O primeiro foi seu pai, o segundo seu irmão, e o terceiro foi aquele a quem Tereza deu a mão

12 de março de 2012 § Deixe um comentário

Quando Tereza se deu conta lá estavam as mãos dele, segurando firme nas suas, seus lábios carnudos sussurrando promessas tentadoras ao pé de seu ouvido, o corpo quente tão próximo que ela quase se esquecia de que ele era um babaca e a única coisa que merecia dela era um tapa na cara, um chute nos países baixos e um eterno adeus. Olhou fundo nos olhos tropicais, e repetiu para si mesma que se ele não fosse tão barbudo as coisas seriam diferentes. Ah, me engana que eu gosto, Terezinha.

– Quer parar? – ela disse, se livrando do abraço quente e apertado dele.

– Não, não quero. E nem você quer. Agora, quer deixar de ser boba e me permitir amar você?

– Já chega, Davi. Você sabe que isso não é certo.

Davi – o bonitão de barba mal-feita e tatuagem no peito (o pivô da pior briga dos dois) – revirou os olhos escuros feito oceano quando não se tem o sol para iluminar a turbulência selvagem que há lá embaixo, e sorriu seu sorriso Colgate.

– E você sabe que eu nunca me importei em fazer o que é certo.

– Então talvez seja hora de começar. Já pensou o que sua mulher faria se nos visse assim?

– O que a Ingrid faria, você quer dizer.

Tereza ajeitou a blusa decotada, arrumou o cabelo desgrenhado por trás das orelhas salientes e continuou, num tom sério que lhe caia muito melhor do que aquele sorrisinho trouxa do qual ela andara abusando nos últimos meses:

– Não, eu quero dizer sua mulher, porque é isso que a Ingrid é.

– Nós estamos nos separando…

– Mas ainda não estão separados. E isso muda tudo.

– Ah, por favor – Davi passou a mão pela barba densa, a voz num tom debochado que fazia Tereza querer gritar e chorar, ao mesmo tempo – não venha bancar a Madre Tereza pra cima de mim. Há meio minuto você não dava a minima para o fato de, tecnicamente, eu ser casado. Não finja ser a religiosa que você não é, Têre. Não fica convincente.

A feição de Tereza se contorceu toda, sentia tanta raiva que era capaz de dar as costas para Davi naquele instante e ir embora, sem dizer-lhe uma única palavra – mas é claro que ela não o fez. Por causa da barba, do sorriso, de todo o ele que estava ali diante dela, implorando com um olhar suplicante para que não o levasse tão a sério e ficasse.

– Não é uma questão de religião, idiota – ela falou, entre dentes – é uma questão de ética. E você devia saber disso. Não é o sabichão, senhor que cursa a faculdade de Filosofia?

– Somos todos uns hipócritas, não somos?

Ah, o jeito cínico de Davi a tirava do sério.

– Você é. Não iguale a humanidade a você, Davi. Nem todo mundo é tão sem moral.

– Quer saber? Se você me acha tão detestável, por que não vai embora? Por que você não se vira, e sai? Eu não vou te impedir, você sabe disso. Eu posso ser um hipócrita, um babaca, um idiota, como você mesma diz. Mas eu não vou te forçar a nada que você não queira. Eu nunca fiz isso, e nem vou fazer.

Simples assim. Se vire e vá. Corra, Tereza, Terezinha, Terezoca, corra corra e corra. Você é livre, por que não abre suas asas de papel crepom e voa com destino ao… Paraíso? Não precisaria se mover muito para chegar lá, os olhos dele eram a versão mais autêntica do Paraíso que ela conhecia. “Diacho”.

Davi chegou mais perto, o cheiro do perfume barato misturado com o do vinho que seu hálito exalava entorpecendo os sentidos e as vontades de Tereza – Você sabe, Terezinha, que eu te amo. Então não se preocupe, tá bem? Eu te amo.

Anúncios

Marcado:, , , ,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

O que é isso?

Você está lendo no momento O primeiro foi seu pai, o segundo seu irmão, e o terceiro foi aquele a quem Tereza deu a mão no o segundo sol.

Meta

%d blogueiros gostam disto: