10 de abril de 2016 § Deixe um comentário

Percebeu, em um momento de revelação súbita, que nunca escrevera sobre Miguel.

Justo ela, que tinha por hábito anotar nas páginas gastas de seu diário os nomes de todo e qualquer homem que cruzasse seu caminho. Justo ela, que gostava de descrever, com riqueza de detalhes, o rosto, o contorno dos lábios, a profundidade do côncavo, o relevo da barba mal-feita, a dilatação exagerada das pupilas. Justo ela, que nunca fora mulher de falar, sempre fora mulher de escrever.

Percebeu que as páginas gastas, além de gastas, estavam vazias. E não por um fim de semana ocupado, mas pelo tempo que se arrastara por meses, simulando uma vida. Duas décadas em um par de semestres, fios grisalhos e rugas imaginárias que foram tomando, aos poucos, o lugar do ar pueril que um dia ela tanto detestara. Justo ela, que queria tanto crescer, e brincava de tomar café e andar pelo apartamento em reforma com sapatos que faziam barulho para se sentir velha e cheia de dores – dores nas juntas, dores de cabeça, essa enxaqueca que não passa porque a vida adulta é tão complicada. Estava agora debruçada sobre folhas vincadas, em branco. Mas não o branco puro da estréia, não o branco da novidade, da promessa de um futuro ainda não descoberto. Um branco com toques de amarelo, o branco do passado que escorreu pelos dedos, mas não sem antes sujá-los de tinta; o branco do esquecimento, das palavras deformadas escritas com força, meio apagadas, mas nunca por completo.

Justo ela, que tentava encontrar lirismo em cada frase rabiscada num muro, num poste, num livro. Justo ela, olhando para a tela do computador onde se via o rosto dele, não se sentia capaz de escrever um período que fosse sobre a história terminada antes do fim.

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