26 de fevereiro de 2012 § Deixe um comentário

Matheus se ajeitou no banco do carro, estendendo suas pernas morenas por sobre os joelhos brancos e pontudos da moça. Joana foi ficando encolhida, quase como se quisesse atravessar a janela embaçada e evaporar dali. A proximidade entre os dois não a incomodava – na verdade, ela se sentia infinitamente feliz por tê-lo tão perto. E era justamente ai que morava o perigo – essa tal felicidade que vira e mexe aparecia para incomodar. Quando se tratava de Matheus, qualquer sorriso, qualquer arquear de sobrancelhas feitas, qualquer palpite equivocado, e lá se iam, por água abaixo, os dias de terapia (musical, claro, porque ela tinha medo de consultórios), correndo em direção ao piso frio junto com as lágrimas amargas.

– Certo, e o que me diz de João Bosco e Vinícius? – ele disse, pigarreando e cantando, num tom desafinado, mas ainda assim encantador, letras que ela já havia escutado nas rádios. As sobrancelhas grossas foram se unindo e formando rugas de expressão em sua testa, que era um pouco proeminente, enquanto ele fechava os olhos com convicção e usava o celular como microfone.

Ela revirou os olhos escuros – Não.

– E que tal Maria Cecília e Rodolfo?

Joana estalou a língua, num gesto de deboche – Não.

– Jorge e Mateus?

– Hm.  Também não.

Matheus correu os dedos pelos cabelos armados, aquele emaranhado selvagem e negro que ele despenteava com as mãos compulsivamente. – Nada?

Joana balançou a cabeça, os fios de cabelo repicados batendo-lhe no rosto enquanto a face pálida se divertia com a descrença do rapaz. – Nadica de nada. Não adianta, Matheus. Eu não gosto de sertanejo. Nem nunca vou gostar. Fim.

– É só que você ainda não achou o cara que vai te fazer gostar.

Joana ficou cor-de-rosa, da cor das listras da blusa que vestia.

– Quer saber? Só pra te provar o contrário, tem uma música sertaneja de que eu gosto.

O rosto dele se iluminou. – Ah, é? Qual?

– Jeito de mato.

Matheus aproximou seu rosto do dela, o cheiro do perfume barato entorpecendo os sentidos de Joana, os olhos profundos cravando sua pele translúcida.

– Essa aqui? – ele perguntou, colocando o fone no ouvido dela.

Joana sorriu, os dentes brancos se estendendo como um tapete por entre os lábios cobertos de manteiga de cacau. Sussurrou, para si mesma, uma palavra feia.

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