Não. Não concordo com isso, da fruta ficar mais doce e dar a ela o nome de madura. Por quê? E por que não é assim com a gente, com as pessoas? Ficam maduras e azedam, o sabor doce existe só quando se é jovem.

Ele pensou um pouco. Não sabia se concordava. Conhecia tanta juventude azeda, tanta juventude amarga. Tanto faz, não ia discutir com Alice. Não adiantava. Alice era boa nisso de brigar com pessoas, de ir até o fim por seus ideais, de lutar pelo que achava certo. Ou até pelo que achava errado, apenas gostava da sensação de ganhar. Abanou a cabeça num sinal afirmativo. Pegou mais amoras, as mais verdes, que eram as preferidas dela.

Ela as comeu rápido, parecia uma pequena e delicada máquina de comer frutinhas vermelhas. Sujou seus dedos com o suco da fruta.

– Veja, Beto, estou sangrando. – Ela fez uma expressão de dor, mostrou o pulso pra ele, o sulco vermelho escorrendo pelo braço.

Ele sorriu, os dentes meio amarelados, por causa do café. Ainda assim, era um sorriso bonito. Fez com que ela sorrisse também, embora estivesse dentro da personagem. Adorava estar dentro de personagens, era atriz. Por nada deixava de interpretar. Mas aquele sorriso… Ah, era o sorriso preferido dela, em todo o mundo.

Ele se aproximou, segurou seu braço com firmeza, mas sem fazer força. – Gosta de vampiros, não gosta? Pois vou ser seu vampiro, vamos brincar assim. – Ele lançou-lhe um olhar malicioso.

Eriberto beijou seus dedos, seu braço, o líquido vermelho vibrante.

Alice ficou ali, pele com pele, debaixo da árvore de amoras.

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