8 de fevereiro de 2012 § Deixe um comentário

Ontem te vi passar perto de casa, e de repente aquele buraco no peito se abriu, quase como se seus olhos escuros o estivessem cavando conforme me tragavam, eu, navegante de primeira viagem, pra dentro desses fossos escuros e assombrados. Respirei fundo, pensei em apenas passar diante de ti, seguir meu caminho, minha própria correnteza, minha vidinha pacata de compras em hortifrútis e idas ao sebo nos fins de semana. Mas a verdade é que esse tipo de coisa, esse tipo de olhos, esse tipo de corpo e de sorriso não se confunde com a paisagem tão facilmente, e eu tive que pensar em sentir saudades suas. Parei por um instante, refleti sobre o assunto. Sentir sua falta implicava em passar noites em claro, escrever textos melodramáticos e imaginar que todo personagem romântico e apaixonável de um livro Jane Austeniano é ruivo. Implicava em falar seu nome pelo menos uma vez a cada doze frases, imaginar seu rosto no meio das equações matemáticas e suspirar a cada trinta minutos, mais ou menos, seguindo com um típico ‘ai, ai’  enamorado.

Não valia a pena, mas eu já não tinha escolha. Seus olhos tropicais me encontraram, e, como de costume, você demorou um pouco para sorrir. Talvez não tenha me reconhecido logo de cara, ou simplesmente estivesse pesando os dois lados da coisa, como eu. De um jeito ou de outro, o sorriso veio, todo amarelo, todo torto, todo bonito, todo você. Entendi porque tanta reflexão, era esse sorriso que eu queria evitar, o sorriso mais feio e mais lindo do mundo, ao mesmo tempo. O sorriso que fazia meu coração acelerar e quase parar, ao mesmo tempo. O sorriso que me fazia querer correr para longe de ti, e para seus braços, ao mesmo tempo. Tudo, tudo ao mesmo tempo, que quando se trata de você não tem isso de passo a passo, é tudo de uma vez. Todo o ódio, todo o amor, todo o ímpeto, todo o remorso.

Quase que atravessei a rua e me atirei em direção ao seu peito, minha vontade era de me encolher ali e morar dentro do seu casaco marrom para sempre. Só que aquela coisinha irritante de voz afeminada surgiu, me fazendo mudar os planos, me fazendo perder a coragem, o impulso, a linha de pensamento. Aquela coisinha irritante que te acompanha de um lado para o outro, sua noiva, namorada, duende, sei lá o quê. Saiu de dentro da padaria, o sorriso quase que não cabendo nos lábios pintados de vermelho. Entendi o porquê daquela felicidade, algumas pessoas a chamam pelo seu nome, sabia? Te deu o braço, encostou a cabeça cabeluda no seu ombro largo, e os dois saíram andando, ela com sua bolsa cruzando o peito, uma sacolinha engordurada pendendo de uma das mãos, o vento batendo na cara branca que você tanto ama e beija.

Você nem se virou para acenar, dizer um adeus, ou gritar rua afora que ama. Suas pernas cheias de cicatrizes foram apertando o passo, a barba mal feita poluindo todo o rosto cheio de rugas de expressão que ainda vêm me atormentar os sonhos.

Dei meia volta, sorri para o dia azul que se estendia diante de mim. Ia voltar para casa, tomar um banho, tirar você da minha cabeça. Ou pelo menos fingir que tinha essa pretensão.

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